O custo do dinheiro no mundo está subindo de novo e sua carteira precisa se preparar
O petróleo voltou a US$ 90, o Fed pode voltar a subir juros e o déficit americano cresce. Entenda por que isso pressiona toda a economia e como proteger sua carteira
O petróleo voltou a US$ 90 o barril, o Fed pode voltar a subir juros e o déficit fiscal americano segue crescendo. Juntos, esses sinais apontam para o mesmo lugar: o custo do dinheiro no mundo está subindo de novo e isso muda o que faz sentido ter na carteira.
A lição de setembro de 2008
Antes de entrar nos números, vale contar uma história.
Era setembro de 2008. Eu trabalhava no Itaú e me lembro com precisão do momento em que um diretor veio sentar ao meu lado com uma expressão que eu nunca tinha visto nele.
Perplexa. Quase incrédula. A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos acabava de rejeitar o pacote de socorro ao sistema financeiro, o TARP, na primeira votação. O Dow Jones caiu 777 pontos naquele dia, a maior queda em pontos da história até então. Ele olhou para a tela, virou para mim e disse: “Isso não deveria estar acontecendo.”
O mercado tinha pregado uma peça. Naquele momento, com Lehman Brothers recém-falido, crédito congelado e bolsas no mundo todo em queda livre, a sensação era de que aquilo nunca ia melhorar e que algo tinha quebrado de forma irreparável.
Dois anos depois, os mercados tinham se recuperado completamente. Quem vendeu no fundo, com medo de que o mundo não voltasse ao normal, perdeu um dos maiores ralis da história.
Conto essa história porque o mercado vive de criar essa sensação, nos dois sentidos: a de que tudo vai continuar subindo para sempre e a de que, desta vez, é diferente e nada vai melhorar. As duas estão quase sempre erradas, mas isso não significa que devemos ignorar os sinais quando eles aparecem. E os sinais que aparecem agora merecem atenção.
(Cenário descrito com base em informações de 23 de julho de 2026 — dado o caráter geopolítico e de mercado em tempo real deste conteúdo, alguns números podem mudar rapidamente.)

O petróleo voltou para US$ 90 e o Estreito de Ormuz está no centro do jogo
Depois de um breve alívio com notícias de cessar-fogo, a guerra entre Estados Unidos e Irã voltou a escalar esta semana.
São dez noites consecutivas de ataques americanos ao território iraniano, com o Irã respondendo com ataques a bases americanas na região.
O resultado imediato foi o barril de Brent ultrapassando US$ 92, o nível mais alto desde junho, com o mercado precificando o risco de interrupção do fornecimento pelo Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no mundo.
Quando o Estreito de Ormuz fica sob ameaça, o preço do petróleo sobe porque o mercado precifica não o que está acontecendo hoje, mas o que pode acontecer amanhã. E “amanhã”, neste contexto, pode significar um choque de oferta que o mundo não vê desde os anos 1970.
Para a economia global, um petróleo acima de US$ 90 por barril não é neutro. Energia é insumo de tudo. Ela entra no custo do transporte, da produção industrial, da agricultura e da geração de eletricidade.
Quando o petróleo sobe, a inflação de energia sobe primeiro, mas a inflação de serviços e alimentos costuma seguir com alguma defasagem. É exatamente esse mecanismo que os bancos centrais de todo o mundo mais temem em um momento como o atual, em que a inflação ainda não voltou às metas e a confiança nas expectativas ainda está frágil.
O Fed que ia cortar juros agora pode ter que subir
Há poucas semanas, quando o CPI de junho dos Estados Unidos veio abaixo do esperado, o mercado respirou aliviado.
A inflação americana parecia estar cedendo, o Fed tinha espaço para manter os juros estáveis e, talvez, até iniciar cortes ainda em 2026. A narrativa de “higher for longer” que havia dominado 2024 e 2025 parecia estar finalmente cedendo.
A volta do petróleo para US$ 90 muda esse cálculo.
O próprio Fed já havia alertado, nas atas das reuniões recentes, que “quase todos os participantes” viam risco de uma guerra prolongada manter os preços do petróleo e de outras commodities elevados por mais tempo, com impacto direto sobre a trajetória da inflação.
Com o Brent acima de US$ 90, esse risco deixou de ser hipotético. A probabilidade de que o Fed precise subir os juros em dezembro de 2026 voltou a crescer de forma expressiva, com analistas precificando um cenário que, há um mês, parecia improvável: uma nova rodada de aperto monetário nos Estados Unidos.
