De Dubai ao Brasil: instabilidade e risco em contraste

O que Dubai ensina sobre previsibilidade e execução em contraste com a instabilidade econômica brasileira? Uma análise crítica sobre risco e futuro

Marilia Fontes 08/01/2026 08:00 6 min Atualizado em: 08/01/2026 09:42
De Dubai ao Brasil: instabilidade e risco em contraste

Voltei de férias dos Emirados Árabes com aquela sensação meio incômoda (e, ao mesmo tempo, fascinante) de ter visto, em poucos dias, o que acontece quando um país trata o tempo como um ativo escasso. 

Dubai não é “perfeita”, mas é impossível ignorar a velocidade: infraestrutura, logística, segurança, previsibilidade regulatória, ambição — tudo parece desenhado para reduzir atrito e acelerar a execução.

Na viagem, li My Vision: Challenges in the Race for Excellence, do Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum, líder de Dubai e vice-presidente/primeiro-ministro dos Emirados. No livro, ele descreve a obsessão do país por metas claras, entrega e transformação em hub global. 

O solo instável do Brasil

É aí que o contraste com o Brasil dói: aqui a gente até tem talento, capital humano e empreendedorismo, mas vive tentando construir “crescimento” em cima de areia movediça — instituições frágeis, regras que mudam no meio do jogo e um Estado que cobra caro, entrega pouco e ainda tropeça em escândalos que corroem a confiança.

Como analista de renda fixa, eu olho o macro não por esporte: olho porque é ele que decide o preço do dinheiro. E, no Brasil, o preço do dinheiro sempre entrega — antes de qualquer discurso — o que o mercado está achando da nossa capacidade de sustentar o futuro.

Dívida, juros e credibilidade: sinais de alerta para 2026

Nas últimas semanas, os números e as manchetes voltaram a se encontrar naquele ponto clássico: credibilidade. A dívida pública segue subindo, indo a 79% do PIB em novembro de 2025, e registrando um déficit primário de R$ 20,2 bilhões.

A consequência é direta para quem investe: quando a trajetória fiscal não convence, a curva de juros cobra o pedágio. O mercado até pode começar o ano com sessões pontuais de alívio, mas o pano de fundo não some — ele só alterna o volume. E o pano de fundo, hoje, é: “qual é o plano crível para estabilizar a dívida sem empurrar tudo para o próximo governo?”. 

Não por acaso, a própria discussão do Orçamento de 2026 já veio carregada desse ruído: a proposta enviada ao Congresso projetava superávit primário de 0,25% do PIB, mas com críticas relevantes sobre exclusões e contabilidade que, na prática, mudam a leitura do esforço fiscal.

Escândalos e ruído institucional: quando a confiança evapora

E aí entram os escândalos — porque escândalo não é só indignação moral; é imposto de risco.

O caso do INSS é emblemático. As investigações sobre descontos indevidos e fraudes em benefícios viraram tema político recorrente e alimentam uma percepção de Estado poroso, onde sistemas falham e a reparação é lenta. 

Houve até prorrogação de prazo para contestação desses descontos, com janela indo até 14 de fevereiro de 2026 — algo que, por si só, já mostra a escala do problema e o nível de atrito operacional para o cidadão.

Mas o golpe de confiança mais “financeiro” do fim de 2025 — e que entrou com força em nosso 2026 — é o caso Banco Master.

O Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master (e o próprio órgão detalha o rito do regime e os prazos do liquidante).

Só que a história não parou no ato: um juiz do TCU considerou a possibilidade de medidas para impedir a venda de ativos durante o processo e determinou a inspeção de documentos do BC, aumentando a incerteza e o barulho em torno do caso.

A conta sempre chega

Por que isso importa para você, investidor de renda fixa, mesmo que você nunca tenha comprado “aquele CDB que pagava bem”? Porque esse episódio reforça três verdades que o mercado brasileiro adora esquecer quando o CDI está alto e as plataformas estão “criativas”:

  • Crescimento de balanço baseado em captação cara e distribuição agressiva costuma terminar mal. O Master cresceu vendendo produtos com retorno chamativo via plataformas — isso pode funcionar enquanto a música toca, mas cobra o preço quando a liquidez vira.
  • Garantia não elimina estresse — só muda o tipo de risco. O FGC existe para proteger o pequeno investidor dentro dos limites, mas o caminho até o ressarcimento pode envolver fila, burocracia e ruído jurídico. E, no caso Master, parte relevante do tema virou discussão institucional (TCU/STF), com menção a valores congelados enquanto o caso é analisado.
  • O custo do risco sempre volta para o sistema. Quando eventos assim acontecem, o “spread” que parecia gratuito em algum lugar reaparece: em exigências mais duras, em funding mais caro, em crédito mais seletivo e, no limite, em juros mais altos por mais tempo.

O Brasil de 2026 começa assim

Agora junta tudo: fiscal pressionado, dívida subindo, escândalos corroendo a confiança e casos que lembram como a engenharia financeira vira manchete quando dá errado. Esse é o Brasil que começa em 2026.

E é aqui que eu volto ao contraste com Dubai — não como propaganda de modelo, mas como provocação.

Nos Emirados, você sente que o país tenta reduzir o imprevisível: planeja, executa e corrige rápido. No Brasil, a gente parece especializado em aumentar o imprevisível: cria exceção, remenda regra, muda incentivo, discute meta e relativiza consequência. 

Não é à toa que nosso crescimento é cronicamente baixo: não falta “potencial”; falta chão firme. E chão firme tem nome: estabilidade institucional, previsibilidade regulatória, responsabilidade fiscal e um Estado que funcione sem sangrar a confiança a cada trimestre.

O investidor brasileiro não pode esperar

Não escrevo isso para deprimir. Escrevo porque a vida real do investidor brasileiro não é um laboratório ideal. É um teste de sobrevivência.

Se o crescimento por aqui muitas vezes parece um “deserto”, então a pergunta prática é: como proteger e fazer o patrimônio prosperar nesse deserto?

A resposta não é mágica — é método. É ter liquidez planejada (para não vender no pior dia), diversificar geografias (não apostar a vida inteira em um único país), respeitar o risco de crédito (principalmente quando o prêmio “parece bom demais”), e entender a sensibilidade da carteira à taxa de juros (duration é lindo no PowerPoint, mas dói na marcação a mercado quando a curva abre).

Camadas de proteção para 2026

Para 2026, isso geralmente se traduz em uma carteira de renda fixa com três camadas bem separadas:

  • Reserva/curto prazo em pós-fixados de alta liquidez e baixo risco (para você nunca ser forçado a resgatar o que é de longo prazo).
  • Proteção real em títulos indexados à inflação (para o patrimônio não “evaporar” silenciosamente).
  • Oportunismo com disciplina em prefixados, estratégias de juros longos e BOLSA quando a assimetria ficar clara — sempre dimensionando volatilidade e prazo. E sabendo que o Brasil geralmente é um "trade” e não uma posição estrutural.

O Brasil pode demorar para construir bases sólidas de crescimento, mas o investidor não pode esperar o país “virar Dubai” para fazer o certo com o próprio dinheiro. 

Cabe a nós atravessar o caos com estratégia: proteger o patrimônio, comprar tempo e aproveitar as janelas quando elas aparecem. 

Investir bem, no fim, é isso: prosperar mesmo quando o ambiente insiste em ser árido.

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