Super PEC de Transição e segundo turno: por que o mercado reagiu tanto

Simulador mostra Flávio à frente no 2º turno, e a Super PEC de R$ 200 bi animou o mercado. Veja o que ainda depende do Congresso e como olhar a carteira

Renato Breia 09/10/2026 08:00 6 min
Super PEC de Transição e segundo turno: por que o mercado reagiu tanto

Como muitos de vocês devem ter acompanhado, o resultado do primeiro turno surpreendeu boa parte do mercado. A maioria das pesquisas indicava Lula à frente, mas Flávio Bolsonaro terminou na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do atual presidente.

A reação foi imediata. Já na segunda-feira, 5 de outubro, o mercado passou a tratar o segundo turno, marcado para 25 de outubro, como praticamente definido e antecipou boa parte do trade eleitoral em um único pregão.

Neste texto, explico o que aconteceu com os ativos, por que a reação foi tão intensa e quais cuidados o investidor deveria ter agora.

Como Ibovespa, dólar e juros reagiram ao primeiro turno

Na segunda-feira (5), o Ibovespa subiu 7,70% e fechou aos 206.911 pontos, acima dos 200 mil pela primeira vez na história. Foi a maior alta do índice no dia seguinte a um primeiro turno desde 1994. Além disso, foi a maior alta registrada desde 2020, na época da pandemia.

O dólar caiu 4,12%, para R$ 5, a maior queda diária desde junho de 2018. O movimento mais relevante, porém, aconteceu na ponta longa da curva de juros, justamente a mais sensível ao risco fiscal. 

O DI para janeiro de 2035 recuou 133 pontos-base em um único dia, saindo da casa dos 14% para perto de 12,8%. Com isso, os títulos IPCA+ do Tesouro passaram a pagar juros reais abaixo de 7% ao ano.

Painel com três gráficos mostrando a variação de Ibovespa, dólar e juros longos entre o fechamento de sexta (2/10) e o de quarta (7/10).
 

Para ver o tamanho histórico da alta do Ibovespa, leia também Maior alta do Ibovespa desde 2020: o mercado já precificou o segundo turno?. 

Por que o mercado reagiu com tanto entusiasmo?

Na leitura da Nord, dois fatores explicam a intensidade do movimento.

Simulador do segundo turno: Flávio teria 52,4% dos votos válidos no cenário mais provável

A matemática do segundo turno ficou mais favorável a Flávio. Na Nord, montamos um simulador de segundo turno que parte do resultado oficial do TSE em cada estado e permite testar diferentes premissas de transferência de votos e de abstenção.

No cenário que consideramos mais provável, Flávio termina com cerca de 52,4% dos votos válidos, uma vantagem próxima de 5,7 milhões de votos.

O mais interessante aparece quando forçamos as premissas a favor de Lula. Em raríssimos cenários, ele consegue virar a disputa e, para isso, tudo precisaria acontecer ao mesmo tempo:

  • o eleitor de Augusto Cury, que nas pesquisas pendia para Flávio, migrar em peso para Lula (65% contra 15%);
  • quase metade dos eleitores de Caiado e de Zema anular o voto, e apenas metade deles votar em Flávio;
  • o Nordeste reduzir a abstenção em cerca de 2,8 pontos percentuais, bem acima do maior recuo já registrado por um estado entre turnos desde 2002 (1,75 ponto), com 80% desses novos votos indo para Lula;
  • nos estados em que Flávio é mais forte, como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, parte relevante do seu eleitorado não voltar às urnas.

Mesmo com tudo isso acontecendo junto, Lula venceria por cerca de 180 mil votos, uma diferença de apenas 0,15 ponto percentual. Nem as transferências nem a abstenção, isoladamente, seriam suficientes para a virada.

Isso não garante o resultado, mas ajuda a entender por que o mercado passou a tratar o desfecho como bastante provável.

Gráfico com o simulador de segundo turno da Nord. Pró-Flávio, com abstenção na média histórica: Flávio 53,0% e Lula 47. Mais provável: Flávio 52,4% e Lula 47,6% (vantagem de 5,7 milhões). Virada de Lula, com todas as premissas no limite: Lula 50,1% e Flávio 49,9%.
 

