Por que manter dólar na carteira mesmo com o câmbio caindo

O dólar caiu, mas os riscos fiscais no Brasil aumentaram. Entenda por que manter dólar na carteira ainda pode ajudar a proteger seu patrimônio

Caio Zylbersztajn 04/08/2026 08:15 8 min
Por que manter dólar na carteira mesmo com o câmbio caindo

Quanto do seu patrimônio depende de uma única moeda, uma única jurisdição e um único risco fiscal darem certo ao mesmo tempo? Para a maioria dos investidores brasileiros, a resposta é: quase tudo.

O dólar caiu -7% em 2026, e isso tem levado muita gente a questionar se manter uma posição em moeda forte na carteira ainda faz sentido. Mas o retorno baixo de uma proteção cambial não é, por si só, motivo para abandoná-la — e um episódio recente ajuda a entender por quê.

O ano em que o seguro não foi acionado

Semana passada, recebi a ligação de um cliente que acompanho há anos. Ele aumentou a posição em dólar em dezembro, com o câmbio rondando os R$ 5,45, e foi direto: "Caio, o dólar é disparado o pior ativo da minha carteira este ano. O CDI paga mais de 14% e eu estou olhando para uma posição que caiu 7%. Me convence de que não foi um erro."

Na última carta em que toquei no assunto, escrevi que um Brasil frágil exige dólar, e que esse hedge ter rendido pouco não o tornava menos necessário; tornava-o mais barato.

Antes dos números, um ajuste de expectativa. "Foi um erro?" é uma pergunta de retorno, e dólar não foi contratado só para dar retorno, muito menos em prazos curtos. Foi contratado para aproveitar as maiores economias do mundo e pagar no cenário em que todo o resto deixa de pagar. 

Pense comigo: ninguém reclama em dezembro que o seguro do carro venceu sem uso, mas com o seguro do patrimônio, curiosamente, a reclamação é semanal.

Por que o dólar caiu (e por que isso não me tranquiliza)

Duas coisas derrubaram o câmbio em 2026, e nenhuma delas tem a ver com o Brasil ter ficado mais sólido. 

A primeira veio de fora: o dólar enfraqueceu contra quase tudo após o “Tarifaço” do Trump, em um movimento global de rotação para emergentes. 

A segunda é o velho diferencial de juros. Com a Selic em 14,25% e o Fed parado na faixa de 3,50% a 3,75% (quinta reunião seguida sem mexer; desta vez, com três dirigentes votando por alta), sobram mais de dez pontos de prêmio para quem topa ficar em real. Dinheiro entra, câmbio cede, como sempre.

Só que aqui mora o incômodo que levei ao comitê: enquanto o hedge barateava, o risco que ele cobre só cresceu. 

A dívida bruta fechou maio em 81,1% do PIB (eram 78,7% no fim de 2025). Hoje, a trajetória aponta uma dívida acima de 100% do PIB lá em 2030

Há, ainda, um detalhe que quase ninguém repara: a maior parte do que a dívida ganhou no ano veio da própria conta de juros.

Gráfico de barras comparando a queda do dólar à vista, de R$ 5,46 em dezembro de 2025 para R$ 5,06 em julho de 2026 (cerca de -7% no período), com o aumento da dívida bruta do governo geral, de 78,7% do PIB em dezembro de 2025 para 81,1% em maio de 2026.
 Dólar à vista e dívida bruta do governo geral (2025–2026). Fonte: Banco Central do Brasil

O seguro ficou mais barato justamente no ano em que o risco segurado aumentou. 

Vale guardar uma coisa sobre esses dez pontos de diferencial: ninguém recebe prêmio desse tamanho para deixar dinheiro em um lugar seguro. Você recebe exatamente porque ele não é. Lembrem-se, sempre: os mercados trabalham com eficiência no longo prazo.

O que o dólar futuro precifica para os próximos 12 meses

Um pouco de perspectiva: em julho de 1994, quando o Real nasceu, um dólar comprava menos de um real. Em 2008, antes mesmo da crise do Sub-Prime, ele ainda comprava R$ 1,56. Hoje, compra R$ 5,06. Uma enorme desvalorização atravessando planos, âncoras, superávits e déficits.

O mercado espera algo diferente daqui para frente? 

Aqui entra um conceito que uso muito em reunião e que quase nenhum cliente conhece: o cupom cambial. 

Quem traz dólar para cá, aplica no juro local e já trava a saída no futuro, não pode ganhar muito mais do que ganharia em um título americano. A arbitragem (o tal do mercado eficiente no longo prazo que falei) não deixa. 

Para a conta fechar, o dólar futuro precisa embutir a diferença entre a Selic e o juro do Fed, o que coloca o dólar de doze meses perto de R$ 5,55. É exatamente essa aritmética. Mas ela diz algo valioso: quem fica do outro lado da sua posição em real está sendo pago, e muito bem pago, para carregar esse risco no seu lugar.

Dívida pública brasileira: o risco que cresceu enquanto o dólar caía

Você acredita em um ajuste fiscal relevante no Brasil nos próximos doze meses?

