Fed eleva juros pela 1ª vez desde 2023 e mais altas estão por vir
Tom duro de Kevin Warsh e revisões nas projeções dos membros do Fed apontam para pelo menos mais uma alta de juros
Enfim, os EUA subiram juros. A decisão unânime do Federal Reserve foi de elevar os juros em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano.
Apesar do título chamativo desse texto, esse movimento não é nenhuma surpresa para a Nord. Para quem acompanha as nossas análises, já falávamos que o Fed iria subir juros, com uma ou duas altas neste ano. Mas, agora, não podemos descartar nem três altas.
Kevin Warsh adota tom duro contra a inflação
Em sua entrevista coletiva pós-decisão, Kevin Warsh, presidente do Fed, adotou uma postura mais dura contra a inflação, em linha com o seu objetivo de reforçar a sua credibilidade nesse início de mandato.
Warsh destacou que o foco predominante do Fed é a estabilidade de preços, ou seja, em levar a inflação para a meta de 2%.
Para se ter uma ideia, o núcleo do PCE acumulado em 12 meses na última divulgação ainda mostra uma alta de +3,3%; ou seja, apesar de os últimos dados não estarem mostrando grandes preocupações, ainda há o desafio para levar essa inflação para a meta, o que justifica a postura dura de Warsh.
Warsh também destacou que esse indicador está muito alto há muito tempo, que diversas categorias de preços avançam mais de 3% e que os riscos inflacionários seguem inclinados para cima.
Vamos lembrar que o Fed tem mandato duplo, não só na inflação: estabilidade de preços (meta de 2%) e máximo emprego.
Quando olhamos para a inflação, vemos o desafio de fazê-la convergir para a meta. Quando olhamos para o mercado de trabalho, vemos uma economia em pleno emprego, com desemprego atual em apenas 4,1%, entre os menores da série histórica.
Warsh destacou esse ambiente de empregos, afirmando que os riscos do mercado de trabalho estão equilibrados. Além disso, afirmou que os dados apontam para fortalecimento da economia.
O que ele quis dizer, portanto, foi: a atividade e o mercado de trabalho estão saudáveis, mas não a inflação. Portanto, vou pesar a mão na política monetária.
Projeções do Fed apontam para mais altas de juros
Para reforçar todas essas afirmações do Fed, trimestralmente a autoridade monetária divulga as projeções dos membros do comitê. Como mostramos abaixo, houve revisão para cima das projeções de inflação, revisão para baixo para o desemprego e, consequentemente, revisão para cima nas projeções para juros.
As projeções para a taxa de juros foram revisadas para cima:
- Para 2026: de 3,8% para 4,1%.
- Para 2027: de 3,6% para 4,1%.
- Para 2028: de 3,4% para 3,9%.
De acordo com o gráfico de pontos, 12 membros (de um total de 18) projetam mais uma alta de juros neste ano, enquanto quatro membros projetam mais duas altas.
Isso não significa que esses movimentos necessariamente acontecerão, mas as projeções mostram que não podemos descartar altas de juros nas próximas duas reuniões (outubro e dezembro), que levariam a taxa para o intervalo de 4,25% a 4,50%.
O fato é que devemos ver pelo menos mais uma alta.


Inflação e desemprego: o que mudou nas projeções
As projeções para a inflação tiveram um leve aumento.
Projeções para o núcleo do PCE:
- Para 2026: de 3,3% para 3,4%.
- Para 2027: 2,5%, sem alteração.
- Para 2028: de 2,1% para 2,2%.
Os membros projetam que o núcleo da inflação chegará a 2% apenas em 2029.
As projeções também reconhecem que o mercado de trabalho seguirá aquecido, com o desemprego sendo revisado para baixo.
Projeções para a taxa de desemprego:
- Para 2026: de 4,3% para 4,1%.
- Para 2027: de 4,3% para 4,1%.
- Para 2028: de 4,2% para 4,1%.

Mercado já precifica novas altas de juros
Com a linguagem mais dura e as revisões nas projeções, o mercado passou a precificar 49,5% de chance de mais uma alta de juros até o fim do ano. Ainda há chance relevante de mais duas altas (38,2%), cenário que entra fortemente no radar do mercado, ante apenas 12,3% de chance de o Fed não promover novas altas até o fim deste ano.

Onde acompanhar os juros americanos?
A taxa básica de juros dos Estados Unidos (Fed Funds Rate) não é um número único, mas um intervalo — definido por um limite superior e um limite inferior. A partir desse intervalo, calcula-se a taxa efetiva (Effective Federal Funds Rate), que é uma mediana ponderada pelo volume das transações realizadas entre bancos.
Como consultar o histórico dessas taxas:
Como funciona o banco central dos Estados Unidos?
O Federal Reserve possui um mandato duplo, o que significa que o seu compromisso é alcançar a meta de inflação e, ao mesmo tempo, promover o pleno emprego. Ou seja, há um compromisso não só com a inflação, mas também com o nível da atividade econômica.
O Fed é dividido em três órgãos diferentes:
- O órgão do Conselho dos Governadores (os dirigentes) é composto por 7 membros que são nomeados pelo presidente da república, com o presidente do Fed sendo um desses membros. A tarefa é regular o sistema do Fed.
- Outro órgão é o Federal Reserve Banks, composto por 12 bancos regionais do Fed, com cada um atendendo uma região geográfica específica. A tarefa é supervisionar os bancos comerciais de cada região, prover serviços financeiros e levantar dados que podem contribuir para a decisão de política monetária (como dados para o livro bege).
- Já o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), com a tarefa de tomar as decisões de política monetária, é composto por 19 membros, sendo 7 governadores do Fed e os presidentes de cada um dos 12 bancos centrais regionais. Apenas 7 governadores e 5 presidentes (dos 12) participam das votações das decisões de política monetária (com o presidente do Banco Central de Nova Iorque tendo mandato fixo nas votações, ou seja, sempre vota).
Quando sai a decisão do Fed?
Em intervalos de aproximadamente 45 dias.
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