Otis (OTIS): a empresa de elevadores por trás dos prédios mais altos do mundo

Enquanto o mercado americano sobe 70% em 5 anos, a Otis cai 17%. Entenda o modelo de negócio por trás da maior empresa de elevadores do mundo

Henrique Vasconcellos 13/09/2026 08:00 7 min
Otis (OTIS): a empresa de elevadores por trás dos prédios mais altos do mundo

A Otis (ticker: OTIS) está por trás dos elevadores de alguns dos prédios mais altos e icônicos do mundo, do Empire State Building ao Burj Khalifa. É uma das maiores empresas do setor, com um modelo de negócio que gera receita recorrente por décadas a partir de um único equipamento instalado.

Mesmo assim, nos últimos cinco anos, enquanto o mercado americano acumulou alta de mais de 70%, as ações da Otis caíram cerca de 17%. Entenda a história por trás da empresa, o que sustenta seu modelo de negócio e o que explica esse desempenho abaixo do esperado.

E se eu cortar a corda? A origem do elevador seguro 

Nas minhas últimas férias, tive uma breve passagem de um dia e meio por Chicago. Acompanhado de uma pessoa que nunca havia visitado a Windy City, não poderíamos deixar de cumprir algumas daquelas atrações turísticas tradicionais. Entre elas, o Skydeck. Um passeio ao 103º andar da Sears Tower, hoje Willis Tower, com uma vista panorâmica incrível da cidade.

No meio do passeio, estava eu cronometrando o tempo que o elevador levaria para chegar ao topo, para depois calcular sua velocidade média. Acabou virando uma atração à parte. As outras pessoas perceberam o cronômetro no meu celular e, de repente, quase todo mundo estava acompanhando a subida junto comigo.

Besteira? Sem dúvidas. Ninguém pensa muito sobre “elevador” hoje em dia. A gente entra, deseja bom dia, abre o celular e espera chegar ao andar. A segurança virou pressuposto. O medo de elevador é mais raro do que o medo de balão de festa, inclusive. Mas faz sentido. Elevadores estão entre as formas de transporte mais seguras que existem.

Mas esse não foi o caso durante a maior parte da história.

Elevadores existem há milhares de anos. Só que, por muito tempo, foram usados principalmente para carregar bens e objetos, não pessoas. Afinal, se a corda de um mecanismo desses se rompesse, uma carga perdida seria um prejuízo. Com pessoas dentro… a conversa muda bastante.

Ilustração histórica da demonstração de Elisha Otis em 1854, quando ele cortou a corda do elevador para mostrar o funcionamento do freio de segurança
 Ilustração da demonstração de Elisha Otis em 1854. Fonte: Groww Digest

Romper com o medo da morte foi necessário para que elevadores se tornassem meios de transporte populares. E foi isso que Elisha Otis fez em 1854.

O inventor apresentou em Nova York seu sistema de freios de segurança para elevadores em uma demonstração dramática. Ele entrou em uma plataforma suspensa por alguns andares e mandou cortarem a corda. 

O elevador caiu alguns centímetros antes de o sistema de segurança ser ativado. A plateia ficou perplexa. Para a época, era uma mudança de paradigma enorme em transportes. Mas era ainda mais relevante para a construção civil.

Essa demonstração foi repetida outras vezes, até ajudar a mudar a percepção popular sobre elevadores. De uma máquina útil para cargas, eles passaram a ser vistos como um meio de transporte possível para pessoas.

Hoje, a Otis é uma das maiores empresas do mundo em elevadores e escadas rolantes. E isso tem tudo a ver com uma demonstração feita em 1854.

Por que o modelo de negócio da Otis tem alta recorrência 

A mudança de percepção sobre segurança, puxada pelas demonstrações feitas no século XIX, deu à Otis uma vantagem de partida. 

As pessoas passaram a confiar na marca por conta dos freios de segurança. Isso ajudou a transformar seus elevadores em alguns dos mais cobiçados da época. Mas essa vantagem não ficou presa ao passado. A própria natureza do produto contribuiu para a longevidade das empresas desse setor.

Comparação de silhuetas dos maiores prédios do mundo, incluindo Empire State Building, Willis Tower e Burj Khalifa, todos equipados com elevadores Otis
 Alguns dos maiores prédios do mundo e a marca do elevador. Fonte: 6sqft

Quando um prédio é projetado, o poço do elevador já nasce pensado para um determinado modelo. 

Depois que o elevador é instalado, trocar por outro fornecedor não é uma decisão simples. Envolve obra, adaptação técnica, interrupção do prédio, custo, risco e uma boa dose de dor de cabeça. Além disso, elevadores são equipamentos altamente regulados. Precisam de inspeções, manutenção recorrente, peças, técnicos especializados e alguém responsável por garantir que tudo continue funcionando.

E um bônus com base nas minhas experiências empíricas, sem nenhuma prova estatística: elevadores estão sempre dando problema. Aqui no escritório, sempre tem um, pelo menos, em manutenção. Isso gera uma demora insuportável para nós, usuários. Mas uma mina de ouro para o prestador de serviços e manutenção. 

