Brasil terá maior IVA do mundo? Entenda a Reforma Tributária

O Brasil caminha para ter o maior IVA do mundo. Veja o que muda com a Reforma Tributária e como proteger seu patrimônio agora mesmo

Renato Breia 03/01/2026 08:00 6 min
Brasil terá maior IVA do mundo? Entenda a Reforma Tributária

O Brasil sempre conviveu com um problema estrutural: instabilidade fiscal crônica. As regras mudam antes de amadurecer, os impostos se sobrepõem, a legislação é complexa e, na prática, imprevisível. 

Planejar no longo prazo aqui nunca foi simples — e, nos últimos anos, ficou ainda mais difícil.

Enquanto isso, o brasileiro médio segue tocando a vida, focado no curto prazo, sem perceber que uma trolha tributária estrutural começou a ser colocada no lugar. 

Não é um imposto pontual, nem uma mudança cosmética. É uma reorganização profunda da forma como o Estado arrecada — e cobra.

Nova estrutura: CBS, IBS e o IVA mais alto do mundo

A Reforma Tributária entra em 2026 como ano de testes. A proposta é substituir uma série de tributos por dois grandes impostos — CBS e IBS — que, juntos, formam um IVA. 

No papel, a ideia é unificar, simplificar e dar racionalidade ao sistema. Na prática, a implementação será gradual, cheia de exceções, regimes específicos, transições longas e interpretações ainda abertas.

O dado que mais chama atenção é claro: o Brasil caminha para ter o maior IVA do mundo, algo em torno de 28%, nível semelhante ou superior ao de países desenvolvidos da Europa. 

A diferença central é óbvia — e incômoda: esses países entregam serviços públicos robustos, infraestrutura eficiente, saúde e educação de qualidade. O Brasil, historicamente, não entrega.

 Atualmente, países como Hungria (27%), Croácia e Dinamarca (25%) estão entre os maiores valores de imposto sobre o consumo. Fontes: Tax Foundation, Ministério da Fazenda e ROIT

A promessa era simplificar. O que começa a se desenhar é um sistema potencialmente mais complexo, com novas camadas regulatórias, maior insegurança jurídica e uma carga tributária elevada sem contrapartida clara. 

Para agravar, há dúvidas reais se toda essa engenharia conseguirá arrecadar o que o governo projeta — o que mantém o problema fiscal estrutural em aberto.

Novo cenário exige blindagem patrimonial imediata

Sempre que a carga tributária muda de patamar, o imposto torna-se cada vez mais uma variável estrutural de decisão patrimonial. 

Não dá mais para tratar tributação como algo separado da estratégia de investimentos, sucessão ou estrutura empresarial.

Diversificar e internacionalizar: agora é necessidade

O risco fiscal brasileiro deixou de ser conjuntural. Ele virou risco estrutural de portfólio. Manter o patrimônio excessivamente concentrado no Brasil significa assumir, ao mesmo tempo, risco regulatório, risco tributário e um risco cambial implícito — mesmo para quem acha que “não tem dólar”.

Carteiras bem internacionalizadas cumprem um papel que vai muito além de buscar retorno. Elas funcionam como hedge fiscal, hedge político e hedge institucional. Em outras palavras: reduzem a dependência de um único sistema tributário, de uma única moeda e de um único arcabouço regulatório.

Além da alocação internacional, nesse contexto, ativos indexados à inflação ganham ainda mais relevância. Em um ambiente de carga tributária elevada e deterioração fiscal contínua, a atuação do Banco Central via taxa de juros pode acabar perdendo eficiência, tornando os juros uma variável menos previsível.

Nesse sentido, os títulos IPCA+ agregam uma blindagem nessa situação, repassando, ao menos, o índice de preços.

O que fazer na prática:

  • Avaliar o nível real de concentração do patrimônio no Brasil (ativos, renda, empresa etc.).
  • Estruturar exposição internacional de forma consistente e recorrente, e não apenas pontual.
  • Reforçar posições em ativos que protegem o poder de compra no longo prazo, especialmente em cenários de pressão fiscal.

ITCMD: antecipar pode evitar prejuízos maiores 

A Reforma Tributária também joga luz sobre um tema que muitos evitam: a sucessão. O ITCMD caminha para um modelo mais estruturado, com alíquotas progressivas, maior coordenação entre os estados e uma tendência clara de alta estrutural ao longo do tempo.

Isso muda completamente a lógica de “deixar para depois”. Planejamento sucessório não é mais uma conversa distante — passa a ser uma decisão muito mais econômica. Ferramentas como doações em vida, doações com reserva de usufruto e antecipações patrimoniais bem estruturadas passam a fazer sentido não por pressa, mas por racionalidade.

A mensagem aqui é simples: não se trata de pagar menos imposto hoje. Trata-se de evitar pagar mais imposto amanhã, em um cenário no qual as regras tendem a ficar mais duras, não mais flexíveis.

O que fazer na prática:

  • Mapear o patrimônio que estará sujeito ao ITCMD e o impacto potencial em diferentes cenários de alíquota.
  • Avaliar doações em vida e doações com reserva de usufruto como instrumentos de organização e antecipação.
  • Integrar sucessão, tributação e estrutura patrimonial em um único plano, evitando decisões isoladas.

Imóveis e holdings patrimoniais: o que antes funcionava pode não funcionar mais

O setor imobiliário também entra no radar da reforma. Mudanças propostas impactam a tributação de aluguéis e colocam em revisão regimes que antes eram tratados como estáveis. Isso obriga investidores e famílias patrimonializadas a revisitar estruturas que estavam “funcionando bem” no passado.

As holdings patrimoniais voltam ao centro da discussão — não como receita de bolo, nem como solução universal, mas como uma ferramenta que pode ganhar atratividade em determinados cenários, especialmente quando combinada com planejamento sucessório e organização patrimonial.

O ponto crítico é claro: cada caso é um caso. Decisões tomadas sem análise individual, sem advogado e contador de confiança, tendem a custar caro. O planejamento agora não é apenas criar novas estruturas, mas revisitar e ajustar estruturas existentes à nova realidade tributária.

O que fazer na prática:

  • Revisitar a tributação atual dos imóveis e projetar impactos das novas regras.
  • Avaliar se estruturas patrimoniais existentes ainda fazem sentido ou precisam de ajustes.
  • Discutir, caso a caso, com advogados e contadores de confiança, antes de qualquer mudança estrutural.

2026: o ano para agir com muito método e pouco improviso

A Reforma Tributária não é um evento pontual. Ela inaugura um novo regime de jogo para quem constrói, preserva e transmite patrimônio no Brasil.

O erro mais comum será esperar clareza total para agir. Essa clareza raramente vem — e, quando vem, normalmente chega acompanhada de custo mais alto, menos alternativas e decisões tomadas sob pressão.

Em 2026, um patrimônio bem protegido será de quem:

  • entendeu as mudanças antes da maioria;
  • antecipou-se com estratégia;
  • trabalhou com os profissionais certos, no momento certo.

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