Raízen, Braskem, Casas Bahia: o retrato do risco de crédito no Brasil

Raízen, Braskem, Casas Bahia e mais de uma dezena de grandes empresas entraram em recuperação judicial. Entenda por que o juro alto no Brasil está por trás disso

Renato Breia 28/08/2026 08:10 6 min
Raízen, Braskem, Casas Bahia: o retrato do risco de crédito no Brasil

O Brasil nunca teve tantas empresas em recuperação judicial. O país fechou o primeiro semestre com mais de 6,3 mil empresas em recuperação judicial ativa, o que é um recorde da série histórica, com alta de dois dígitos em relação ao ano anterior. 

Em 2025, a Serasa Experian registrou 2.466 novos pedidos de recuperação judicial, alta de 13% e o maior volume já registrado. Foi o terceiro ano consecutivo de crescimento e, pelo andar da carruagem, 2026 deve apresentar números ainda piores.

Vale ressaltar que não estamos falando de recuperação judicial da padaria de esquina. A lista de 2026 é uma sangria desatada, literalmente. 

A Raízen, maior empresa de açúcar e etanol do mundo, protocolou recuperação extrajudicial com cerca de R$ 65 bilhões sujeitos ao plano, de uma dívida total de R$ 75,3 bilhões. 

Na segunda-feira, a Braskem, maior petroquímica do país, seguiu o mesmo caminho, com US$ 10,9 bilhões (algo próximo de R$ 54 bilhões) em passivo financeiro na mesa. 

O Grupo Pão de Açúcar renegocia R$ 4,5 bilhões, a Oncoclínicas foi pela mesma via, e a Casas Bahia entrou em recuperação judicial para reestruturar R$ 17,3 bilhões.

Antes delas, Americanas (R$ 43 bi), Oi (que terminou em falência), InterCement, Light, Ambipar, AgroGalaxy, Grupo Petrópolis. 

Em 2026, Tok&Stok, Marabraz, Casa & Vídeo, Coteminas e Wetzel engrossaram a fila. No setor aéreo, Azul, Gol e Latam recorreram ao Chapter 11 nos Estados Unidos. 

Já dá para montar uma cartela e ainda sobra espaço para o que vem:

Cartela de bingo com os logos de empresas brasileiras em recuperação judicial ou extrajudicial em 2026, incluindo Raízen, Braskem, Americanas, Casas Bahia e outras, com valores de dívida e ano do pedido
 Bingo das recuperações: empresas brasileiras em RJ (recuperação judicial) ou REJ (extrajudicial)

Repare no que a cartela revela: petroquímica, energia, cimento, varejo, saúde, agro e logística. Não é problema de um setor nem de má gestão pontual. É uma pressão financeira generalizada, atingindo empresas operacionalmente viáveis que foram estranguladas pela estrutura de capital.

Aqui está a coisa que, como empresário no Brasil, mais me preocupa: os casos bilionários acima são de empresas grandes. Companhias com acesso ao mercado de capitais, bancos de relacionamento, garantias reais e o menor custo de dívida disponível no país. 

Se o crédito mais barato do Brasil já não fecha a conta, o que dizer de quem financia estoque no cartão, desconta duplicata e paga spreads que fariam qualquer CFO de multinacional passar mal? 

Os números respondem: desde 2023, o número de microempresas em recuperação judicial subiu 133%; o de pequenas, 69%; e o de médias, 31%. Abaixo dos casos bilionários, há milhares de negócios pequenos, sofrendo muito mais para se manterem de pé.

Gráfico de barras mostrando o crescimento do número de empresas em recuperação judicial no Brasil de 2022 a 2025, atingindo recorde histórico de 2.466 casos em 2025
 

Por que o Brasil tem um dos juros mais altos do mundo

A pergunta incômoda é: por que chegamos aqui? A resposta, como é de se esperar, vem de Brasília.

Um país que gasta sistematicamente mais do que arrecada precisa se financiar. E o governo brasileiro se financia de um jeito muito particular: oferecendo ao investidor um dos juros reais mais altos do mundo. 

A Selic encerrou 2025 em 15% ao ano (pico histórico do ciclo) e recuou lentamente desde então, até o corte de 0,25 ponto no dia 6 de agosto, que a levou a 14% ao ano. Enquanto isso, títulos atrelados à inflação seguem pagando juro real acima de 7% em diversos prazos, há anos.

