Maior alta do Ibovespa desde 2020: o mercado já precificou o segundo turno?
O Ibovespa saltou 7,7% na segunda-feira (5/10), e os juros tiveram a 2ª maior queda desde 2005. Veja o que já está no preço antes do segundo turno
Na segunda-feira, 5 de outubro, o dia seguinte ao primeiro turno, bastou olhar a tela para achar que algo estava errado.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. São cerca de 2 milhões de votos de diferença e uma eleição ainda aberta, com segundo turno marcado para 25 de outubro. Mesmo assim, o mercado reagiu como se a eleição tivesse terminado.
Ibovespa fecha acima de 200 mil pontos pela primeira vez
O Ibovespa subiu 7,70% e fechou a 206.912 pontos. Foi a primeira vez acima de 200 mil, e na máxima do dia o índice chegou a 209,6 mil. Foi a maior alta diária desde 24 de março de 2020.
Para entender o tamanho disso, veja quando a Bolsa brasileira subiu tanto em um único dia:
| Data | Alta | O que estava acontecendo |
| 15/01/1999 | +33% | Fim do câmbio fixo, após semanas de pânico |
| 13/10/2008 | +14,66% | Socorro global após a quebra do Lehman |
| 13/03/2020 | +13,91% | Repique no meio do crash da Covid |
| 24/03/2020 | +9,69% | Pacote de US$ 2 trilhões nos EUA |
| 05/10/2026 | +7,70% | Primeiro turno de uma eleição |
Por que a maior alta do Ibovespa desde 2020 é diferente das outras
Todas as grandes altas da história têm algo em comum: aconteceram em crises, depois de quedas brutais, quando a Bolsa estava no chão e um alívio repentino provocava um repique violento.
Desta vez, foi o contrário. A Bolsa subiu quase 8%, saindo da máxima histórica, sem crise, sem pânico e sem tombo anterior. A euforia veio do nada para cima.
As comparações com eleições anteriores mostram o mesmo exagero. Em 2018, a Bolsa subiu cerca de 4,6% no dia seguinte ao primeiro turno e, em 2022, cerca de 5,5%. Agora foram 7,7%.
O volume do EWZ, o ETF de Brasil em Nova York, bateu recorde: 191 milhões de cotas, acima até do Joesley Day, em 2017. O dólar caiu 4,12%, a maior queda desde 2018, e terminou em R$ 5.

Juros futuros e Tesouro Direto: a segunda maior queda diária desde 2005
Na renda fixa, o movimento foi ainda mais raro.
O DI para janeiro de 2031, que representa o juro prefixado de cerca de 5 anos, foi de 13,99% para algo perto de 12,65%. Foram cerca de 135 pontos-base em um único pregão. O DI de 2035 caiu 133 pontos-base, para 12,80%.
No Tesouro Direto, o Prefixado 2032 caiu 120 pontos-base, de 14,15% para 12,95%. Segundo levantamento do InfoMoney, foi a segunda maior queda diária desde o início do programa, em 2005. Só perde para 2 de dezembro de 2008, em plena crise financeira global. O IPCA+ 2050 foi de 7,06% para 6,32%.
Pense nisso: o único dia com queda maior nos juros prefixados em duas décadas foi quando os bancos centrais do mundo inteiro estavam cortando juros às pressas para evitar uma depressão. Desta vez, o gatilho foi uma apuração de votos.
O que o mercado já precificou antes do segundo turno?
Em um dia, o mercado precificou a vitória de Flávio, a promessa de ajuste fiscal e um ciclo mais longo de cortes da Selic. A curva também voltou para baixo de 13%, nível que não se via desde outubro de 2024.
O problema é que nada disso aconteceu ainda. A eleição não acabou: falta o segundo turno. E se Flávio vencer, ainda existe uma distância entre a promessa e a entrega.
Quantos votos Lula precisa da terceira via para vencer o segundo turno?
Se você aplicar as estimativas de transferência de votos da terceira via aos dois candidatos, Flávio aparece à frente com uma boa margem.
Para Lula vencer, ele teria que receber mais de 60% da transferência, o que é improvável. Ou teríamos que ver uma mudança grande na abstenção, o que também é pouco provável considerando o histórico.
Mesmo assim, sigo atenta e ainda com um pé atrás. Sabemos que a campanha acaba sendo sangrenta, e nunca podemos subestimar o poder de uma notícia ruim.
O risco de comprar a Bolsa depois do rali
O cuidado a se tomar é que, quando o preço sobe tanto antes do fato, o risco muda de lado. Quem comprou antes ganhou muito. Para quem compra agora, uma parte do cenário otimista já está no preço, enquanto qualquer surpresa negativa ainda não está.
Será que o mercado esqueceu que ainda tem o segundo turno? Ou será que o mercado já está precificando a probabilidade baixa de transferência de votos para o Lula, um congresso de direita que facilite a aprovação das reformas e a possibilidade de um rali muito maior?
Difícil dizer. Mas eu sigo preferindo ficar com o risco baixo até lá, aguardando a decisão final e me posicionando para um possível rali depois.
Como saber se a sua carteira está preparada para o segundo turno
Depois de um dia como 5 de outubro, a pergunta que importa já não é quem vai ganhar, e sim quanto da sua carteira depende disso. Bolsa, juros prefixados, dólar e títulos longos reagem de forma diferente a cada cenário, e muita gente só descobre a exposição que tem quando o mercado se mexe.
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