Marcação a mercado: como o Tesouro IPCA+ rendeu 320% do CDI
Entenda como a marcação a mercado levou o Tesouro IPCA+ 2040 a render 320% do CDI e quais são os riscos dessa estratégia para o investidor
Um título do Tesouro Direto pode render muito mais do que o CDI em um período curto, mesmo sem ter sua remuneração diretamente ligada a esse indicador. Foi o que aconteceu com o Tesouro IPCA+ 2040, que acumulou uma valorização equivalente a aproximadamente 320% do CDI em três meses.
O resultado foi provocado pela marcação a mercado, mecanismo que faz o preço dos títulos públicos oscilar conforme as taxas de juros negociadas no mercado.
Essa dinâmica pode gerar ganhos expressivos para o investidor, mas também pode provocar perdas caso seja necessário vender o título antes do vencimento.
O que é marcação a mercado?
A marcação a mercado é a atualização diária do preço de um investimento de acordo com as condições atuais do mercado.
No Tesouro Direto, esse efeito é especialmente importante em títulos como o Tesouro Prefixado e o Tesouro IPCA+.
Isso acontece porque esses investimentos possuem um componente de juros prefixado. Quando as taxas exigidas pelo mercado mudam, o preço do título também precisa mudar.
Na prática, existe uma relação inversa: quando as taxas de juros caem, o preço do título tende a subir. Quando os juros sobem, o preço tende a cair.
Por isso, um investidor pode registrar uma valorização significativa antes mesmo do vencimento do papel.
Qual é a diferença entre Tesouro Selic, prefixado e IPCA+?
O Tesouro Direto oferece títulos com características diferentes.
O Tesouro Selic é pós-fixado. Sua rentabilidade acompanha a taxa Selic e seu preço costuma apresentar oscilações menores.
Já o Tesouro Prefixado estabelece uma taxa de juros no momento da aplicação. Se o investidor permanecer com o título até o vencimento, recebe a rentabilidade contratada.
O Tesouro IPCA+ combina a inflação medida pelo IPCA com uma taxa de juros prefixada. Por isso, além de proteger o poder de compra no longo prazo, também pode apresentar oscilações relevantes de preço antes do vencimento.
Essas diferenças são importantes porque determinam como cada título reage às mudanças nas expectativas para os juros.
Como a queda dos juros aumenta o preço do título?
Imagine um título que pagará R$ 1.000 daqui a cinco anos.
Se a taxa exigida pelo mercado for de 10% ao ano, o valor presente desse título fica próximo de R$ 621.
Agora imagine que a taxa de mercado caia para 5%.
Como o pagamento futuro de R$ 1.000 continua o mesmo, o preço atual do título sobe para aproximadamente R$ 784.
Ou seja, apenas a queda da taxa de juros provocou uma valorização relevante do papel.
O movimento contrário também acontece.
Se a taxa de mercado subir para 15% ao ano, por exemplo, o valor atual do mesmo título cairia para aproximadamente R$ 497.
Esse é o principal efeito da marcação a mercado: o preço dos títulos se ajusta continuamente às taxas negociadas naquele momento.

Por que o Tesouro IPCA+ 2040 rendeu 320% do CDI?
Em 30 de julho de 2026, o Tesouro IPCA+ 2040 negociava com uma taxa próxima de IPCA mais 7,83% ao ano. Naquele momento, o preço do título estava em aproximadamente R$ 1.654.
Nos meses seguintes, a taxa caiu para cerca de IPCA mais 7,15% ao ano. Com a queda dos juros, o efeito da marcação a mercado valorizou o título. Seu preço passou de aproximadamente R$ 1.654 para R$ 1.831.
Isso representa uma alta de cerca de 10,7% no período.
Em termos mensais, o ganho ficou próximo de 3,43%. Considerando um CDI mensal de aproximadamente 1,07% para a comparação, a valorização correspondeu a cerca de 320% do CDI.
Isso não significa que o Tesouro IPCA+ pague 320% do CDI.
O percentual apenas compara a valorização registrada pelo título naquele período com o retorno do CDI no mesmo intervalo.
É possível ganhar 320% do CDI novamente?
É possível que títulos públicos apresentem novas valorizações expressivas por causa da marcação a mercado, mas não existe garantia de que um movimento semelhante acontecerá novamente.
Para isso, seria necessário que as taxas de juros caíssem de forma significativa. O problema é que prever essa movimentação não é simples.
Antes da queda que valorizou o Tesouro IPCA+ 2040, as taxas também haviam subido. Naquele momento, quem possuía o título sofreu o efeito contrário da marcação a mercado, com redução no preço do papel.
Por isso, ganhos elevados em períodos curtos não devem ser interpretados como uma característica permanente do Tesouro IPCA+.
É possível perder dinheiro com marcação a mercado?
Sim. A mesma dinâmica que gera valorização quando os juros caem provoca perdas quando as taxas sobem.
Se um investidor compra um título pagando IPCA mais determinada taxa e, posteriormente, o mercado passa a oferecer uma remuneração maior, o papel adquirido anteriormente se torna menos atrativo.
Para compensar essa diferença, seu preço cai.
A perda se torna efetiva caso o investidor venda o título naquele momento.
Se o objetivo for manter o papel até o vencimento, a lógica é diferente: o investidor mantém a rentabilidade contratada na compra, desde que respeitadas as condições do título.
Marcação a mercado é indicada para reserva de emergência?
Títulos com forte exposição à marcação a mercado não são indicados para recursos que podem ser necessários no curto prazo.
Isso acontece porque o investidor pode precisar vender justamente em um momento de queda do preço.
