Com bolsas em máximas e crédito sem prêmio, ainda existem boas oportunidades para investir?
Com mercados esticados e recente correção, veja onde investir agora e como posicionar sua carteira com mais segurança
Com o mercado ainda pressionado por preços elevados e uma recente correção nos principais ativos globais, a dúvida que surge para o investidor é direta: onde investir agora?
Após um período em que bolsas, ouro e crédito pareciam esticados, o ajuste recente abriu espaço para novas oportunidades, mas também aumentou a necessidade de seletividade na hora de montar a carteira.
Onde investir após a correção do mercado
Nas últimas semanas, a sensação era clara: tudo parecia caro. Eu olhava os preços de mercado e tinha a impressão de que absolutamente tudo já tinha andado demais. Sabe quando parece que você chegou atrasada para a festa, e o risco agora é apenas pagar caro pela empolgação dos outros? Era exatamente isso.
Eu tinha acabado de receber recursos de algumas vendas de posições em Bolsa e me vi diante da pergunta clássica: onde alocar agora?
Uma parte foi para fundos imobiliários (FIIs). Como já comentei com você, segue sendo uma das classes de que mais gosto no momento. Ainda assim, a dúvida permanecia.
Isso porque, ao olhar para o restante do mercado, a sensação era desconfortável.
A Bolsa americana rondando os 7.000 pontos, ouro acima de US$ 5.500, Bolsa brasileira próxima dos 190.000 pontos, crédito privado praticamente sem prêmio. Tudo parecia esticado. Não era falta de opção, era excesso de preço.
Diante desse cenário, confesso que já estava quase resignada a deixar uma fatia maior em CDI, esperando um momento melhor.
Foi então que algo aconteceu.

O que mudou com a correção recente
Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram o primeiro ataque contra o Irã e, dali em diante, vimos uma correção relevante nos mercados globais.
Começando pelo petróleo, que não é apenas uma commodity, mas um insumo transversal. Ele impacta frete, passagens aéreas, alimentos e, no fim da cadeia, a inflação. E inflação mais alta significa juros mais altos por mais tempo.
Mas o ponto mais importante aqui não é a guerra em si. É o contexto.
Eu achava tudo caro e, por isso, estava mais cautelosa. Mas eu sabia que haveria um conflito dessa magnitude? Claro que não.
O que eu sabia era outra coisa: quando os preços estão muito elevados, o mercado como um todo começa a aumentar sua vulnerabilidade.
É como deixar um celular em cima da mesa em um bar no centro do Rio de Janeiro e ir ao banheiro. Pode ser que nada aconteça, mas você está deliberadamente aumentando a probabilidade de algo dar errado.
No mercado, é igual.
Quanto mais um ativo sobe e quanto mais caro ele fica, maior a sensibilidade a notícias negativas. Isso acontece porque boa parte das notícias positivas já está embutida no preço. O potencial de alta fica mais limitado, enquanto o risco de queda ganha peso.
Nesse ambiente, qualquer catalisador, mesmo que imprevisível, pode desencadear uma correção.
Correções abrem oportunidades, mas exigem critério
O S&P 500 acumulou queda de cerca de -8,7% em relação ao pico histórico. O Nasdaq recuou mais de -12%. Já as Magnificent 7, que vinham puxando o mercado, ficaram no zero a zero em 2026, com algumas quedas relevantes no meio do caminho.
É justamente nesses momentos que começam a aparecer oportunidades interessantes.
Ações que gostávamos, mas que estavam caras demais, passaram a negociar em níveis mais razoáveis. ETFs de software, por exemplo, saíram de múltiplos próximos a 47x lucro para algo em torno de 19x. Empresas como Microsoft, Salesforce, ServiceNow, Intuit e AppLovin perderam mais de US$ 50 bilhões em valor de mercado cada uma.
A Meta, que o Henrique Vasconcellos acompanha de perto, chegou a cair cerca de -35% do pico. Um terço do valor de mercado evaporando, não por deterioração proporcional dos fundamentos, mas por ajuste de preço.
Até o ouro, que normalmente funciona como porto seguro em momentos de estresse geopolítico, acabou cedendo. Mais uma evidência de que, quando tudo está esticado, até os ativos “defensivos” ficam vulneráveis.
Diante disso, a tentação é óbvia: será que agora é hora de sair comprando?
Calma. Nem toda queda é uma oportunidade.
O impacto da inteligência artificial nos investimentos
Aqui entra um ponto central: parte relevante da correção, especialmente em tecnologia, tem um componente estrutural.
O avanço recente de IAs, como o Claude e outras ferramentas capazes de programar e desenvolver software, mudou o jogo para diversos modelos de negócio. E isso não é um ruído de curto prazo.
A inteligência artificial criou uma divisão muito clara dentro do setor.
De um lado, estão as empresas que se beneficiam da IA. São aquelas que desenvolvem infraestrutura, modelos ou conseguem usar a tecnologia para ampliar uma vantagem competitiva já existente. Em geral, não dependem de uma única funcionalidade facilmente automatizável e possuem receitas mais diversificadas. Aqui entram nomes como a Meta e grandes plataformas de cloud.
Do outro lado, estão companhias potencialmente ameaçadas. São negócios baseados em softwares de nicho, automações específicas ou serviços que modelos de linguagem já conseguem replicar, muitas vezes com custo muito menor. Nesses casos, a barreira de entrada está caindo, o poder de precificação está sendo pressionado e parte da queda pode ser permanente.
Ou seja, a correção abriu oportunidades, mas também expôs fragilidades que antes estavam escondidas por um ambiente de liquidez abundante.
E a renda fixa, já é oportunidade?
Na renda fixa, o movimento foi semelhante: taxas subiram e preços caíram. Mas isso, por si só, já configura uma grande oportunidade?
Na minha visão, ainda não.
O principal risco continua sendo um eventual agravamento do cenário geopolítico. Se o conflito escalar, podemos entrar em um ambiente de recessão global com inflação pressionada, um clássico cenário de estagflação.
Nesse contexto, os bancos centrais ficam com pouca margem de manobra: não conseguem cortar juros de forma agressiva por causa da inflação, mas também não conseguem estimular a economia.
Esse é um ambiente ruim tanto para a Bolsa quanto para a renda fixa prefixada.
Não é o meu cenário base, mas está longe de ser desprezível.
Além disso, temos eleições pela frente e uma trajetória fiscal que segue pressionada. Esse tipo de combinação costuma gerar volatilidade adicional, principalmente na curva de juros.
Onde estão, então, as oportunidades?
Onde estão as oportunidades agora
Diante desse cenário, minha carteira continua com um viés mais conservador, mas com alguns ajustes táticos, aproveitando o movimento recente de correção.
Tenho mantido:
- fundos imobiliários como principal fonte de risco na carteira;
- exposição seletiva a ações de tecnologia, focando nas empresas que tendem a se beneficiar, e não a sofrer, com a IA;
- maior parte da renda fixa em pós-fixados do Tesouro, evitando crédito privado neste momento;
- pequenas alocações em IPCA+ e prefixados, aproveitando o aumento das taxas, mas sem exageros.
No fundo, a lógica é simples e conecta com o começo da conversa.
Quando tudo parece caro, o risco está escondido.
Quando o mercado corrige, o risco aparece, mas, junto com ele, surgem as oportunidades. O difícil — e o que realmente faz diferença no longo prazo — é saber separar uma coisa da outra.

