Venezuela e investimentos: o impacto da captura de Maduro

A captura de Nicolás Maduro coloca a Venezuela no centro da geopolítica e acende alertas para petróleo, ouro e gás. Veja o que muda para o investidor

Fabiano Vaz 05/01/2026 10:00 4 min
Venezuela e investimentos: o impacto da captura de Maduro

A América Latina acordou diferente no primeiro sábado de 2026. A captura do ditador Nicolás Maduro e a intervenção dos EUA na Venezuela representam o maior evento geopolítico do nosso continente nas últimas décadas.

Ainda é cedo, mas esse acontecimento coloca a Venezuela no centro do tabuleiro geopolítico e tem potencial de redesenhar o fluxo das commodities e a economia mundial.

A ascensão e a queda da Venezuela

Poucos países simbolizam tão bem a maldição ou o privilégio dos recursos naturais quanto a Venezuela.

Durante décadas, a Venezuela surfou o milagre do petróleo. O país latino-americano chegou a ser uma das economias mais ricas do mundo na década de 70, sustentada por receitas abundantes da commodity.

O problema nunca foi a falta de recursos, mas a forma como eles foram usados.

Com os choques do petróleo e o endividamento, a Venezuela entrou em instabilidade fiscal e social a partir dos anos 80.

A derrocada começou no final dos anos 90, com a ascensão do chavismo, que ainda surfou o boom das commodities dos anos 2000.

 PIB per capita (US$ corrente) da América Latina e Caribe (verde) e Venezuela (azul). Fonte: Banco Mundial

Contudo, as nacionalizações, o controle de preços, o aparelhamento estatal, a corrupção e o populismo destruíram a economia venezuelana.

A maior reserva do mundo

Mesmo operando muito abaixo do seu potencial, a Venezuela continua sentada sobre uma das maiores reservas de petróleo do planeta.

Superando a Arábia Saudita, o país detém a maior reserva do mundo, com pouco mais de 300 bilhões de barris de petróleo, representando cerca de 18% das reservas mundiais.

Por outro lado, mesmo com esse enorme potencial, atualmente nosso vizinho produz pouco mais de 1 milhão de barris por dia. Para se ter uma ideia, o Brasil — com uma reserva muito menor — produz aproximadamente três vezes mais.

 Os EUA lideram o ranking como o maior produtor de petróleo, seguidos de perto pela Rússia e pela Arábia Saudita. Fonte: Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP)

Mas, apesar de vivermos em um mundo que discute a transição energética, ainda dependemos fortemente do petróleo.

O petróleo venezuelano ainda importa?

A Venezuela poderia, ao longo de anos, recolocar milhões de barris por dia no mercado. Esse potencial tem grande capacidade de alterar a dinâmica da oferta de petróleo no longo prazo.

No curto prazo, porém, essa capacidade é bastante limitada, sendo os impactos mais significativos no aspecto geopolítico. 

Na abertura do mercado desta segunda-feira, 5, por exemplo, o petróleo abriu estável. O gás, por sua vez, caía mais de -4% e o ouro subia quase +2%.

Mesmo detendo a maior reserva de petróleo do mundo, a deterioração do setor de óleo e gás venezuelano, ao longo dos últimos anos, impede qualquer impacto no curto prazo. 

E, para realmente ser determinante para a oferta da commodity no futuro, os investimentos na indústria da Venezuela são relevantes e demandam tempo.

 O colapso da indústria petrolífera venezuelana. Fonte: Twitter The Kobeissi Letter

O petróleo pode até ser o protagonista, mas não é o único ativo estratégico venezuelano.

O “lado B” da Venezuela

Assim como o Brasil, a Venezuela também possui uma grande riqueza de recursos naturais, com reservas relevantes de gás natural, ouro, ferro, bauxita e outros metais.

Em um cenário de normalização institucional, esses ativos poderiam atrair mineradoras e empresas de energia.

Assim como no óleo e gás, para o mercado global de commodities metálicas, isso adiciona uma nova variável: a possibilidade de incremento na oferta mundial.

Muito além da Venezuela

A prisão de Nicolás Maduro e a possibilidade de intervenção dos EUA não têm impacto apenas local — reverberam ao redor do globo.

O evento do último final de semana tem um efeito significativo no xadrez geopolítico, devido à longa e conhecida relação do regime chavista com a Rússia, a China e o Irã.

Mas ainda é cedo. O jogo de xadrez geopolítico é complexo, e os movimentos, muitas vezes, são lentos e imperceptíveis.

Paciência e disciplina

Tudo ainda está no começo e os desdobramentos desse evento são incertos.

Não há tese de curto prazo, qualquer impacto real nas commodities levaria anos para se materializar — e depende de inúmeras variáveis políticas e econômicas. 

A história da Venezuela ensina uma lição valiosa para os investidores: os recursos criam potencial, mas são as instituições e os fundamentos sólidos que criam valor.

O tempo esclarecerá se estamos diante de uma inflexão histórica ou apenas de mais um capítulo turbulento da geopolítica global.

O ano de 2026 apenas começou para o investidor brasileiro, que ainda vai atravessar um ciclo eleitoral.

Dito isso, vale sempre reforçar: o melhor ativo para o investidor continua sendo a paciência.

“Você precisa de paciência, disciplina e agilidade para lidar com perdas e adversidades sem enlouquecer.” Charlie Munger

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