Resultado do Google no 2T26: Cloud dispara, mas capex segue no centro da discussão

Receita, lucro operacional e Cloud vieram acima do esperado, mas o capex de US$ 45 bilhões no trimestre reacende o debate sobre o custo da corrida por IA

Henrique Vasconcellos 23/07/2026 16:05 10 min
Resultado do Google no 2T26: Cloud dispara, mas capex segue no centro da discussão

A Alphabet (GOOG; GOOGL; GOGL34) divulgou resultados do 2T26 acima das expectativas em receita e lucro operacional, com destaque para a forte aceleração do Google Cloud.

Destaques do resultado da Alphabet no 2T26: receita da Alphabet cresce 24%, Search 17%, Google Cloud 82%, YouTube Ads 13% e Gemini App atinge 950 milhões de usuários
 Destaques dos resultados de Alphabet. Fonte: Alphabet

Foi mais um trimestre muito forte do ponto de vista operacional. A companhia aumentou suas receitas em ritmo elevado, expandiu margem consolidada e mostrou que a demanda por seus produtos de inteligência artificial está aparecendo de forma cada vez mais concreta nos números, especialmente em Cloud.

Mas a dinâmica segue parecida com a dos últimos trimestres: o 1T26 e 4T25. A Alphabet entrega resultados melhores do que o esperado, reforça sua posição em IA e, ao mesmo tempo, mostra que os investimentos necessários para competir nesse mercado serão cada vez maiores.

A principal dúvida do mercado continua sendo a mesma: quanto custará liderar essa corrida?

Resultado do Google no 2T26: principais destaques

Tabela com resultados trimestrais da Alphabet no 2T26 comparados ao 2T25: receita, lucro operacional, lucro líquido e EPS diluído
 Resultados trimestrais de Alphabet. Fonte: Alphabet

A Alphabet reportou receita de US$ 119,8 bilhões no 2T26, crescimento de +24% na comparação anual e acima da expectativa de US$ 117 bilhões. Excluindo TAC, a receita foi de US$ 103,6 bilhões, avanço de +27% e também acima do consenso.

O lucro operacional foi de US$ 40,8 bilhões, crescimento de +30% na comparação anual e levemente acima da expectativa de US$ 40,6 bilhões. A margem operacional consolidada ficou em 34%, expansão de dois pontos percentuais contra o 2T25.

O lucro líquido reportado foi de US$ 112,2 bilhões, alta de +298% na comparação anual. Esse número, no entanto, precisa ser lido com cuidado, porque foi fortemente impactado por ganhos em participações acionárias. 

A linha de “Other income, net” foi positiva em US$ 98 bilhões, incluindo US$ 99 bilhões de ganhos líquidos em equity securities. Excluindo esse efeito divulgado, o EPS teria ficado próximo de US$ 2,85, abaixo da expectativa de US$ 2,90.

Ou seja, o resultado operacional foi forte, mas o lucro líquido reportado ficou distorcido por efeitos financeiros que não deveriam ser tratados como recorrentes.

O principal destaque positivo foi o Google Cloud. A receita do segmento atingiu US$ 24,8 bilhões, crescimento de +82% na comparação anual, muito acima da expectativa de US$ 22,5 bilhões. A margem operacional do Cloud chegou a 35,6%, contra 20,7% no mesmo trimestre do ano anterior.

É difícil exagerar a importância desse número. O grande debate dos últimos anos era se a Alphabet conseguiria transformar sua vantagem tecnológica em IA em um crescimento comercial relevante. O 2T26 trouxe uma resposta bastante forte nessa direção.

Resultados por segmentos

Google Services: crescimento resiliente e margens elevadas

Gráficos de receita e lucro operacional do Google Services no 2T26, com detalhamento de Search, YouTube Ads, Google Network e assinaturas
Destaques do segmento de Google Services: Fonte: Alphabet

O Google Services, que reúne Search, YouTube, Google Network, assinaturas, plataformas e dispositivos, registrou receita de US$ 94,5 bilhões, avanço de +15% na comparação anual e em linha com as expectativas do mercado.

Dentro do segmento, Google Advertising cresceu +14%, para US$ 81,6 bilhões. Search & Other chegou a US$ 63,3 bilhões, avanço de +17%, praticamente em linha com o consenso. Esse é um ponto importante porque Search segue sendo a maior linha de receita da companhia e continua crescendo em ritmo saudável, mesmo após anos de preocupação com a possibilidade de disrupção por inteligência artificial generativa.

Até aqui, a IA parece estar ajudando mais do que atrapalhando o Search. A própria companhia comentou que recursos de inteligência artificial estão contribuindo para o crescimento de queries. 

