Linde, odisseia de 101 anos: a história da maior empresa de gases industriais do mundo

Em 1917, os EUA confiscaram a subsidiária americana de uma empresa alemã. 101 anos depois, as duas metades se reencontraram. Essa é a história da Linde

Henrique Vasconcellos 23/08/2026 08:10 9 min
Linde, odisseia de 101 anos: a história da maior empresa de gases industriais do mundo

Em 1917, os EUA confiscaram a subsidiária americana de uma empresa alemã de engenharia. Décadas depois, esse braço virou a Praxair. Só que ninguém plantou essa história pensando em roteiro de cinema. Ela simplesmente aconteceu, ao longo de mais de um século, dos dois lados do Atlântico.

Essa é a história da Linde: como duas metades da mesma empresa, separadas pela guerra, prosperaram sozinhas por 101 anos até se reencontrarem em uma fusão, e como o modelo de negócio por trás de gases industriais (sim, o ar que você respira em forma de produto) virou uma máquina silenciosa de compor valor.

Odisseia Industrial

Isso aqui é um roteiro de cinema digno de uma produção de Christopher Nolan: dois “irmãos” separados pela guerra se reencontram 101 anos depois. Esse não é um script que roubei de algum escritor enquanto estive em Los Angeles; é um resumo “livre” da história da Linde. 

A Linde nasceu na Alemanha, no final do século XIX, a partir do trabalho de Carl von Linde com a refrigeração e separação de gases. Uma clássica empresa de engenharia alemã: ciência, indústria pesada e uma solução invisível aos nossos olhos. Para a época, a empresa prosperou. 

No começo do século XX, a companhia abriu uma sede nos Estados Unidos para ampliar ainda mais seus negócios internacionalmente. No entanto, veio a Primeira Guerra Mundial. 

Em 1917, os EUA se apropriaram da subsidiária americana da empresa por ser propriedade de uma nação inimiga. Esse braço da Linde acabou sendo integrado à Union Carbide e, décadas depois, passou por um spin-off (separou-se da Union Carbide) como um braço independente chamado Praxair. 

Ou seja, Praxair era Linde

A partir disso, temos quase uma odisseia industrial. De um lado, a Linde alemã, com sua tradição e cultura de engenharia e complexidade. Do outro, a Praxair americana, com a cultura de eficiência, disciplina e gestão de capital. 

Duas empresas com a mesma origem, separadas pela geopolítica, crescendo por mais de um século como irmãs distantes e, ao mesmo tempo, concorrentes.

O reencontro aconteceu em 2018.

Após 101 anos separadas, Linde e Praxair concluíram a fusão de seus negócios e formaram a maior empresa de gases industriais do mundo. Uma companhia que combinava a tecnologia e engenharia da Linde com o modelo operacional de eficiência da Praxair.

Meme com a legenda 'Absolute Cinema'
 Fonte: Tenor Gifs, Nord

Roteiro digno de um Oscar? Não sei. Não sou um grande entusiasta culto de cinema. Mas essa história diz muito sobre a empresa. 

Mais de um século após a separação, ambas as metades continuavam entre as companhias mais relevantes do mesmo setor. Indústrias que atravessaram guerras, ciclos econômicos, mudanças tecnológicas e consolidação setorial antes de se reencontrarem no topo desse mercado. 

À prova do tempo. Isso por si só já diz muito sobre a qualidade da empresa. Mas, afinal, por que esse negócio prosperou em dois cantos do mundo completamente diferentes e separadamente?

O que a Linde vende: gases industriais essenciais

Tabela com os produtos e fontes de gases industriais da Linde
 Overview dos produtos e serviços da Linde. Fonte: Linde

A Linde vende gases industriais. Estamos falando de oxigênio, nitrogênio, argônio, hidrogênio, dióxido de carbono, hélio e gases raros. Produtos que quase ninguém vê, mas que aparecem em hospitais, alimentos, bebidas, semicondutores, químicos, energia, manufatura, siderurgia, mineração, entre outros.