Super PEC de Transição: o que prevê o ajuste de R$ 190 a 200 bilhões

Ao mesmo tempo, começaram a circular no mercado detalhes de uma "Super PEC de Transição", que a campanha pretende aprovar entre a eleição e a posse. 

A proposta prevê um ajuste de R$ 190 a R$ 200 bilhões em gasto primário, algo próximo de 1,5% do PIB. Na prática, seria o movimento inverso da PEC da Transição de 2022, que abriu um espaço fiscal de magnitude semelhante.

O pacote combinaria reforma administrativa, redução de cerca de dez ministérios, combate a fraudes, venda de ativos da União para abater dívida e uma nova governança do orçamento, definindo quem pode criar despesa e quem responde por ela. 

O fim da reeleição presidencial entraria como principal instrumento de negociação com o Congresso. A proposta também defende a autonomia do Banco Central e sinaliza que LCIs e LCAs não seriam tributadas de imediato.

Para um mercado que convive há anos com um prêmio de risco fiscal elevado, essa combinação foi suficiente para reprecificar boa parte da curva de juros em poucas horas.

Por que a Super PEC ainda é um risco de execução

Apesar da euforia dos últimos dias, ainda existem incertezas relevantes, e a maior parte delas está ligada à execução.

O próprio desenho da Super PEC mostra o tamanho do desafio. Das linhas de economia que já têm alguma estimativa, reforma administrativa, combate a fraudes e gestão de ativos somam algo entre R$ 70 e R$ 85 bilhões. Ou seja, mais da metade do ajuste prometido ainda depende de medidas sem números públicos.

Entre os principais pontos de atenção, destacamos:

  • Dependência do Congresso: uma PEC precisa de três quintos dos votos, em dois turnos, na Câmara e no Senado. Se votada durante a transição, dependeria do Congresso atual, já em fim de legislatura.
  • Coordenação política: a própria campanha reconhece que, sem envolver os demais Poderes, a contenção de gastos fica difícil de executar. Isso passa por renegociar de R$ 60 a R$ 65 bilhões em emendas parlamentares e por limitar despesas criadas pelo Judiciário.
  • Custo político do ajuste: cortes de despesa costumam ter perdedores bem identificados e ganhos mais difusos. O fim da reeleição pode ajudar na negociação, mas não elimina as resistências.
  • Diferença entre campanha e governo: um bom discurso de campanha mostra intenção, mas a política fiscal depende de aprovação, regulamentação e entrega ao longo de vários anos.

Por isso, a nossa preocupação não é apenas se o plano é bom. A pergunta central é se ele é politicamente viável, fiscalmente sustentável e operacionalmente executável, e nenhuma dessas respostas estará disponível no dia 25 de outubro.

Reprecificação não é construção de patrimônio: como olhar a carteira agora

Para quem acompanha a Nord há algum tempo, sabe que o movimento desta semana não pegou as nossas carteiras de surpresa. Mesmo nos momentos de maior pessimismo, mantivemos exposição à Bolsa brasileira e construímos posições em títulos atrelados à inflação em níveis de juro real altíssimos. Foram justamente esses ativos que mais se valorizaram nos últimos dias, e nossos clientes capturaram boa parte dessa alta. 

Isso não aconteceu porque tentamos adivinhar o resultado da eleição, e sim porque as carteiras foram construídas com disciplina, critério de preço e para atravessar cenários diferentes.

É esse mesmo critério que nos faz olhar para o momento atual com frieza. Após uma reprecificação tão rápida, a assimetria naturalmente diminui e exige uma reflexão sobre as posições e teses. Por isso, mais do que comemorar, o momento pede que o investidor: 

  • saiba diferenciar reprecificação de curto prazo de construção patrimonial de longo prazo;
  • revise o enquadramento das posições depois da alta;
  • evite que uma única tese política concentre risco demais na carteira.

O mercado pode se animar rapidamente com uma nova narrativa. Mas o patrimônio do investidor não deveria depender apenas dela.

A Nord Wealth é hoje a wealth mais premiada do Brasil, com mais de R$ 12 bilhões sob custódia e a única Top Performer nos rankings XP e BTG. Se você quer entender como a sua carteira está posicionada para os diferentes cenários após a eleição, nosso time faz essa avaliação com você.

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