Isso não elimina o debate estrutural sobre mudança no comportamento de busca, mas mostra que, pelo menos por enquanto, a Alphabet continua conseguindo defender e monetizar seu principal negócio.

O YouTube Ads também teve um bom trimestre, com receita de US$ 11,1 bilhões, crescimento de +13% e acima da expectativa de US$ 10,8 bilhões. O desempenho foi apoiado por maior engajamento, crescimento de vídeo digital e eventos de grande audiência. 

A companhia destacou que vídeos relacionados à Copa do Mundo no YouTube atingiram mais de 1,7 bilhão de espectadores únicos.

Já o Google Network caiu -1%, para US$ 7,3 bilhões, seguindo uma tendência mais fraca dentro do ecossistema de publicidade. Subscriptions, Platforms & Devices cresceu +15%, para US$ 12,9 bilhões, reforçando a diversificação gradual da receita dentro de Services.

A rentabilidade do segmento também continuou muito forte. O lucro operacional do Google Services foi de US$ 39,5 bilhões, crescimento de +20%, com margem operacional de 41,8%, acima dos 40,1% do 2T25. Esse número reforça a qualidade do negócio principal da Alphabet: Search, YouTube e assinaturas seguem crescendo com margens extremamente elevadas.

Google Cloud: o grande destaque do trimestre

O grande destaque do trimestre foi, sem dúvida, Google Cloud.

Gráficos de receita e lucro operacional do Google Cloud no 2T26, mostrando crescimento de 82% e margem operacional de 35,6%
 Resultados de GCP. Fonte: Alphabet

A receita do segmento foi de US$ 24,8 bilhões, crescimento de +82% na comparação anual, superando com folga a expectativa de mercado de US$ 22,5 bilhões. Mais importante do que a expansão em si foi o fato de a companhia superar até mesmo o “bogey” mais agressivo do buy-side, que já esperava algo na faixa de 70% a 75% de crescimento.

A aceleração veio da forte demanda por infraestrutura de IA, soluções empresariais de inteligência artificial e maior adoção da plataforma por grandes clientes corporativos. O Gemini Enterprise já é usado por quase 90% das empresas da Fortune 100, enquanto o Gemini API processa 22 bilhões de tokens por minuto. A Gemini App também chegou a 950 milhões de usuários ativos mensais.

Esses números mostram que a Alphabet está conseguindo transformar tecnologia em uso real. O mercado passou boa parte de 2023 e 2024 discutindo se a empresa estava atrasada em AI. Hoje, a discussão mudou. A companhia tem modelo, produto, infraestrutura, distribuição, cloud e chips próprios. Poucas empresas no mundo conseguem combinar todos esses elementos ao mesmo tempo.

A rentabilidade do Cloud foi tão relevante quanto o crescimento. O lucro operacional do segmento chegou a US$ 8,8 bilhões, avanço de +212% na comparação anual. A margem operacional foi de 35,6%, contra 20,7% no 2T25 e acima da expectativa de 30,8%.

A margem incremental ficou próxima de 54%. Isso é muito forte. Mostra que o Google Cloud não está apenas crescendo por meio de investimento agressivo. Está crescendo com alavancagem operacional e melhor utilização da infraestrutura. Para uma divisão que, há poucos anos, ainda era vista como um negócio de margem estruturalmente inferior à AWS e Azure, o trimestre reforça uma mudança relevante de percepção.

Other Bets e custos corporativos

Other Bets teve receita de US$ 382 milhões, crescimento de apenas +2% na comparação anual, e prejuízo operacional de US$ 1,8 bilhão, contra perda de US$ 1,25 bilhão no 2T25.

Essa linha continua pequena em receita e relevante em consumo de caixa. Waymo e outros projetos seguem carregando opcionalidade, mas ainda não mudam a tese consolidada da Alphabet no curto prazo.

Outro ponto importante foi Alphabet-level activities, que registrou prejuízo operacional de US$ 5,8 bilhões. A companhia atribui essa linha principalmente a despesas relacionadas à pesquisa e desenvolvimento compartilhada em IA.

Esse detalhe é relevante porque parte dos custos de IA não aparece diretamente dentro de Cloud ou Google Services. A Alphabet está investindo em uma camada comum de tecnologia que beneficia vários negócios ao mesmo tempo, incluindo Search, Cloud, Gemini, YouTube, Android e produtos corporativos.

Essa estrutura torna a análise de margem um pouco mais difícil. O Cloud mostra forte expansão de margem, Services segue extremamente rentável, mas parte relevante dos investimentos em IA fica alocada no nível corporativo. Para o investidor, isso significa que o retorno sobre IA precisa ser avaliado olhando a companhia como um todo, não apenas um segmento isolado.

Capex e geração de caixa: o principal ponto de atenção

O principal ponto de atenção segue sendo o capex.