O hospital precisa de oxigênio. A indústria de bebidas usa CO₂. Fábricas de chips usam nitrogênio, hidrogênio e gases raros. Siderúrgicas usam oxigênio e argônio. Empresas químicas e de energia usam hidrogênio e monóxido de carbono. 

A Linde está no meio dessa cadeia logística, fornecendo insumos sem os quais muitos processos simplesmente não acontecem.

Essenciais, mas pouco representativos. Isso já dá algumas pistas sobre por que o negócio é bom. 

Para o cliente, o gás costuma ser uma parcela pequena do custo total. Mas a falta dele pode parar uma linha de produção, atrasar uma fábrica, interromper um processo crítico ou comprometer um hospital. Ou seja, é um insumo barato o suficiente para não ser o centro da discussão de custo, mas importante demais para ser tratado como qualquer commodity. 

A forma de entrega muda conforme o porte da operação atendida. Nos maiores contratos, a Linde constrói plantas dentro ou ao lado da instalação do cliente e entrega o gás por pipeline. São contratos longos, normalmente de 15 a 20 anos, com cláusulas de take-or-pay e repasse de custos. 

Para clientes médios, a entrega acontece por caminhões-tanque. Para clientes menores, em cilindros e embalagens menores.

É um negócio simples, fácil de entender. Ainda assim, crítico para o cliente. E, quando um produto é essencial, com logística complexa e, ao mesmo tempo, não tão custoso, começamos a ter o que explica a Linde ser um grande negócio. 

O modelo de negócio da Linde: densidade de rede e vantagem competitiva 

Para além da importância dos seus produtos e serviços, a arquitetura do negócio é o que faz dela uma ótima empresa e também o que explica a longevidade de ambas as partes, mesmo quando separadas. 

Gases industriais são difíceis e custosos de transportar por longas distâncias. Por isso, o setor funciona como uma coleção de mercados locais e não como um grande centro único global. 

A Linde constrói plantas on-site ou muito próximas de grandes clientes que possuam contratos de longo prazo. A partir desse polo, ela também abastece os clientes menores da região. 

Quanto mais clientes dentro do raio de alcance, melhor a utilização dos ativos e maior a eficiência econômica do negócio.

Mapa-múndi com as plantas e a densidade de rede da Linde
 Cadeia de suprimentos da Linde ao redor do mundo. Fonte: Linde

É aqui que entra a tal densidade de rede: quanto mais empresas dividem a mesma infraestrutura, mais o investimento se paga, diluindo custos e aumentando o retorno do capital investido.

Isso cria uma vantagem competitiva difícil de replicar. 

Um novo concorrente precisa investir muito capital antes de ter clientes suficientes para justificar sua estrutura. Mesmo oferecendo preços menores, a proposta não necessariamente é óbvia para os compradores. 

Gases industriais são, na maior parte dos casos, um custo pequeno dentro do todo. Mas uma falha no fornecimento pode ser muito mais cara do que a economia de custo. 

Isso gera uma combinação de características muito boa: contratos longos, clientes recorrentes, baixa disposição para troca, repasse de custos e um poder de precificação relevante. 

Nos contratos on-site, a Linde possui acordos de 15 a 20 anos, com take-or-pay, retorno garantido e repasse de custos. No merchant e no packaged, apesar de diferentes, também reforçam a densidade da rede, distribuição e a utilização dos ativos.

Por conta dessa estrutura econômica, o crescimento da Linde não depende apenas de aumentar volume. A empresa cresce com novos projetos, aumento de preços, produtividade, eficiência logística e também retorna capital aos acionistas por meio de recompras e dividendos.  

Somando esses pontos ao longo de anos, vira uma bela máquina de compor valor.

Linde: crescimento de receita, lucro e dividendos

A Linde chama mais atenção no qualitativo do que no crescimento. Não estamos falando de uma companhia que dobra de tamanho a cada poucos anos, nem de uma tese de disrupção. 

