Fed mantém juros, mas dois votos por alta mostram que o aperto não acabou
Tom neutro de Kevin Warsh, inflação acima da meta e petróleo a US$ 115 mantêm uma alta em dezembro como cenário mais provável
O Federal Reserve manteve os juros na faixa de 3,75% a 4,00%, conforme amplamente esperado. A curva já precificava a manutenção, então a decisão em si não trouxe surpresa.
O recado veio no placar. Dos 12 membros votantes, 2 (Lisa Cook e Beth Hammack) votaram por uma alta de 0,25 p.p. já nesta reunião. Ou seja, parte do comitê já não vê motivo para esperar.
O comunicado, curto e direto, reforçou três mensagens:
- Atividade forte: o Fed descreve a economia "em expansão em ritmo forte", com consumo doméstico resiliente, produtividade forte e investimento robusto.
- Inflação elevada: sem rodeios, o comitê afirma que a inflação "continua elevada".
- Compromisso com a meta: o texto termina com "o Comitê vai entregar estabilidade de preços". Não há meta alternativa: o alvo segue sendo 2%.
Na coletiva, Warsh afirmou que o Fed já demonstrou disposição para agir, que não há conclusões sobre os próximos passos da política monetária e que não há como ignorar a recente alta do petróleo. Na nossa leitura, a linguagem foi neutra, nem dovish nem hawkish, deixando a porta aberta para novas altas conforme os dados.
Por que os juros devem seguir altos por mais tempo
As leituras mais recentes de inflação não trouxeram grandes preocupações na margem. No PCE de agosto, o núcleo subiu +0,25%, com pressão concentrada em serviços de telefonia (fator temporário), enquanto habitação desacelerou.
O desafio está no patamar: no acumulado em 12 meses, o núcleo do PCE está em +3% e o núcleo do CPI em +2,56%, ambos acima da meta de 2%.

Soma-se a isso o petróleo. Após alívios nos meses anteriores, a continuidade da guerra levou o barril para cerca de US$ 115, e os combustíveis já haviam subido +9,32% no CPI de setembro, levando a inflação cheia a +3,74% em 12 meses. É um risco de curto prazo que o próprio Warsh fez questão de citar.
Do outro lado do mandato duplo, o emprego está cumprido. O desemprego está em 4,2%, entre os menores da série histórica e compatível com pleno emprego, e o PIB do 2º trimestre foi revisado de +1,5% para +2,2%, com as vendas finais a compradores domésticos privados crescendo +4,6%.

Com a atividade resiliente e o emprego no lugar, o foco do Fed é a inflação. E, no início do mandato de Warsh, manter os juros elevados por mais tempo também é uma questão de credibilidade.

Reação do mercado e o que está precificado
O mercado leu o tom de Warsh como levemente mais dovish. O juro de 2 anos, que rodava perto de 4,78% antes da coletiva, recuou para cerca de 4,72% durante a fala e fechou o dia com queda de 2 pontos-base. O de 5 anos subiu 5 pontos-base.
Na parte curta da curva, onde a política monetária tem maior efeito, os juros ficaram praticamente de lado.
A curva segue apontando para mais aperto. O mercado precifica 85% de chance de alta de 0,25 p.p. em dezembro e cerca de 31% de chance de duas altas até janeiro. Até a reunião de março, o mercado coloca maior probabilidade para duas altas (49%), que levariam os juros para 4,25% a 4,50%, seguido de uma alta (27%) e três altas (20%).

O que a Nord espera do Fed: alta de juros em dezembro
O Fed pausou, não encerrou o ciclo. Com dois votos por alta já nesta reunião, inflação estrutural acima da meta e o petróleo como risco adicional, devemos ver uma alta em dezembro.
O debate do mercado hoje é se teremos mais uma ou duas altas.
Onde acompanhar os juros americanos?
A taxa básica de juros dos Estados Unidos (Fed Funds Rate) não é um número único, mas um intervalo — definido por um limite superior e um limite inferior. A partir desse intervalo, calcula-se a taxa efetiva (Effective Federal Funds Rate), que é uma mediana ponderada pelo volume das transações realizadas entre bancos.
Como consultar o histórico dessas taxas:
Como funciona o banco central dos Estados Unidos?
O Federal Reserve possui um mandato duplo, o que significa que o seu compromisso é alcançar a meta de inflação e, ao mesmo tempo, promover o pleno emprego. Ou seja, há um compromisso não só com a inflação, mas também com o nível da atividade econômica.
O Fed é dividido em três órgãos diferentes:
- O órgão do Conselho dos Governadores (os dirigentes) é composto por 7 membros que são nomeados pelo presidente da república, com o presidente do Fed sendo um desses membros. A tarefa é regular o sistema do Fed.
- Outro órgão é o Federal Reserve Banks, composto por 12 bancos regionais do Fed, com cada um atendendo uma região geográfica específica. A tarefa é supervisionar os bancos comerciais de cada região, prover serviços financeiros e levantar dados que podem contribuir para a decisão de política monetária (como dados para o livro bege).
- Já o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), com a tarefa de tomar as decisões de política monetária, é composto por 19 membros, sendo 7 governadores do Fed e os presidentes de cada um dos 12 bancos centrais regionais. Apenas 7 governadores e 5 presidentes (dos 12) participam das votações das decisões de política monetária (com o presidente do Banco Central de Nova Iorque tendo mandato fixo nas votações, ou seja, sempre vota).
Quando sai a decisão do Fed?
Em intervalos de aproximadamente 45 dias.
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