Gráfico de evolução do capex trimestral da Alphabet entre o 2T25 e o 2T26, com investimento de US$ 44,9 bilhões no período
 Capex trimestral. Fonte: Alphabet

A Alphabet investiu US$ 44,9 bilhões em capex no 2T26, crescimento de aproximadamente +100% na comparação anual e em linha com o que o mercado já esperava. A magnitude do número é impressionante. Em apenas um trimestre, a empresa investiu quase US$ 45 bilhões em infraestrutura, data centers, servidores e capacidade computacional.

O impacto apareceu diretamente no fluxo de caixa. A companhia gerou US$ 39,1 bilhões de caixa operacional, mas o free cash flow ficou negativo em US$ 5,9 bilhões no trimestre. No acumulado de 12 meses, o free cash flow ainda foi positivo em US$ 53,3 bilhões, o que mostra que a empresa continua gerando caixa em escala relevante. Mesmo assim, a pressão de curto prazo é clara.

O balanço segue muito forte. A Alphabet encerrou o trimestre com US$ 242,5 bilhões em caixa e títulos negociáveis, contra uma dívida de longo prazo de US$ 98,2 bilhões. A companhia também levantou US$ 49,6 bilhões em capital próprio e emitiu US$ 20,3 bilhões em senior unsecured notes. Além disso, autorizou um programa de ATM para vender até US$ 40 bilhões em ações, embora ainda não tenha vendido ações sob esse programa até o fim do trimestre.

Esse conjunto de movimentos mostra que a Alphabet está se preparando para financiar uma fase muito mais pesada de investimentos. A empresa tem balanço para isso. A questão é o retorno desse capital ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, o crescimento do Cloud ajuda a defender esse capex. Quando uma empresa investe US$ 45 bilhões em um trimestre, o mercado naturalmente cobra evidência de demanda. O 2T26 trouxe essa evidência de forma bastante convincente. Cloud cresceu 82%, com margem operacional de 35,6% e forte demanda por infraestrutura de IA.

Guidance e investimentos: o que esperar

A Alphabet segue sinalizando que os investimentos em IA continuarão elevados. Esse é o novo normal para as grandes plataformas de tecnologia. Competir em IA exige data centers, chips, energia, rede, armazenamento, engenheiros, modelos e distribuição.

A diferença da Alphabet é que a empresa possui uma estrutura verticalizada difícil de replicar. Ela tem Search, YouTube, Android, Cloud, Gemini, DeepMind e TPUs. Ou seja, tem demanda própria, distribuição global, modelos proprietários, infraestrutura de nuvem e chips desenhados internamente.

Essa combinação pode ser um diferencial enorme ao longo dos próximos anos. A Alphabet não precisa depender apenas de vender IA para terceiros. Ela pode usar a inteligência artificial para melhorar a busca, aumentar o engajamento no YouTube, vender soluções corporativas no Cloud, reduzir custos de inferência com TPUs e criar novos produtos dentro do ecossistema.

O desafio é que tudo isso custa caro. A empresa precisa continuar provando que o crescimento de Cloud, a monetização de IA e os ganhos em Services compensam o aumento do capex e a pressão sobre fluxo de caixa livre. No 2T26, a resposta foi positiva. Mas esse debate continuará sendo o centro da tese.

O que fica do resultado do 2T26 do Google

O 2T26 foi um resultado forte para a Alphabet. A receita superou as expectativas, o lucro operacional cresceu 30%, Google Services manteve margens elevadas e Google Cloud entregou um dos melhores trimestres de sua história, com crescimento de 82% e forte expansão de margem.

O resultado também reforça que a Alphabet deixou de ser vista como uma empresa atrasada em IA. A discussão hoje é outra. 

A companhia está entre os poucos players globais com capacidade de competir em todos os níveis da cadeia: modelos, nuvem, chips, distribuição, dados e aplicações.

O ponto de atenção segue sendo capital allocation. O capex de quase US$ 45 bilhões no trimestre e o free cash flow negativo mostram que a corrida de IA exige investimentos enormes, mesmo para uma empresa com balanço excepcional. A Alphabet tem caixa, lucro e ativos para financiar esse ciclo. Mas o mercado vai continuar cobrando retorno.

Na visão da Nord, o trimestre foi positivo. Search segue crescendo, YouTube voltou a surpreender positivamente, Cloud acelerou muito acima do esperado e a rentabilidade do segmento melhorou de forma expressiva. 

O capex é alto e precisa ser monitorado, mas hoje existe mais evidência de demanda para justificar esse investimento.

A Alphabet continua sendo uma das empresas mais bem posicionadas na corrida de IA. O 2T26 reforçou essa posição.

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