Queda da Nasdaq e juros altos nos EUA: o que isso significa para o Brasil?
Mostro por que a Nasdaq caiu depois da eleição americana e o que os juros altos nos EUA significam para a Selic, o dólar e a sua carteira
Muito já se falou sobre o Brasil nas últimas semanas, e imagino que você tenha lido mais análises sobre o segundo turno do que gostaria. Por isso, nesta edição, começo pelos Estados Unidos, onde coisas bem relevantes aconteceram.
E, acredite ou não, o cenário por lá tem semelhanças curiosas com o nosso. Uma eleição que mexeu forte com o preço dos ativos, risco fiscal no centro do debate, juros altos por muito tempo e Bolsa caindo. Se eu tirasse os nomes dos países, você poderia jurar que estou falando daqui.
No fim, volto ao Brasil para mostrar por que essas duas histórias estão mais conectadas do que parecem.
Nasdaq −5,52% depois da eleição americana: o que derrubou a Bolsa dos EUA
Em 5 de novembro de 2026, a Nasdaq caiu 5,52% e o S&P 500 recuou 4,36%, as maiores quedas diárias desde abril de 2025. Os semicondutores lideraram as perdas, com a Nvidia caindo mais de 9% e AMD, Micron e Marvell perdendo perto de 17% cada. O movimento se espalhou pela Ásia na sexta, com a Bolsa da Coreia do Sul caindo mais de 8% na abertura.
Eleições de meio de mandato e data centers: o gatilho político
Os democratas venceram as eleições de meio de mandato com folga maior do que o mercado esperava. Na Câmara, as projeções apontam para mais de 250 cadeiras democratas, e no Senado o partido chegou a 54 assentos contra 44 dos republicanos, com duas disputas ainda em aberto. Foram sete cadeiras viradas no Senado, e os republicanos não conseguiram tomar nenhuma do adversário.
O problema para a Bolsa não foi a vitória em si, e sim o que veio junto. Os data centers viraram tema de campanha, e os eleitores rejeitaram projetos desse tipo em quase todas as consultas locais que estavam nas cédulas.
Logo depois do resultado, o senador Bernie Sanders pediu uma moratória nacional para novos data centers, ideia que já constava de um projeto apresentado por Alexandria Ocasio-Cortez em março. No Texas, que concentra mais de um quarto da capacidade planejada no país até 2030, a governadora eleita prometeu suspender novas construções e acabar com incentivos fiscais. O Goldman Sachs passou a projetar atrasos em obras em estados como Texas e Geórgia.
Vale a ressalva: restrições em nível federal ainda precisariam passar pelo Congresso e superar um possível veto de Trump, e mesmo entre os democratas uma suspensão generalizada está longe de ser consenso. Mas, para um mercado que vinha precificando um ciclo de investimento em IA praticamente sem obstáculos, a simples possibilidade de um ambiente regulatório mais duro bastou para provocar a fuga.
Fundos long short e multiestratégia: o fator técnico que ampliou a queda
Existe uma segunda camada, e ela lembra bastante o que vimos em julho. Grandes fundos multiestratégia e fundos long short de tecnologia vinham muito posicionados no tema. Quando o mercado virou, começaram as perdas, os resgates e os cortes de alavancagem.
A Walleye Capital, gestora de cerca de US$ 17 bilhões, anunciou a reestruturação da sua área de ações depois do pior mês desde março de 2020. Segundo estimativas do Goldman, os fundos long short focados em tecnologia, que chegaram a acumular ganhos de 24% no ano em junho, voltaram para perto de zero.
Nesse tipo de situação, o gestor vende não porque a empresa piorou, mas porque precisa reduzir risco e gerar caixa. A venda derruba os preços, que forçam novas vendas, em um ciclo que amplia a volatilidade. Foi isso que transformou uma correção em um dos piores dias do mercado americano desde a pandemia.

Lucro sobe e preço cai: o que os balanços da Nasdaq mostram
Aqui está o ponto mais importante. Estamos no meio da temporada de balanços e, nas minhas conversas com o Henrique, responsável pelo Nord Global, ele tem mostrado que muitas empresas estão batendo as expectativas e, mesmo assim, caindo. Os preços estão sendo levados pelo ambiente, e não pelos resultados.
O mercado, inclusive, segue revisando para cima o lucro esperado para os próximos doze meses. Em 2026, essa projeção da Nasdaq subiu 38%, enquanto o índice avança apenas 5,9%. No segundo semestre, a diferença fica ainda mais clara. O lucro esperado subiu 16%, e a Nasdaq caiu 6%.


P/E da Nasdaq em 20,3 vezes contra média de 25,7 vezes
Quando o lucro sobe e o preço cai, o resultado só pode ser um: a Bolsa fica mais barata. Hoje a Nasdaq negocia a 20,3 vezes o lucro projetado, contra uma média de 25,7 vezes nos últimos dez anos, mais de um desvio padrão abaixo da média.