Os dados de julho não ajudam quem responde sim

O FMI voltou a recomendar um aperto de três pontos do PIB em cinco anos só para virar a rota da dívida. Sem isso, a projeção caminha para a casa dos 100% do PIB no fim da década. 

Além disso, estamos em ano eleitoral, quando historicamente governos gastam mais, não menos (e sem perspectivas animadoras para as eleições).

Enquanto isso, o nosso Banco Central corta juros com a inflação perto de 5% e as expectativas se afastando da meta. 

Fed firme lá fora, BC afrouxando aqui dentro, fiscal deteriorando no meio. Quando essas três coisas se desalinham, o câmbio costuma ser o canal por onde a conta chega.

Esse mecanismo tem nome — dominância fiscal — e um roteiro conhecido: o juro alto engorda a dívida, que assusta quem financia o país; o prêmio exigido cresce, até a credibilidade minguar e o capital ir embora. 

Vimos o filme em 2015: Selic travada nos mesmos 14,25% de hoje e o dólar saindo de R$ 2,65 para R$ 4,24 no meio da crise fiscal e da perda do grau de investimento. 

Juro alto segura capital enquanto o problema é inflação, mas quando o problema vira solvência, não segura mais nada.

Brasil e Turquia: o gráfico que compara os dois países

Gráfico de linhas comparando a cotação do dólar contra o real e contra a lira turca entre julho de 1994 e dezembro de 2024, mostrando que as duas moedas partiram de patamares muito parecidos em dois momentos distintos (1,60 em 2011 e 3,50 em 2016)
 Dólar contra real e contra lira turca, jul/1994 a dez/2024. Fonte: Nord Wealth

Em março de 2011, um dólar comprava exatamente R$ 1,60 e exatamente 1,60 lira turca. Em dezembro de 2016, a coincidência se repetiu: R$ 3,50 de um lado, 3,50 liras do outro. Mesmo ponto de partida, duas vezes. 

Hoje, o dólar vale R$ 5,06 aqui. Na Turquia, passa de 47 liras.

O que separou as duas linhas não foi geografia. Foi o dia em que o governo turco resolveu cortar juros com a inflação subindo e esvaziou um banco central que ainda sabia dizer não. 

O mercado não reagiu ao número da inflação; reagiu à percepção de que a instituição que protegia a moeda tinha deixado de existir. 

Não estou dizendo que o Brasil vai virar a Turquia, afinal, nosso arcabouço é outro. Mas o gráfico não é sobre o que o Brasil é hoje, mas sobre o que acontece com o patrimônio de quem estava inteiro em moeda local no dia em que a resposta mudou.

Quanto do seu patrimônio deveria estar em moeda forte

Se você esperava que eu terminasse cravando que o dólar sobe até dezembro, vou te frustrar. Não sei, e desconfio de quem diz saber. 

A pergunta que importa é outra: quanto do seu patrimônio depende de uma única moeda, uma única jurisdição e um único risco fiscal darem certo ao mesmo tempo? 

Na maioria das carteiras que reviso, a resposta honesta é quase tudo. E os 10% em moeda forte que costumo encontrar não são alocação internacional de verdade; até porque muitas vezes não contemplam patrimônios imobiliários e empresariais enormes que não entram nesse cálculo.

Agora (e este é o motivo pelo qual escrevi este texto), o que me preocupa não é o câmbio oscilar. É câmbio, Bolsa e juros longos andando juntos na direção errada, de uma vez.

Por isso, quando o assunto da internacionalização vem à mesa, a conversa gira em torno de três pontos: 

  • o tamanho da fatia em moeda forte se define pela sua vida (onde você vai gastar, horizonte, sucessão), não pelo câmbio de hoje;
  • a entrada se faz escalonada, porque ninguém sabe se R$ 5,06 é “bom” ou “ruim”;
  • a estrutura tributária e sucessória se desenha desde o primeiro dólar, porque arrumar depois custa mais caro.

No fim da ligação, devolvi ao meu cliente uma pergunta no lugar da resposta: se o câmbio tivesse ido a R$ 6,50 este ano, você estaria feliz com a carteira? Ele riu. "Claro que não, o resto estaria muito pior." Pois é. É para esse dia que a posição existe. E o ano em que o seguro fica barato é, por definição, o ano em que ninguém quer comprá-lo.

A pergunta que fica depois da ligação

Você não precisa concordar comigo sobre quanto o dólar deve valer daqui a um ano — eu mesmo não sei, e já disse isso. Mas existe uma pergunta que dá para responder hoje, sem depender de nenhuma previsão: se o câmbio, a Bolsa e os juros longos piorassem ao mesmo tempo, sua carteira absorveria o golpe, ou você pagaria essa conta sozinho, com o patrimônio inteiro exposto ao mesmo risco?

Se, ao ler esta carta, você percebeu que não sabe de cabeça qual é o percentual do seu patrimônio em moeda forte, esse já é o sinal.

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