Guerra no Irã pode atrasar queda da Selic no Brasil?

A guerra no Irã elevou o petróleo e reacendeu temores de inflação. Entenda por que isso pode atrasar a queda da Selic e mexer com os juros no Brasil

Marilia Fontes 05/03/2026 11:19 5 min
Guerra no Irã pode atrasar queda da Selic no Brasil?

A guerra no Irã reacendeu uma discussão importante para investidores: a queda da Selic no Brasil pode atrasar?

O conflito no Oriente Médio entrou no sexto dia, nesta quinta-feira, 5, com o Irã demonstrando resistência aos ataques coordenados de Israel e Estados Unidos. 

O risco de interrupções no fluxo de petróleo, incluindo ameaças ao Estreito de Ormuz, provocou um choque imediato nos mercados de energia.

Quando um evento desse tipo acontece, os mercados reagem rapidamente, tentando antecipar suas possíveis consequências. O resultado costuma ser um aumento generalizado do prêmio de risco.

E quando o petróleo entra na equação, a pergunta surge imediatamente: isso pode trazer a inflação de volta e atrasar a queda dos juros?

Foi exatamente esse raciocínio que começou a aparecer nos preços dos ativos logo na abertura dos mercados globais.

Como os mercados reagiram ao conflito no Oriente Médio

As bolsas caíram, as commodities energéticas dispararam e os ativos considerados proteção ganharam força. 

Nos Estados Unidos, os futuros do S&P 500 chegaram a cair cerca de -1,4% no início da semana, enquanto o Dow Jones perdeu mais de 600 pontos intraday com o aumento da incerteza geopolítica.

O movimento mais importante, porém, veio do lado das commodities. O petróleo Brent saltou rapidamente para a região de US$ 80–85 por barril, após ter negociado perto de US$ 70 poucos dias antes, refletindo o risco de interrupções logísticas na região do Estreito de Ormuz, um corredor por onde passa aproximadamente 20% de todo o petróleo transportado por mar no mundo.

O ouro, tradicional ativo de proteção em momentos de crise, também reagiu. O metal chegou a superar US$ 5.400 por onça durante o movimento inicial de busca por segurança, antes de devolver parte da alta ao longo da semana.

Mas talvez o movimento mais relevante para quem acompanha renda fixa tenha ocorrido nos mercados de juros globais.

Por que o petróleo influencia os juros no Brasil

A disparada do petróleo reacendeu um temor antigo: o risco de inflação

Quando o preço da energia sobe rapidamente, existe sempre a possibilidade de contaminação ao longo das cadeias produtivas — do transporte até alimentos e fertilizantes.

Diante desse risco, os investidores passaram a revisar temporariamente as expectativas de queda de juros em diversas economias.

E esse movimento rapidamente chegou ao Brasil.

O impacto da guerra do Irã nos juros futuros brasileiros

Os juros futuros brasileiros, que vinham em trajetória de queda consistente nas últimas semanas, voltaram a subir. A taxa do DI para janeiro de 2031, que havia chegado a negociar abaixo de 13%, voltou rapidamente para a região de 13,5% após o aumento da tensão internacional.

Fonte: Bloomberg

Esse movimento reflete um temor simples: se o petróleo subir de forma persistente, a inflação global pode voltar a pressionar. E, nesse cenário, os bancos centrais podem ter menos espaço para iniciar ou acelerar ciclos de corte de juros.

No caso brasileiro, esse risco é particularmente relevante neste momento do ciclo econômico. O mercado vinha trabalhando com a expectativa de que o Banco Central começasse um processo de redução da Selic ao longo deste ano. 

Uma alta significativa do petróleo poderia atrasar ou suavizar esse movimento, já que os combustíveis têm impacto direto na inflação doméstica.

A queda da Selic está realmente ameaçada?

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou na imprensa que acredita que a guerra não muda a trajetória de queda de juros já contratada para o ano. Mas a fala dele já escancara a preocupação.

 Fonte: O Globo

Dito isso, é importante manter alguma perspectiva.

Apesar da reação inicial forte dos mercados, os preços já começaram a devolver parte do movimento. As bolsas globais voltaram a subir levemente nas últimas sessões, enquanto o petróleo recuou um pouco após o pico inicial.

Isso acontece porque, até o momento, os investidores parecem interpretar o conflito como relativamente circunscrito ao Irã, sem uma escalada militar ampla envolvendo vários países da região. Caso essa leitura se confirme, é possível que o impacto econômico permaneça limitado.

Em outras palavras: ainda é cedo para tirar conclusões definitivas. Conflitos geopolíticos são, por natureza, imprevisíveis. 

Em 2025, a guerra entre Irã e Israel também começou gerando volatilidade, mas logo se dispersou. Por enquanto, o mercado parece apostar que não estamos diante de uma guerra regional de grandes proporções.

Para o investidor, a principal mensagem continua sendo manter a calma e evitar decisões precipitadas em momentos de ruído de curto prazo. Ou seja, não é para zerar tudo com medo. 

O que muda para o investidor em renda fixa

Do ponto de vista de alocação, seguimos com uma preferência estrutural por títulos indexados à inflação (IPCA+) dentro das carteiras de renda fixa. 

Em cenários de incerteza geopolítica, especialmente quando o petróleo entra na equação, esses títulos tendem a oferecer proteção adicional, justamente por preservarem o poder de compra caso a inflação volte a surpreender.

Em momentos como este, mais do que tentar prever o próximo movimento do mercado, o mais importante é estar bem posicionado para diferentes cenários. E, nesse contexto, ativos atrelados à inflação continuam sendo uma das ferramentas mais eficientes de proteção dentro da renda fixa.

Um convite especial neste mês

Já que estamos falando sobre o impacto da taxa de juros nos outros investimentos, aproveito para convidar vocês para o lançamento do meu novo livro “Renda Fixa é a Mãe da Bolsa”.

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