Como investir na Bolsa americana depois da queda: VOO, SPXI11, SPXR11 e TSMC
Seguimos com visão construtiva para a Bolsa americana, apoiada em fundamentos. A Nasdaq, mais concentrada em tecnologia, tem maior potencial de retorno, mas também mais volatilidade. Para quem prefere mais equilíbrio, o S&P 500 já tem perto de 40% em tecnologia e distribui o restante entre bancos, saúde, consumo e indústria.
Para uma gestão passiva e eficiente, há boas opções. Lá fora, o VOO replica o S&P 500 com taxa de administração muito baixa (0,03%). Aqui no Brasil, o SPXI11 oferece o índice com exposição ao dólar, e o SPXR11 é a alternativa para quem prefere ficar sem o impacto cambial.
Mas momentos como este também são ótimos para garimpar empresas de qualidade que ficaram baratas. A TSMC é um bom exemplo. Ela está no coração da cadeia de semicondutores, mas de forma bem mais resiliente, já que fabrica chips para praticamente todos os grandes nomes do setor.
Henrique Vasconcellos tem mapeado outras oportunidades nessa linha no Nord Global, a assinatura de ações internacionais da Nord, em busca de empresas com potencial de retorno acima dos índices, sem garantia de resultado.
Juros altos nos EUA: Fed em 3,75% a 4% e o risco fiscal americano
Fed mantém juros e dois membros votam por alta
Em 28 de outubro, o Federal Reserve (Fed) manteve os juros na faixa de 3,75% a 4%. Mas o placar mostrou que o aperto não acabou: dois membros votaram por uma alta imediata, e o comunicado descreveu a economia como em expansão em ritmo forte, com inflação que continua elevada.
Os dados confirmam o diagnóstico. O PIB do terceiro trimestre cresceu 3,4% anualizado, o ritmo mais forte do ano, puxado pelo investimento em data centers e por um consumo resiliente.
O Payroll de outubro mostrou a criação de 165 mil vagas, mais que o dobro do esperado, com desemprego caindo para 4,1% e salários acelerando. Na inflação, o núcleo do PCE está em 3,1% em doze meses e o CPI cheio voltou a 3,7%, pressionado pelo petróleo na casa de US$ 115. Pleno emprego e inflação acima da meta formam exatamente o cenário em que um banco central não tem pressa nenhuma de afrouxar.
A expectativa da Nord é de mais uma alta de 0,25 ponto em dezembro, levando os juros para a faixa de 4% a 4,25%, e não descartamos outra no começo do ano que vem, a depender dos dados.
Esse movimento reforça o descompasso entre os juros do Fed e a Selic, que já vinha pesando sobre o câmbio.
Dívida líquida dos EUA: de 35% do PIB em 2007 para perto de 100%
Nos juros longos, a pressão é ainda maior, e aqui entra o que costuma passar despercebido pelo investidor brasileiro. O título de 30 anos do Tesouro americano chegou a pagar mais de 5,3% neste ano, o maior patamar desde 2007. Não é só conjuntura. É fiscal.
A dívida líquida americana saiu de cerca de 35% do PIB em 2007 para perto de 100% hoje, e as projeções do CBO, o escritório orçamentário do Congresso, apontam para 120% em 2036. O déficit deve continuar na faixa de 6% a 7% do PIB nos próximos dez anos, e uma fatia crescente dele é simplesmente o pagamento de juros sobre a própria dívida. É um ciclo que se retroalimenta, porque mais dívida exige mais juros, que geram mais dívida.

Juros longos sobem no mundo todo
Esse movimento não é exclusivo dos Estados Unidos. O Banco Central Europeu voltou a subir juros, o Japão leva sua taxa ao maior nível em três décadas e os juros longos estão pressionados em boa parte do mundo desenvolvido. Fala-se muito do risco fiscal brasileiro, com razão, mas pouco se lembra que o mundo inteiro está cobrando mais caro para financiar governos.
O que os juros dos EUA significam para a Selic e o dólar no Brasil
Os juros altos lá fora reduzem o espaço para o Brasil baixar a Selic. Para entender por quê, vale juntar as peças sem repetir a reação do mercado depois do 2º turno.
No Brasil, o fiscal já preocupa por conta própria, com uma dívida que pode passar de 120% do PIB em dez anos sem reformas, e as expectativas de inflação para 2028 e 2029 já rondam 4%, perto do teto da meta. Só isso já dificulta imaginar uma Selic baixa.
O cenário externo reforça essa dificuldade. Com os juros americanos e europeus nos maiores níveis em quase vinte anos, cortar a Selic de forma agressiva reduziria o diferencial de juros que hoje segura o câmbio. O dólar perto de R$ 5,50 já incomoda, mas só não está em R$ 6 ou acima graças a esse diferencial. Se ele encolher, o dólar sobe, a inflação de bens importados acelera e o próprio problema que justificaria cortar juros fica maior.
Por isso, mesmo que o próximo governo surpreenda com reformas e responsabilidade fiscal, ainda estaríamos falando de juros elevados por bastante tempo.
Isso não significa deixar 100% da carteira no CDI. Há empresas de qualidade, resilientes a diferentes cenários, que ficaram muito descontadas, e essa tem sido nossa principal convicção para a Bolsa brasileira. O Tesouro IPCA+ também segue com taxas historicamente atrativas. O ponto é ser seletivo e não tomar mais risco do que o seu estômago aguenta.
Queda da Bolsa é oportunidade ou motivo para sair?
No fim, a pergunta que importa em um momento de tanta volatilidade é a seguinte: essa queda é oportunidade ou motivo para sair? A resposta só aparece quando se olha o cenário inteiro, aqui e lá fora.
É o que tentamos fazer nestes conteúdos abertos e, com mais profundidade, nas análises e carteiras da Nord: acompanhar o cenário daqui e de lá fora para encontrar boas oportunidades e evitar riscos desnecessários.
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Para quem quer ações internacionais, o Nord Global, série de recomendações de ações dos Estados Unidos conduzida por Henrique Vasconcellos, está incluído nos combos Supreme, Advisor Pro e Renda Infinita.
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