Agora faça uma conta aqui comigo: se o "sem risco" paga 14% ao ano, quanto um empresário precisa exigir de retorno para justificar colocar capital em um negócio real? Some ao custo de oportunidade o prêmio pelo risco do negócio, pela iliquidez, pela complexidade trabalhista e tributária, pelo trabalho de executar. 

A régua facilmente fica entre 20% e 22% ao ano. Quantos negócios no mundo entregam isso, ano após ano?

Gráfico de barras comparando o retorno de um título público (14% ao ano) com o retorno mínimo exigido de um negócio real (20% a 22% ao ano), considerando risco e iliquidez

O sinal que o Estado emite é claro, ainda que ninguém o diga em voz alta: "Empreendedores, não empreendam... É inviável". Ou, em uma versão ainda mais cínica: "Vocês não sabem alocar capital; me deem o dinheiro que eu faço isso melhor". 

Nós conhecemos as consequências dessa lógica. Elas estão no gráfico acima, na cartela de bingo e nos 8,7 milhões de CNPJs negativados registrados no início do ano.

O juro alto é o sintoma de um desequilíbrio fiscal que o mercado precifica todos os dias. Enquanto o gasto público crescer acima da arrecadação, o Tesouro seguirá disputando (e vencendo) a poupança nacional contra o setor produtivo.

A solução existe. O desafio é político

A saída é conhecida: juro estruturalmente mais baixo. Com custo de capital menor, empresas endividadas ganham fôlego, famílias recuperam capacidade de consumo, o crédito volta a circular e a régua de retorno exigido do empreendedor volta a um patamar civilizado.

Mas juro baixo sustentável não é algo tão simples (pelo menos não no Brasil). Exige arrumar a casa em busca de um equilíbrio fiscal crível, reformas que contenham o crescimento estrutural do gasto obrigatório e previsibilidade de regras.

É exatamente aqui que mora o desafio. 2026 é ano eleitoral. Reformas fiscais são difíceis, impopulares e não cabem no horizonte de quem precisa se reeleger em quatro anos. 

Brasília, historicamente, olha para o próprio umbigo nesses momentos: mais gasto, mais bondades, mais pressão sobre as contas públicas. 

A fatura dessa farra toda, como sempre, chega depois, na forma de juros mais altos por mais tempo. Se o país conseguir criar espaço para uma queda consistente dos juros, muda o jogo. Se não conseguir, a recuperação judicial seguirá sendo apenas o sintoma mais visível de uma pressão que já chegou ao caixa de milhares de empresas.

Como proteger a carteira do risco de crédito no Brasil

Na Nord Wealth, não gostamos de torcer por um cenário. Preferimos construir carteiras que atravessem diferentes desfechos. Diante desse quadro, quatro direções nos parecem claras:

cautela redobrada com crédito privado. Um ambiente com recorde de recuperações é, por definição, um ambiente de risco de crédito elevado, e o investidor pessoa física está no meio disso. É hora de olhar emissor por emissor, garantia por garantia e desconfiar de prêmios generosos demais;

alocação internacional como obrigatoriedade patrimonial. O risco fiscal brasileiro deixou de ser conjuntural e virou risco estrutural de portfólio. Diversificar em outras moedas e jurisdições funciona como hedge absoluto. Reduz a dependência de que um único desfecho dê certo;

• liquidez tem valor estratégico. Em anos de eleição e de incerteza fiscal, quem tem liquidez consegue se mover: capturar oportunidades quando os preços exageram e reduzir risco quando o cenário se deteriora. Carteira travada em ativos ilíquidos é carteira completamente refém do cenário.

• juro real contratado a favor do investidor. A mesma distorção que sufoca o empreendedor remunera, de forma historicamente rara, quem financia o governo com critério: títulos IPCA+ em patamares elevados oferecem retorno real contratado e proteção de poder de compra, com risco muito distinto do crédito corporativo.

Não se trata de pessimismo com o Brasil, e sim de realismo com o ciclo. O país que bate recorde de recuperações judiciais é o mesmo que oferece um dos maiores juros reais do mundo. Os dois lados dessa moeda precisam estar refletidos na sua carteira.

A cartela vai continuar sendo preenchida enquanto o custo do dinheiro no Brasil seguir incompatível com a rentabilidade de um negócio real. Você não controla essa variável, mas controla o quanto do seu patrimônio está exposto a ela.

Descubra sua exposição real a crédito privado, sua liquidez disponível, seu grau de diversificação internacional e seu enquadramento de risco, antes que o cenário decida isso por você.

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