A empresa tem quase 150 anos de história, atua em mercados industriais, depende em alguma medida do ciclo econômico e vende produtos que já parecem maduros.

Gráfico do crescimento de receita e lucro da Linde desde o IPO
 Crescimento de resultados desde o IPO. Fonte: Linde

É justamente por isso que os números são bons. De 1993 a 2025, a Linde/Praxair cresceu em vendas a 9% ao ano, em lucro por ação (EPS) a 11%, em fluxo de caixa operacional a 11% e em dividendos a 13% ao ano. No mesmo período, o EPS da companhia cresceu acima do S&P 500 e dos principais competidores do setor. 

Para uma empresa industrial madura, esse histórico é bastante impressionante.

Gráfico de barras com receita e lucro líquido da Linde nos últimos 10 anos
 Receitas e lucro líquido dos últimos 10 anos. Fonte: Nord

Nos últimos dez anos, a dinâmica foi parecida. A receita cresceu, mas sem nada muito explosivo. O CAGR de receita em nove anos foi de 13,9%, ajudado pela fusão com a Praxair, enquanto nos últimos cinco anos ficou em 4,5%. 

Ou seja, olhando apenas para o topline recente, a Linde não é uma empresa de crescimento acelerado.

No entanto, o lucro conta uma história melhor

Nos últimos cinco anos, o lucro líquido cresceu a 22,5% ao ano. Em nove anos, o CAGR foi de 18,5%. Isso mostra bem a natureza do negócio. 

A Linde não precisa que a receita cresça em ritmo absurdo para gerar valor. A empresa expande margem, melhora eficiência, escolhe melhor os projetos, repassa preços, recompra ações e transforma crescimento moderado de receitas em crescimento de lucro bem mais relevante.

Esse é provavelmente o ponto mais importante dos números recentes. A Linde não é uma tese de crescimento. É uma tese de qualidade operacional. 

Em um negócio industrial, maduro e dependente da economia real, conseguir crescer em lucro muito acima da receita por tantos anos é um sinal de boa execução, disciplina e poder de precificação.

A volta para Ítaca

A história da Linde é boa demais para ser tratada apenas como uma fusão corporativa. Uma empresa alemã cria uma operação americana, perde esse braço por causa de uma guerra, vê essa operação crescer sozinha por mais de um século e, 101 anos depois, as duas partes se reencontram para formar a maior companhia de gases industriais do mundo.

Parece roteiro de cinema. Mas o mais importante é que essa história só funciona porque o negócio era bom dos dois lados.

O modelo econômico do negócio é muito sólido e fortalece a posição de liderança da empresa. Seus produtos são essenciais, mas não oneram os clientes de forma muito custosa a ponto de buscarem reposicionamento de fornecedores. Os contratos longos ajudam a dar visibilidade para a companhia navegar e alocar capital de forma eficiente. 

Os números mostram isso. Não é uma startup que dobra de tamanho todo ano, e sim uma indústria com quase 150 anos

A Linde é uma compounder industrial. Daquelas que não precisam de uma grande ruptura tecnológica, nem de um mercado novo nascendo do zero, para criar valor. Ela melhora aos poucos, ano após ano, projeto após projeto, contrato após contrato. 

Talvez, como filme, faria menos sucesso do que como empresa. O quórum para assistir reuniria, com sorte, a meia dúzia dos últimos value investors do mercado. Mas, se um dia virasse, o final faria sentido. Irmãos separados pela guerra, reencontrando-se 101 anos depois.

Veja a Nord com mais frequência no Google

Publicamos análises todos os dias para te ajudar a investir melhor — marcar como favorita aumenta as chances dos nossos conteúdos chegarem até você.

Favoritar no Google
Tópicos Relacionados
Compartilhar

Receba conteúdos e recomendações de investimento gratuitamente

Obrigado pelo seu cadastro!

Acompanhe nossos conteúdos por e-mail para ficar por dentro das novidades.