O discurso de Marilia Fontes no Senado Federal
Marilia Fontes discursou no Senado Federal sobre educação financeira, cidadania financeira e investimentos no Brasil
Na última quarta-feira, 20, estive em Brasília (DF). Fui convidada para falar, em dez minutos, em uma comissão do Senado Federal que está lançando o projeto da Semana Nacional do Pequeno Investidor.
Aceitei na hora — mas confesso: com aquele frio na barriga de quem nunca tinha pisado naquele palco antes.
Cheguei à Esplanada em um dia daqueles em que Brasília vira cartão-postal: céu azul, a luz seca do cerrado batendo nos prédios brancos como se fossem esculturas. E eles são, esculturas gigantes a céu aberto!

A Praça dos Três Poderes é uma das coisas mais belas que a arquitetura brasileira já fez.
Quando você caminha por ali devagar — o Congresso à esquerda, o Planalto à direita, o Supremo à frente — entende, no corpo, por que Oscar Niemeyer queria que aquela praça parecesse um teorema. Tudo está exatamente onde precisa estar.
Subi a rampa do Senado. Atravessei o Túnel do Tempo. Entrei na sala da comissão, sentei na bancada dos convidados e olhei para os senadores que me ouviriam.
Era a primeira vez na vida que eu fazia aquilo.
E, ali sentada, antes de começar, lembrei-me de uma coisa simples: o assunto que vim discutir aqui não é abstrato.
É o dinheiro de quem está em casa. O salário, a reserva, o sonho de aposentar com tranquilidade. Não é política, é prática.
Falei por dez minutos.
Marilia discursa no Senado Federal sobre educação financeira
Para a minha surpresa, o discurso teve uma repercussão bem maior do que eu esperava.
Vários senadores vieram conversar comigo depois, jornalistas pediram trechos, alguns colegas da Nord me escreveram emocionados. É por isso que estou aqui hoje, na sua caixa de entrada, querendo fazer duas coisas com você.
Primeiro: te contar, resumidamente, o que eu disse lá.
Segundo, e o mais importante, traduzir aquele discurso em três coisas práticas que você pode fazer no seu próprio dinheiro, hoje, da sua casa.
Como foi o discurso de Marilia Fontes no Senado
Comecei lembrando uma ironia histórica. O Senado Federal foi criado em 1826 como uma das instituições mais conservadoras do Império — uma casa vitalícia, indicada pelo Imperador, deliberadamente desenhada para conter a participação do povo no poder.
E hoje, quase dois séculos depois, essa mesma Casa discute um projeto cujo objetivo é exatamente o oposto: ampliar o acesso do cidadão comum à economia do país.
“No Império, estabilidade significava conter o povo. Hoje, estabilidade significa, em boa medida, incluir o povo. Estabilidade, no Brasil moderno, não é distância — é integração.”

O que a cidadania financeira tem a ver com liberdade econômica
Defendi, em seguida, uma ideia que considero a mais importante de tudo o que falei: existe hoje uma dimensão da cidadania brasileira que ainda falta a gente conquistar — a cidadania financeira.
“O cidadão sem educação financeira vota, estuda e trabalha, mas não consegue proteger o que conquista, tendo, às vezes, que recomeçar do zero. Não entende inflação. Não entende juros. Fica vulnerável a golpes. A cidadania dele ainda está incompleta.”
Os dados que mostram a fragilidade financeira do brasileiro
Ainda durante o discurso, mostrei três dados que ajudam a explicar por que o problema é tão concreto no Brasil.
O primeiro: o Brasil é um dos países que menos poupa no mundo e, não por acaso, um dos que pagam os juros reais mais altos do planeta.
O segundo: o nosso mercado de capitais é raso na comparação internacional, o que obriga a empresa brasileira a se financiar em banco caro ou em capital externo instável.
E o terceiro: um dado do Raio X do Investidor Brasileiro 2026, da Anbima. Segundo o levantamento, 31% dos brasileiros não têm nenhuma reserva financeira. Outros 20% só conseguem cobrir, no máximo, um mês de despesas. Mais da metade do país, hoje, está a um susto das dívidas.
“Liberdade financeira não é luxo de rico. É a tranquilidade de poder escolher emprego, escolher mudar de cidade, escolher cuidar de quem você ama, escolher dizer não a um trabalho que adoece ou empreender.”
