Por que o medo do investidor é um péssimo guia para comprar ou vender

Após 11 quedas seguidas, o mercado virou de um dia para o outro. Entenda por que o desconforto do investidor costuma marcar as melhores oportunidades

Marilia Fontes 20/08/2026 09:00 5 min
Por que o medo do investidor é um péssimo guia para comprar ou vender

Nesta semana, nos dias 18 e 19 de agosto, dei um curso na sede da Nord, em São Paulo, baseado no meu livro "Renda Fixa é a Mãe da Bolsa". 

Durante esses dois dias, tive a oportunidade de conhecer gente maravilhosa e falar sobre como a renda fixa impacta os demais investimentos de uma carteira.

Ao longo do curso, discutimos dois temas que parecem distintos, mas estão profundamente conectados: os ciclos de juros e o comportamento dos investidores. Entender essa relação ajuda a explicar por que tanta gente compra na hora errada, vende na hora errada e acaba obtendo resultados inferiores aos que poderia alcançar.

Como os juros influenciam a Bolsa

Contei a história de 2015, quando a Selic subiu forte e a Bolsa apanhou junto, e depois a virada de 2016 a 2019, quando os juros caíram de forma consistente e o Ibovespa mais que dobrou no período.

Não é coincidência, é causa e efeito: juro alto compete com a Bolsa por capital, juro caindo empurra dinheiro para ativos de risco. Quem entende esse mecanismo entende metade do que precisa saber para investir em ações.

A lição das Ondas de Elliott 

Depois entrei em um assunto que gosto tanto quanto esse: análise gráfica e a mentalidade do investidor.

Falei sobre a Teoria das Ondas de Elliott, que descreve o movimento de preços em cinco ondas.

A primeira onda é a da descrença, quando o ativo começa a subir, mas ninguém acredita, porque todo mundo ainda está machucado pela queda anterior. A quinta onda é a da euforia, quando todo mundo já está comprado, todo mundo já está falando daquele assunto no churrasco, e é justamente aí que o preço costuma estar mais caro e mais perto de virar.

O problema é que a maioria das pessoas faz o oposto do que deveria: foge da onda 1, porque dá medo, e compra pesado na onda 5, porque parece seguro. É exatamente o inverso do que funciona.

Ibovespa sai de 11 quedas seguidas; bitcoin sobe 8% no mesmo dia 

Ontem, o Ibovespa fechou em alta de 0,90%, aos 167.830 pontos, interrompendo uma sequência de 11 pregões seguidos de queda. 

O gatilho veio de fora, com o anúncio do Tesouro americano de ampliar a recompra de títulos longos, o que aliviou os juros futuros por aqui e também derrubou o dólar, que fechou a R$ 5,18

Depois de mais de duas semanas de sangria, o dia de virada normalmente não vem com aviso prévio e quase sempre pega o investidor que já tinha desistido.

O movimento do bitcoin 

O bitcoin fez o mesmo movimento, só que com mais violência. Depois de muito tempo andando de lado, a moeda disparou perto de 8% ontem, batendo US$ 69,5 mil, a maior alta desde março. 

O gatilho foi o mesmo: o anúncio do Tesouro americano. O resultado foi uma avalanche de mais de US$ 1 bilhão em posições vendidas sendo liquidadas em cerca de uma hora. 

Isso importa mais do que parece à primeira vista: quem estava apostando na continuidade da queda foi obrigado a comprar às pressas para fechar a posição. Esse movimento ajudou a empurrar os preços ainda mais rápido para cima. É o tipo de movimento que só acontece quando o pessimismo já está no talo.

Fundos imobiliários (FIIs): por que o preço caiu, mas o dividendo se mantém

Os fundos imobiliários seguem no capítulo mais difícil dessa história. O IFIX acumulou queda de 2,25% só na semana, pressionado pelas novas emissões de cotas, pela inadimplência em alguns fundos, além dos juros reais elevados e proximidade da eleição, com fundos de papel caindo 1,72% e os de tijolo, 2,23%. 

Só que essa queda de preço não veio acompanhada de uma queda equivalente nos fundamentos de alguns fundos, embora todos tenham sofrido. 

O dividend yield de uma carteira bem montada de FIIs atualmente gira em torno de 12% ao ano, e boa parte dos fundos segue com vacância em queda e distribuição de dividendos estável.

Traduzindo: o preço caiu, o aluguel continua entrando. Ninguém quer falar de fundo imobiliário agora, e é exatamente por isso que vale a pena olhar.

Pânico destrói patrimônio, paciência constrói 

Não estou dizendo que dá para cravar o fundo do poço, nem que ontem foi o dia exato da virada em nenhum desses três ativos. Ninguém acerta isso com precisão, nem eu. 

O ponto é outro: o investidor sério não decide comprar ou vender olhando para a sequência de quedas recentes e para o humor da manada. Ele olha se o fundamento continua de pé. Se a resposta for sim, uma queda de preço não é motivo para vender; é motivo para revisar a posição com calma e, se fizer sentido, aumentar.

Quem vende no meio de 11 quedas seguidas porque não aguenta mais ver o número vermelho geralmente vende perto do fundo, não perto do topo. 

Quem entra empolgado depois que o ativo já subiu, que todo mundo já está comprado e o assunto virou consenso, geralmente compra perto do topo, não perto do fundo. É a onda 5 se repetindo, só que ao contrário: euforia para comprar, pânico para vender, sempre na hora errada. 

O investidor que constrói patrimônio de verdade é o que aprende a fazer as pazes com o desconforto da onda 1. É aí, no meio do incômodo, que normalmente mora a oportunidade.

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