A IA vai substituir o planejador financeiro?
A IA calcula quanto custa o seu sonho em segundos, mas não te cobra depois. Confira o que a inteligência artificial muda no planejamento financeiro
Hoje, uma inteligência artificial monta em poucos minutos um plano que me levava horas de pesquisa. Então ela vai substituir o planejador financeiro? Depois de oito anos trabalhando com IA, minha resposta é não, e foi justamente a IA que me mostrou onde está o valor do meu trabalho. Vou te explicar por quê.
Todas as nossas reuniões de planejamento financeiro começam do mesmo jeito: antes de falar de investimento, renda ou gastos, eu pergunto: quais são os seus sonhos? O que você quer realizar com seu dinheiro?
O plano de negócios que levava horas e hoje a IA faz em minutos
Escrevendo este texto, lembrei-me de um cliente que atendi em 2014 e que, diante dessa pergunta, passou uns 15 minutos contando sobre o sonho dele: abrir uma empresa de estampar camisetas.

Ele não estava satisfeito no trabalho e sempre achou essa área legal: gostava de comprar camisetas diferentes, com estampas que não encontrava em qualquer lugar. Foi atrás de informação e descobriu quanto custava uma máquina de estampar e quantas camisetas ela conseguiria produzir.
Ele conversou com um amigo que tinha uma loja e descobriu até que já poderia ter o primeiro cliente: o amigo pagava R$ 40 por camiseta pronta, e ele, pelas contas dele, conseguiria entregar por R$ 35.
Dava para ver no brilho do olho: não era uma ideia solta; era um sonho sincero.
Eu me dediquei muito para montar o plano dele. Pesquisei as diferentes tecnologias de estampa, cada uma com uma qualidade de produto final, e quanto custava a máquina de cada uma. Levantei o custo da camiseta lisa e dos insumos de impressão. Calculei quanto ele precisaria de capital de giro e por quanto tempo teria de manter caixa até o negócio decolar.
Desenhei uma janela em que ele continuaria no emprego para garantir a renda do mês sem queimar reserva, e uma regra clara de saída: após quanto tempo, sem o negócio engrenar, era hora de parar e repensar.
Foram horas e horas de pesquisa, e foi incrível ver a gratidão dele ao enxergar ali um esboço bem razoável, pé no chão e concreto de como o sonho dele se tornaria realidade. Eu tinha muito orgulho daquele trabalho!
Mas, hoje, essa mesma resposta que me levou horas de pesquisa sai em poucos minutos em uma conversa com uma IA… Basta escrever o prompt “Quero abrir uma loja de camisetas. Monte o plano de negócios deste projeto.”
E eu vou te confessar: isso me deixa muito feliz (mas talvez não pelo motivo que você imagina.)
Como transformar um sonho em número: o exemplo de uma viagem a Paris
Para explicar, preciso contar o que eu sempre considerei uma das partes mais importantes do meu trabalho: tangibilizar sonhos.
Mês sim, mês não, tem algum cliente que diz: "Meu sonho é ir conhecer Paris!" (ou alguma outra grande cidade europeia).
Na cabeça dessa pessoa, quando a gente fala desse sonho, aparece “um filme” com várias imagens da França: a Torre Eiffel, a Champs-Élysées, o Museu do Louvre… Mas nenhuma dessas imagens bonitas diz se você está perto ou longe de chegar lá.
Agora, quando a gente transforma isso em "para essa viagem, a família precisa juntar R$ 25 mil", tudo muda. Se a família já tem R$ 12.500, eu consigo dizer com tranquilidade: vocês estão na metade do caminho. 50%!
Transformar um sonho abstrato em algo sólido e bem definido é a chave do sucesso!
Um sonho com número vira uma barra de progresso. E barra de progresso é algo que a gente quer ver encher. Quando o sonho sai da nuvem e vira algo palpável, concreto e objetivo, a chance de ele ser realizado aumenta significativamente.
Por isso, durante anos, boa parte do meu trabalho era descobrir o preço dos sonhos: o intercâmbio na Irlanda para a filha, a entrada de um apartamento de dois quartos em Pinheiros, 15 dias na Europa para duas pessoas, uma festa de 15 anos, um casamento, a reforma de uma casa, entre muitos outros.
Eu achava, sinceramente, que conseguir calcular quanto custavam os objetivos dos meus clientes era o que me tornava um profissional melhor.
Liberta Ai: o robô planejador financeiro que criamos em 2018
Essa história com IA não é nova para mim. Em 2018, com outros sócios, a gente criou a Liberta Ai (a empresa que depois se fundiu com a Nord e deu origem à Nord Liberta). A ideia era ter um robô que seria o seu planejador financeiro, sem os vieses e conflitos de interesse que os humanos tinham.