É isso que torna esse negócio tão sem graça em algo muito interessante. A venda do elevador coloca a empresa dentro do prédio. Mas a manutenção faz com que ela continue ali por décadas. O equipamento envelhece, precisa ser revisado, atualizado, modernizado e, eventualmente, trocado. 

Dentro do mundo do value investing, isso é uma vantagem competitiva de “switching cost”. Depois que o elevador está instalado, mudar de fornecedor é caro, complexo e arriscado. O produto fica grudado no cliente, e essa base instalada garante uma recorrência relevante de receitas ao longo de décadas. 

Por que a ação da Otis caiu 17% em 5 anos

Gráfico do desempenho das ações da Otis nos últimos cinco anos, mostrando queda de cerca de 17%, enquanto o mercado americano subiu mais de 70%
 Ações da Otis nos últimos cinco anos. Fonte: Bloomberg

Nos últimos cinco anos, o mercado americano vem surfando em uma alta impressionante. O índice acumula retornos acima de 70% no período. A Otis foi na contramão. No mesmo intervalo, as ações tiveram queda de cerca de 17%.

Isso levanta um questionamento: o que vem dando errado? Considerando que ela é uma empresa líder no setor, com um modelo de negócios recorrente e uma base instalada relevante, essa discrepância chama atenção. Mas também seria simplista dizer que o mercado está apenas “errando” na Otis.

Hoje, a companhia ganha dinheiro em três grandes frentes. A primeira é a venda de novos equipamentos, como elevadores e escadas rolantes. Essa é a parte mais ligada ao ciclo de construção civil. Quando incorporadoras lançam menos projetos, quando juros apertam, quando o mercado imobiliário desacelera ou quando a China vai mal, essa linha sente primeiro.

A segunda frente é manutenção e reparo. Aqui está o lado mais “bonito” do negócio. Depois que o elevador é instalado, ele precisa continuar funcionando por décadas. Isso exige inspeções, peças, técnicos e contratos recorrentes. É uma receita mais previsível, mais resiliente e normalmente mais rentável.

A terceira é modernização. Elevadores antigos precisam ser atualizados ao longo do tempo. Pode ser por eficiência, segurança, conforto, tecnologia ou adequação regulatória. Essa linha fica no meio do caminho entre manutenção recorrente e venda de equipamento novo. Não depende de um prédio novo, mas depende da decisão do cliente de investir na renovação do ativo.

Gráfico de barras mostrando as receitas da Otis por segmento (novos equipamentos, serviços e manutenção, modernização) nos últimos cinco anos
 Receitas por segmento nos últimos cinco anos. Fonte: Fiscal.ai

O problema recente da Otis está principalmente na primeira frente

O mercado de novos equipamentos ficou mais difícil, especialmente por causa da fraqueza da construção na China, e isso pesa negativamente nas receitas. Essa linha de resultado vem apresentando quedas desde o auge em 2021. Isso pressiona o crescimento negativamente. 

Por outro lado, o pedaço mais interessante continua funcionando. Manutenção, reparo e modernização continuam apresentando crescimento. Ao mesmo tempo, representam a maior parte do lucro operacional da companhia. 

A Otis continua sendo uma boa empresa, mas parte relevante do seu negócio vem passando por um ciclo negativo. A fraqueza em novos equipamentos pesa no crescimento atual e também reduz a base futura de elevadores que poderão gerar serviços recorrentes.  

Otis pode voltar a subir? Os desafios que a empresa ainda enfrenta

Após entender um pouco sobre a natureza do negócio e o momento da companhia, a pergunta óbvia é: será que esse elevador sobe?

Gráficos de projeção mostrando novos equipamentos deixando de ser um problema e serviços/modernização representando mais de 90% do EBITDA ajustado da Otis em 2025
 Projeções de crescimento e de EBITA para OTIS. Fonte: Evercore

O mercado de novos equipamentos precisa, no mínimo, parar de piorar. Manutenção e modernização seguem crescendo, representam a maior parte do lucro operacional e continuam sendo o lado mais interessante do negócio. 

Se as quedas em novos equipamentos perderem força e o mix continuar migrando para serviços, a Otis pode voltar a entregar crescimento melhor e alguma expansão de margem. Isso parece ser um catalisador positivo para a ação.

Mas existe um problema importante: execução. Ao longo dos últimos anos, a gestão errou nas projeções de forma recorrente e entregou números abaixo do esperado. Em uma tese que depende de estabilização em novos equipamentos, crescimento em serviços e melhora de margem, confiança no management importa bastante. 

Pode ser que esse elevador volte a subir. Mas, hoje, ainda existem alguns desafios importantes a serem superados. Vale acompanhar. 

1:01:07

Um minuto, um segundo e sete milésimos. Foi esse o tempo que levei para chegar ao 103º andar no Skydeck, em Chicago. Isso dá uma velocidade média de 24,3 km/h. A velocidade máxima chegou a quase 29 km/h, levando-me a 412 m de altura. 

Nunca na minha vida tive medo de elevador. Tudo graças a algumas demonstrações feitas por Elisha Otis.

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