Aqui está o ponto que mais me preocupa: o Fed não tem margem de manobra confortável.
Se subir os juros para combater a inflação do petróleo, aumenta ainda mais o custo de carregamento de uma dívida pública que já consome US$ 1 trilhão por ano só em juros. Se não subir, corre o risco de deixar as expectativas de inflação se desancorarem em um momento em que a credibilidade do banco central americano já foi testada.
O déficit fiscal dos EUA: por que a guerra piora um problema que já existia
A situação fiscal dos Estados Unidos já era ruim antes da guerra. O déficit orçamentário americano deve atingir US$ 1,9 trilhão no ano fiscal de 2026, o equivalente a 5,8% do PIB, em um momento de paz relativa e sem nenhuma recessão em vista.
A dívida total chegou a US$ 39,2 trilhões, superando o PIB anual do país. Os juros pagos sobre essa dívida consumirão US$ 1 trilhão só em 2026 e devem chegar a US$ 1,8 trilhão até 2035, segundo o próprio Escritório de Orçamento do Congresso americano.
A guerra adiciona pressão sobre uma conta que já estava estressada. Gastos militares crescentes, apoio logístico às operações no Oriente Médio, aliados que precisam de suporte, reservas estratégicas que precisam ser recompostas. Nada disso é gratuito.
Ao mesmo tempo, o governo Trump aprovou cortes de impostos que, segundo a Fitch, devem levar o déficit para 7,9% do PIB nos próximos anos, apesar das receitas adicionais esperadas com tarifas. A agência já alertou para o “peso elevado da dívida dos EUA” em comparação com países que têm a mesma nota de crédito.
Para financiar esse déficit crescente, o Tesouro americano precisa emitir volumes cada vez maiores de títulos. Mais oferta de títulos, com a mesma demanda, significa preços mais baixos e juros mais altos.
O Treasury de dez anos, que é o principal benchmark de juros longos do mundo, chegou a 4,69% ao ano em maio de 2026. Se a pressão fiscal continuar e a inflação do petróleo voltar, esse nível pode subir ainda mais.
Por que juros longos americanos mais altos prejudicam tudo
O Treasury de dez anos não é um número abstrato. Ele é o custo do dinheiro no mundo.
Quando ele sobe, todas as outras taxas de juros ao redor do planeta sobem junto, porque qualquer investimento em qualquer país precisa oferecer um retorno que justifique o risco em relação ao ativo mais seguro do mundo, que é justamente o título do governo americano.
Para os ativos de risco, a matemática é direta e brutal. Ações valem o desconto de fluxos de caixa futuros: quando a taxa de desconto sobe, os múltiplos caem.
Uma ação que valia 20 vezes o lucro com juro de 4% pode valer 15 vezes o lucro com juro de 5%. Não porque a empresa ficou pior, mas porque o dinheiro ficou mais caro.
O mesmo raciocínio se aplica a imóveis, fundos imobiliários, crédito privado e qualquer ativo que precise de financiamento para existir ou crescer.
Para o Brasil especificamente, o impacto é duplo.
O custo do dinheiro mais alto no exterior dificulta o fluxo de capital para mercados emergentes, porque o investidor estrangeiro passa a exigir um prêmio ainda maior para vir ao Brasil.
Isso pressiona o câmbio, que pressiona a inflação importada, que pressiona o Banco Central a manter a Selic alta por mais tempo. É o canal de transmissão externo, e ele funciona com uma consistência incômoda.
Como proteger a carteira no atual cenário
Volto à história do Itaú. Naquele setembro de 2008, a tentação era vender tudo e esperar o mundo se resolver. Quem fez isso perdeu a recuperação. Mas quem estava totalmente exposto a ativos de risco, sem diversificação, também sofreu muito no caminho entre o pico e o fundo.
O cenário atual não é 2008. Não estamos diante de um colapso do sistema financeiro global. Mas estamos diante de uma combinação de fatores, como petróleo subindo, Fed podendo voltar a apertar, fiscal americano se deteriorando e juros longos em alta, que, historicamente, comprime os ativos de risco e premia quem tem proteção na carteira.
Em termos práticos, isso reforça o argumento que venho fazendo há meses: agora não é a hora de ser herói e aumentar o risco da carteira priorizando o retorno.
A parcela de risco, que faz sentido no longo prazo, precisa ser proporcional à capacidade de atravessar um período de volatilidade sem precisar vender no pior momento. Diversificação geográfica, com parte do patrimônio fora do Brasil e fora do real, continua sendo a proteção mais simples e mais eficaz para um cenário como o que se desenha.
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