Para uma reserva de emergência ou para dinheiro que será utilizado nos próximos anos, o Tesouro Selic tende a ser uma alternativa mais adequada entre os títulos públicos por apresentar menor volatilidade.
Já os títulos prefixados e indexados ao IPCA exigem maior atenção ao prazo e ao objetivo do investimento.
Quanto mais distante o vencimento, maior tende a ser a sensibilidade do preço às mudanças nas taxas de juros.
Quando investir em Tesouro Prefixado ou IPCA+?
Títulos com componente prefixado ganham destaque principalmente quando existe uma expectativa de queda das taxas de juros.
Se o investidor compra um título com uma taxa elevada e, posteriormente, os juros exigidos pelo mercado caem, o papel tende a se valorizar.
Essa valorização pode ser ainda maior em títulos de longo prazo.
Por outro lado, tentar antecipar os movimentos dos juros envolve risco.
Uma mudança no cenário fiscal, político, inflacionário ou econômico pode fazer as taxas seguirem na direção contrária e provocar desvalorização dos títulos.
Por isso, a decisão de investir não deve depender apenas da expectativa de obter ganhos rápidos com marcação a mercado.
Quanto um título pode valorizar com a queda dos juros?
Não existe um limite único de valorização. O resultado depende principalmente do prazo do título e da intensidade da movimentação das taxas.
Quanto mais longo for o vencimento, maior tende a ser o impacto de uma mudança nos juros sobre o preço.
Em movimentos fortes de queda das taxas, títulos longos podem registrar valorizações muito superiores ao CDI durante determinados períodos.
Um exemplo aconteceu em 2016, quando títulos IPCA+ de prazo longo chegaram a registrar ganhos expressivos ao longo do ano em meio à queda das taxas de juros.
O mesmo nível de sensibilidade, porém, funciona nos dois sentidos. Se as taxas sobem de forma significativa, a desvalorização também pode ser elevada.
O que pode fazer as taxas dos títulos públicos caírem?
As taxas negociadas pelo mercado refletem as expectativas dos investidores para os próximos anos.
Inflação, política fiscal, dívida pública, atividade econômica, decisões do Banco Central e cenário internacional estão entre os fatores que podem influenciar essas expectativas.
O ambiente político também pode afetar os juros futuros quando existe incerteza sobre qual política econômica será adotada nos anos seguintes.
Por isso, o mercado não espera necessariamente uma mudança concreta na taxa Selic para alterar o preço dos títulos.
As expectativas sobre o futuro já podem provocar movimentos relevantes nas taxas e, consequentemente, na marcação a mercado.
Vale a pena investir buscando ganhos com marcação a mercado?
Buscar ganhos com marcação a mercado pode funcionar, mas exige aceitar um nível maior de incerteza. A estratégia depende da expectativa de que as taxas caiam depois da compra do título.
Se isso acontecer, o investidor pode vender o papel antecipadamente com valorização. Se as taxas subirem, o efeito será contrário.
Por isso, marcação a mercado não deve ser vista como uma maneira garantida de superar o CDI.
Ela é uma consequência das oscilações das taxas de juros e pode beneficiar ou prejudicar o investidor, dependendo do momento da compra e da venda.
Tesouro IPCA+ 2040 ainda vale a pena?
O Tesouro IPCA+ 2040 pode continuar sendo interessante para investidores que possuem objetivos de longo prazo e querem proteger parte do patrimônio contra a inflação.
Uma taxa próxima de IPCA mais 7% ao ano representa uma remuneração real elevada para quem pretende manter o título até o vencimento.
Isso, porém, é diferente de comprar o papel esperando um novo ganho de curto prazo com marcação a mercado.
Para repetir uma valorização semelhante à registrada nos últimos meses, seria necessária uma nova queda relevante das taxas. Portanto, existem duas estratégias diferentes.
O investidor pode comprar o título pensando na remuneração de IPCA mais juros até o vencimento ou tentar aproveitar uma eventual valorização provocada pela queda das taxas.
A primeira estratégia depende principalmente do planejamento de longo prazo. A segunda exige uma leitura correta sobre o comportamento futuro dos juros e envolve maior risco.
A valorização equivalente a aproximadamente 320% do CDI mostra o potencial da marcação a mercado, mas também reforça um ponto importante: retornos elevados em períodos curtos não são garantidos e podem ser acompanhados por oscilações relevantes no preço dos títulos.
Seu patrimônio está trabalhando da melhor forma possível?
Com mais de R$ 1 milhão investidos, pequenas decisões de alocação podem fazer uma grande diferença no resultado e no risco da carteira.
Na Nord Wealth, você pode ter uma avaliação gratuita dos seus investimentos e conversar com um especialista para identificar oportunidades, riscos e possíveis ajustes na estratégia. A primeira conversa é gratuita e não exige compromisso.
A Nord Wealth é a consultoria de wealth management independente da Nord Investimentos e a mais premiada do Brasil: é a única top performer presente nos rankings da XP e do BTG. Fundada em 2020, já soma mais de R$ 12 bilhões sob consultoria.
Diferentemente das assessorias ligadas a bancos e corretoras, opera no modelo fee-based, em que o cliente remunera a consultoria diretamente e recebe de volta as comissões pagas pelos produtos financeiros. Por isso, nenhuma recomendação depende do que gera mais receita para quem recomenda.
Uma equipe de mais de 20 analistas cobre renda fixa, renda variável, crédito privado, criptoativos e investimentos no exterior, com acesso a mais de 12 instituições financeiras no Brasil e parceiros internacionais.


