Recuperação extrajudicial da Raízen reacende alerta para o crédito privado

Recuperação extrajudicial da companhia para renegociar R$ 65 bilhões em dívidas soma-se a casos como Americanas e Light e levanta novos questionamentos sobre o risco no crédito privado

Marilia Fontes 12/03/2026 10:13 7 min
Recuperação extrajudicial da Raízen reacende alerta para o crédito privado

A recuperação extrajudicial da Raízen reacendeu discussões sobre o risco no crédito privado brasileiro. A companhia protocolou um pedido para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras, em um movimento que se soma a outros episódios recentes envolvendo empresas como Americanas, Light e Agrogalaxy.

Em fato relevante divulgado nesta semana, a companhia informou ter protocolado o pedido na Comarca da Capital de São Paulo para reestruturar aproximadamente R$ 65 bi em dívidas financeiras quirografárias, além de créditos intercompany.

Segundo a empresa, o plano já conta com adesão de credores que representam cerca de 47% dessas dívidas, percentual suficiente para o ajuizamento do processo. 

O que isso significa na prática

Pela legislação, a companhia agora tem até 90 dias para alcançar o quórum necessário à homologação, que vincularia 100% dos créditos sujeitos aos novos termos da reestruturação.

Em português claro: a Raízen não parou de operar, não entrou em falência e tampouco está dizendo que deixará de atender clientes, fornecedores e parceiros. 

O que ela fez foi pedir proteção jurídica para renegociar sua dívida financeira de forma organizada, tentando evitar um processo mais traumático e mais destrutivo de recuperação judicial tradicional.

A própria companhia afirmou que a recuperação extrajudicial tem escopo estritamente financeiro e que suas operações seguem normalmente.

Esse ponto é importante, porque a palavra “recuperação” costuma assustar — e com razão. 

Mas nem toda recuperação é igual. 

O que é recuperação extrajudicial

A recuperação extrajudicial é um instrumento previsto na Lei de Recuperação e Falências que permite à empresa renegociar suas obrigações financeiras diretamente com seus credores, antes de recorrer a um processo judicial completo.

Na prática, trata-se de uma tentativa de ganhar tempo, organizar a mesa de negociação e evitar uma deterioração mais rápida da estrutura financeira.

Possíveis alternativas de reestruturação da Raízen

O plano divulgado pela companhia menciona algumas alternativas possíveis para a reestruturação, entre elas:

  • capitalização pelos acionistas;
  • conversão de parte da dívida em ações;
  • troca de dívidas antigas por novas dívidas;
  • reorganizações societárias;
  • venda de ativos.

Na prática, uma das possibilidades é que parte da dívida seja convertida em equity. Como exemplo ilustrativo: se um credor possui R$ 100 em dívida da empresa e o plano definir que 30% desse valor será convertido em ações, o resultado seria R$ 30 transformados em participação acionária e R$ 70 permanecendo como dívida.

Neste momento, ainda não temos todos os detalhes sobre percentuais ou condições finais. O processo agora entra em um período de negociação com credores, que pode durar até 90 dias, e até lá os pagamentos de juros e amortizações estão suspensos. 

Por que o caso da Raízen surpreendeu o mercado

Há um ponto importante aqui que precisa ser dito com bastante honestidade intelectual. A Raízen não era vista pelo mercado como uma empresa frágil, muito pelo contrário.

Até pouco tempo atrás, era considerada uma companhia de excelente qualidade: líder em seu setor, com ativos relevantes, geração recorrente de caixa e amplo acesso ao mercado de capitais. Sua alavancagem era considerada administrável e o risco de crédito relativamente controlado para o tipo de negócio.

Tanto que muitos gestores e analistas viam a empresa como um emissor sólido de crédito. Em 2023, por exemplo, eu mesma recomendava seus títulos para clientes.

Por isso, o caso da Raízen traz uma lição importante: nem todo problema de crédito nasce de uma companhia ruim.

Às vezes, ele nasce simplesmente de uma combinação de fatores adversos.

No caso da Raízen, uma safra agrícola ruim teve impacto relevante na geração de caixa. Ao mesmo tempo, a empresa vinha de um ciclo de investimentos elevados e carregava uma estrutura de capital que funcionava bem em um ambiente de juros mais baixos. Para completar, queimadas no Centro-Oeste e queda brusca no preço do etanol pressionaram ainda mais os resultados.

Quando o fluxo de caixa piora e o custo da dívida permanece elevado por muito tempo, a conta começa a apertar.

