O maior conflito de interesse do Brasil é um título público
NTN-B longa rende mais para quem vende do que para quem compra. Entenda o conflito de interesse escondido no prazo dos títulos públicos
Um em cada quatro clientes chega à Nord Wealth carregando um título público com vencimento acima de 2045. Quase nenhum comprou pelo Tesouro Direto e quase nenhum sabe quanto pagou por isso.
Fizemos um levantamento na nossa própria base de clientes da Nord Wealth, procurando uma coisa só: títulos públicos com vencimento a partir de 2045.
Encontramos 623 clientes, com R$ 91,9 milhões alocados. Mais de mil posições. Um em cada quatro clientes da casa carrega hoje uma NTN-B que vence após 2045, e boa parte delas vence depois de 2060. E detalhe: isso já considerando um trabalho de enquadramento de posições em tamanhos descabidos que fazemos para todos os clientes quando entram na casa.

Aqui está o dado que dá sentido a todo o resto: a Nord Wealth nunca fez uma única alocação em NTN-B com esse prazo. Nenhuma. Cada uma dessas posições entrou na carteira antes de o cliente chegar até nós, recomendada pelo responsável anterior pela gestão financeira.
Quando o mesmo ativo aparece em um quarto das carteiras que você recebe, e nenhuma delas veio de você, isso deixa de ser coincidência.
O mais desconfortável é o que está do outro lado. Não é COE, não é fundo fechado, não é previdência com taxa de carregamento. É um título público federal, o ativo de menor risco de crédito do país.
O papel nunca foi o problema. O problema é o prazo, e quem escolheu o prazo por você.
Por que a NTN-B longa paga mais comissão
Por que quase ninguém oferece uma NTN-B 2032, mas todo mundo oferece 2050, 2055 e 2060?
Um título comprado pelo Tesouro Direto não remunera quem indicou: não gera comissão, não gera rebate, não entra na meta do mês; o preço é público, a taxa é divulgada e a liquidez é garantida pelo próprio Tesouro.
O mesmo papel comprado na mesa de tesouraria de um banco ou de uma corretora funciona de outro jeito: a instituição compra a uma taxa e repassa ao cliente uma taxa menor. Essa diferença é o spread, e é ela que remunera a operação.
O spread não aparece no extrato; ele não é uma taxa cobrada de você, e sim uma taxa que deixou de ser paga a você. Por isso, passa despercebido.
Agora a parte que muda tudo: o valor desse spread cresce com o prazo do título.
Se a mesa embute 0,30 ponto percentual em um papel de 2029, ganha cerca de 0,8% do valor aplicado. O mesmo 0,30 ponto percentual em um papel de 2060 vale cerca de 10%. É 10% de uma vez, no dia da aplicação, porque a diferença de taxa é capitalizada por mais de trinta anos e trazida a valor presente naquele instante.

Em dinheiro: R$ 500 mil em uma NTN-B 2029 geram algo perto de R$ 4 mil para a cadeia de distribuição. Os mesmos R$ 500 mil em uma 2060 geram cerca de R$ 50 mil. Mesmo cliente, mesmo emissor, mesmo risco de crédito, mesma assinatura, mesmo dia, mas com uma receita cerca de doze vezes maior.
Para dimensionar: 10% recebidos de uma vez equivalem, a grosso modo, a dez anos de um fee de 1% ao ano, só que integralmente na largada, sem nenhuma obrigação de acompanhar a carteira depois.
Lógico que a dinâmica de spreads varia de instituição para instituição, mas é sempre importante validar antes de realizar uma aplicação.

Como a NTN-B longa prejudicou o retorno das carteiras
O efeito na carteira foi muito além da comissão.

Cinco anos, três negativos, dois deles de dois dígitos. No acumulado do período, R$ 1 milhão aplicado no papel virou cerca de R$ 826 mil. O mesmo valor no CDI chegou perto de R$ 1,68 milhão.
É justo lembrar que quem carrega até o vencimento recebe o IPCA mais a taxa contratada, e a oscilação do meio do caminho acaba passando. O problema é que quase ninguém carrega até lá. O papel foi parar na parcela que a família precisaria acessar em três, cinco, oito anos, e aí a oscilação vira prejuízo realizado.
Quanto mais longo o título, mais violenta é a reação do preço a qualquer variação na taxa real. Uma abertura de 1 ponto percentual, coisa que o Brasil entrega em poucas semanas de estresse fiscal ou eleitoral, tira algo em torno de 2,7% do preço de um papel de 2029 e perto de 27% de um papel de 2060.
É a mesma matemática das duas seções: o prazo multiplica o ganho de quem vende e multiplica o risco de quem compra.
Marcação na curva: por que o extrato pode esconder a perda real
Existe uma segunda camada do conflito.
Boa parte desses investidores olha a posição no extrato e não vê perda nenhuma. Vê um número que só sobe, mês após mês. É a marcação na curva: o título aparece pela taxa contratada, como se o preço de mercado não existisse.
Desde janeiro de 2023, a Anbima obriga os distribuidores a divulgar o valor de mercado dos títulos públicos comprados fora do Tesouro Direto. Só que o investidor qualificado, justamente o perfil que carrega essas posições, pode optar por permanecer na curva. E muitos extratos seguem exibindo o número da curva em primeiro plano.
O resultado é um investidor convencido de que tem um ativo tranquilo, rendendo IPCA mais alguma coisa, e que só descobre o tamanho real da posição no dia em que pede uma cotação de venda.
Um conflito remunera a venda e o outro adia a descoberta. Juntos, sustentam a posição na carteira por anos, machucando a performance aos poucos.
Abra o seu extrato
Este texto não é uma recomendação de venda. É um convite para você fazer quatro perguntas sobre a sua própria carteira, hoje:
● Você tem algum título com vencimento depois de 2045? Se tem, ele foi comprado pelo Tesouro Direto ou pela mesa?
● Qual foi a taxa da operação e qual era a taxa daquele mesmo vencimento no dia da compra? A diferença é o que você pagou.
● Qual é o valor marcado a mercado, não o da curva? Se o extrato só mostra a curva, peça a cotação de venda.
● Em que ano você vai precisar desse dinheiro? Se a resposta não for "depois de 2045", o prazo não foi escolhido por você.
Como funciona o modelo fee-based da Nord Wealth
Na Nord Wealth, atuamos no modelo fee-based, sem comissionamento de produto: um título de 2029 e um de 2060 não mudam nada para nós — o que importa é a avaliação genuína do que mais vale a pena frente aos objetivos do cliente e ao momento do mercado.
Foi por isso que esse papel nunca apareceu nas nossas recomendações e é por isso que, quando ele chega com o cliente, o trabalho é sempre o mesmo: mapear, medir e ajustar, se necessário.
Fica a lição de casa: faça as quatro perguntas acima para quem cuida do seu dinheiro hoje. Se alguma das respostas demorar, você já encontrou o que estava procurando.
Se preferir, fazemos esse raio-x com você: olhamos os títulos que estão na sua carteira, comparamos a taxa contratada com a taxa de mercado no dia da operação e mostramos, em números, o que o prazo está custando.
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