A frase que mais repercutiu
Fechei com a frase que mais repercutiu nos dias seguintes:
“A próxima fronteira da cidadania brasileira não está só na urna, nem só na escola. Está também na possibilidade concreta de cada brasileiro, com seu pequeno capital, financiar o próprio futuro e o futuro do país.
Se você quiser ver o discurso inteiro, com a estrutura completa, está disponível aqui. A minha parte começa em 1h52 e leva uns 10 minutos.
3 lições práticas do discurso no Senado Federal
Discurso bonito não muda a vida de ninguém se não virar ação. Então vou te entregar agora, em ordem de prioridade, as três coisas práticas que decorrem direto do que falei lá em Brasília.
Não é teoria, não é política, é decisão de carteira. Coisa para você fazer hoje, da sua casa.
Descubra seu fôlego financeiro
Pegue um papel agora e faça uma conta simples.
Primeiro, some os seus gastos mensais essenciais: aluguel ou parcela do imóvel, contas básicas, supermercado, transporte, plano de saúde e escola dos filhos. Esse é o valor mínimo que você precisa para manter a sua vida funcionando todos os meses — seu “custo de vida nu”.
Depois, veja quanto tem disponível em reserva financeira: poupança, conta remunerada, CDB de liquidez diária ou Tesouro Selic, por exemplo.
Agora divida a sua reserva pelo seu custo mensal essencial.
O resultado mostra por quantos meses você conseguiria manter sua vida atual sem depender de renda. Esse é o seu fôlego financeiro.
Se deu menos de três meses, a sua prioridade absoluta, antes de qualquer outra coisa, é construir essa reserva em CDB de liquidez diária com, no mínimo, 100% do CDI ou em Tesouro Selic.
Sem romance, sem ações, sem “oportunidade”. Reserva primeiro, sempre.
Se deu entre três e seis meses, você está em zona segura e, a partir daqui, dá para começar a diversificar de verdade.
Se deu mais de seis meses, parabéns: você está entre os 24% mais blindados do país. Aqui, o foco vira crescimento de patrimônio, não defesa.
Use os instrumentos financeiros a seu favor
Títulos Públicos, CDB, LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas têm uma coisa em comum: são a maior fonte de juros compostos para a pessoa física. Isso significa que, conforme o tempo for passando, os juros vão virando uma grande bola de neve que te leva ao infinito!
Tem mais. Como eu falei no discurso, esses produtos financiam diretamente a economia real. LCI e CRI bancam o crédito imobiliário. LCA e CRA financiam o agronegócio. Já as debêntures incentivadas viabilizam rodovias, energia, saneamento e ferrovias.
Quando você investe em uma debênture incentivada de uma concessionária de rodovia, você é, na prática, sócio daquele projeto.
A regra prática que eu sugiro: depois de ter a sua reserva de emergência montada em liquidez diária, vale começar a estudar os outros títulos para pensar em retornos maiores. Eles não substituem a reserva — complementam.
Transforme educação financeira em hábito
Esse é o ponto que eu mais reforcei no Senado e é o que eu mais quero que fique com você.
Educação financeira não é mais um luxo.
Em 2026, no Brasil de juros altos, inflação persistente e golpes a cada esquina, ela é a única forma de exercer cidadania completa. Saber o que é Selic, o que é inflação, o que é spread bancário, o que é renda fixa pós-fixada — não é coisa de economista. É coisa de cidadão adulto.
Reserve trinta minutos por semana. Trinta. Leia uma newsletter (esta serve), assista a um vídeo, pesquise um conceito que não entende, abra o extrato do seu banco e olhe as taxas que estão cobrando de você.
Em um ano, você terá feito mais pelo seu patrimônio do que com qualquer “dica de tio” do grupo de WhatsApp.
Voltando de Brasília no avião, com o céu do planalto virando, devagar, o céu da Paulista, eu pensei muito em uma coisa.
O discurso foi bonito, foi elogiado, foi um dos momentos mais especiais da minha vida profissional. Mas nada disso vale alguma coisa se não chegar até aqui e não virar uma ação concreta no dinheiro de quem me lê.
Então te peço uma única coisa nesta semana: faça a conta do seu fôlego financeiro. Sem julgamento, sem vergonha, só descubra quantos meses você aguenta sem renda hoje. Esse é o primeiro passo da sua cidadania financeira, e foi exatamente para isso que fui ao Senado.
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