E bastou um ano difícil para que uma estrutura financeira aparentemente confortável passasse a ficar pressionada.

Isso não significa necessariamente que a companhia ou o setor sejam ruins. Significa apenas que o risco de crédito existe e, às vezes, ele se materializa mesmo em empresas que pareciam sólidas.

Mas há um segundo ponto importante aqui, que ajuda a entender por que eventos como esse estão se tornando mais frequentes.

Como juros altos pressionam empresas endividadas

A taxa Selic pegou muita gente desprevenida. O primeiro ciclo de alta até 2023 já deveria ter gerado um desaquecimento econômico e um possível início de queda nos juros. Mas os estímulos fiscais e de crédito que foram dados geraram uma atividade resiliente e uma nova rodada de alta da Selic

Esse cenário acabou prejudicando o plano de várias companhias que se alavancaram com um juro mais baixo, mas se viram obrigadas a rolar suas dívidas com um custo já mais elevado.

Juntamente a isso, nos últimos anos, o mercado brasileiro passou por uma mudança estrutural importante.

Com alterações na legislação e incentivos tributários para determinados instrumentos, o mercado passou a direcionar um volume muito grande de recursos para o crédito privado.

O que mudou no mercado de crédito privado nos últimos anos

Ao mesmo tempo, os juros elevados tornaram essa classe de ativos ainda mais atraente para investidores. O resultado foi um movimento bastante claro: muito dinheiro procurando crédito privado.

E quando há muita demanda para uma mesma quantidade de ativos, algo inevitavelmente acontece: os spreads caem. Foi exatamente isso que vimos acontecer.

Os prêmios pagos sobre títulos públicos foram sendo comprimidos ao longo dos últimos anos. Ou seja, o investidor passou a receber cada vez menos prêmio para carregar risco de crédito.

Em outras palavras, chegamos a uma situação curiosa:

  • juros altos na economia;
  • risco elevado para as empresas;
  • mas spreads historicamente baixos para quem emprestava dinheiro.

Essa combinação nunca é muito confortável.

Ela significa que o investidor está sendo mal remunerado para carregar risco.

O problema estrutural da liquidez no crédito privado

Além disso, o crédito privado carrega um outro problema estrutural: liquidez limitada.

Quando o mercado está tranquilo, esse problema não aparece. Mas quando surgem eventos de estresse, todos os investidores tentam sair ao mesmo tempo e a porta costuma ser pequena. 

Um balanço ruim já faz a taxa do crédito abrir muito, deixando o custo de reduzir a posição muito alto para o investidor. 

Não é por acaso que, ao longo do último ano, começamos a observar um aumento no número de empresas passando por renegociações financeiras, reestruturações ou processos de recuperação.

Empresas que tiveram problemas recentes no crédito privado

Nos últimos anos, várias companhias brasileiras enfrentaram episódios de estresse financeiro:

Por esse motivo, há cerca de um ano venho reduzindo e evitando novas exposições a crédito privado na série Nord Advisor PRO.Não porque todos os emissores sejam ruins, mas porque o prêmio oferecido pelo mercado simplesmente deixou de compensar o risco.

E esse cenário ainda pode ficar mais delicado.

O cenário macro ainda adiciona novas incertezas

Estamos entrando em um período de maior incerteza macroeconômica, com pelo menos três fatores importantes no radar:

Primeiro, o risco eleitoral, que sempre aumenta a volatilidade econômica e financeira no Brasil.

Segundo, o risco de inflação, que pode voltar a pressionar as economias globais caso conflitos geopolíticos como a escalada recente no Oriente Médio provoquem alta relevante no preço do petróleo.

E, terceiro, a possibilidade de uma contaminação generalizada no mercado de crédito privado. 

Tudo isso cria um ambiente em que o risco de crédito pode aumentar justamente quando o investidor está recebendo pouco prêmio para carregá-lo.

A principal lição para o investidor

O caso da Raízen, portanto, não é apenas a história de uma empresa em dificuldade. Ele também é um lembrete importante de como funcionam os ciclos do mercado de crédito.

Mesmo companhias consideradas sólidas podem enfrentar dificuldades quando uma sequência de eventos adversos acontece ao mesmo tempo.

E quando isso ocorre em um ambiente de juros elevados e spreads comprimidos, a assimetria para o investidor passa a ser pouco favorável.

Por isso, neste momento, seguimos adotando uma postura mais conservadora nas carteiras, priorizando ativos com melhor relação entre risco e retorno, especialmente títulos públicos, enquanto o mercado de crédito privado atravessa esse período de maior ajuste.

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