A ferramenta que mais encantava as pessoas era o nosso chatbot, que ajudava a descobrir o custo real do objetivo desejado.
Você escrevia, em linguagem natural, algo como "quero viajar pra Turquia daqui a 1 ano". A ferramenta entendia que aquilo era um objetivo do tipo viagem, que o destino era a Turquia e que o prazo era de 12 meses. Aí buscávamos dados em sites de viagens e de passagens para estimar quanto aquilo custaria.
Na maioria das vezes, a gente acertava bem! Mas nunca com tanto detalhe, e a ferramenta tinha relativamente pouca mobilidade. Os LLMs estavam apenas começando e tinham muitas limitações.
Oito anos depois, as IAs (chatbots) evoluíram de um jeito impressionante. Hoje existem diversas IAs disponíveis, e todas fazem, com muito mais profundidade, aquilo que, em 2018, a gente achava que revolucionaria o planejamento financeiro.
Então, após oito anos trabalhando com IA, posso dizer com segurança: eu errei a minha previsão.
Achei que, quando isso fosse desenvolvido em plenitude, o planejamento financeiro das pessoas ia mudar completamente!
Sim, a IA facilita muito o meu trabalho. Mas o planejamento financeiro das pessoas não foi revolucionado. E isso me ensinou algo.
Quantos brasileiros usam IA para organizar as finanças?
Uma pesquisa do Mercado Pago de 2026, com 2,3 mil brasileiros, mostrou que 66% já usam assistentes de IA: 27% com frequência e 39% algumas vezes. Mas só 17% usam essas ferramentas para organizar as próprias finanças. Os dados estão em matérias da Finsiders Brasil e do Lets Money.
E, mesmo assim, eu apostaria um dinheiro alto que nem esse pessoal está perguntando sobre planejamento financeiro, preparo e organização para o futuro. O mais provável é que sejam perguntas mais objetivas, do dia a dia.
Ou seja: a calculadora de sonhos mais poderosa da história está no bolso de quase todo mundo. Mas praticamente ninguém toma a iniciativa de utilizá-la para planejar o seu futuro.
E mesmo quem usa não necessariamente vai realizar o seu sonho depois só por obter essa resposta. Saber que a viagem custa R$ 25 mil não é o mesmo que ter um plano para juntar esses R$ 25 mil. Muito menos manter esse plano de pé no mês em que o carro quebra!
O que a IA não substitui no planejamento financeiro: perguntar e ouvir
A realidade me mostrou que o meu principal valor como planejador, sendo bem sincero, nunca foi fazer a conta.
Era perguntar e ouvir!
Perguntar às pessoas quais são seus sonhos e dedicar meu tempo a escutá-las. Coisa que, muitas vezes, ninguém mais fazia.
Lembra do cliente das camisetas? Ele falou 15 minutos sem parar. Talvez tenha sido a primeira vez que alguém o "deixou" falar sobre seu sonho com calma. Apoiando-o, e não julgando! E, como ninguém perguntava, o sonho ficava esquecido em uma gaveta do cérebro (ou do coração, se preferir a versão mais poética).
Pensar no futuro não é algo que a gente faz espontaneamente. Ninguém acorda em uma terça-feira, abre a IA e escreve: "Me ajude a pensar no meu futuro". Alguém precisa fazer essa provocação. Alguém precisa te perguntar como você vai realizar aquilo que busca e te motivar a construir um plano.
Se este texto estiver despertando em você a vontade de planejar o seu futuro, eu já considero um sucesso!
E aqui entra uma história que eu acho fascinante (ainda mais para quem estudou matemática e gosta de prova).
Escrever metas funciona? O que mostra o estudo de Gail Matthews
Por décadas, circulou no mundo corporativo a história de que um estudo de Yale (em algumas versões, de Harvard) teria demonstrado que quem escrevia seus objetivos ganharia 10 vezes mais do que quem não os escrevia.
A psicóloga Gail Matthews, da Dominican University of California, foi atrás desse estudo e descobriu que ele nunca existiu!
Em vez de só desmentir, ela fez o próprio experimento. Dividiu os participantes em grupos: uns só pensavam nos objetivos; outros os escreviam; outros escreviam e montavam um plano de ação; outros compartilhavam esse plano com um amigo; e o último grupo, além de tudo isso, mandava uma atualização semanal sobre o progresso para esse amigo.
Após um mês, quem só pensou nos objetivos tinha cumprido, em média, 43% deles. O grupo da atualização semanal chegou a 76%.
O que mais mexeu o ponteiro não foi saber o caminho. Foi ter alguém para quem prestar contas.
Por que ter alguém para cobrar o plano importa mais do que a conta
A gente sempre compara o trabalho do planejador com o de um personal trainer. Talvez o maior valor do personal não esteja apenas em explicar como funciona um exercício, mas em ser a pessoa que vai te cobrar se não aparecer para treinar. Por isso, tem tanta academia de prédio cheia de aparelhos, mas vazia!

Já ouvi muita gente falar: "Preciso ir à academia hoje, senão o personal vai ficar enchendo o saco". E tem algo curioso aí: para evitar que outra pessoa “encha os seus pacovás”, você acaba melhorando a sua saúde. Não por amor-próprio, mas para não chatear alguém.
Com dinheiro é igual. A IA te diz quanto custa Paris. Mas ela não vai te cobrar depois de uns meses e perguntar por que os aportes não entraram.
Por que a IA é boa notícia para quem quer planejar o futuro
Por isso eu fico feliz com a IA. Ela me liberou do tempo que eu gastava na parte que achava ser o meu diferencial, para que eu dedique mais energia ao que de fato faz diferença: perguntar, escutar e acompanhar.
Transformar um sonho nebuloso em algo concreto, com valor e prazo definidos, continua sendo fundamental. É isso que mantém a gente motivado a separar dinheiro para o futuro, mesmo quando estamos passando por dificuldades. A diferença é que hoje a parte da conta ficou muito mais fácil, e a parte humana ficou ainda mais forte.
Teste hoje: quanto custa o seu sonho?
Abra a IA que você usa e pergunte quanto custa aquele sonho que está guardado na gaveta. A viagem, a entrada do apartamento, o ano sabático, o negócio próprio.
Ela vai te dar um número em segundos.
Depois, responda para você mesmo(a) duas perguntas: quanto disso você já tem? E quem vai te perguntar, daqui a três meses, se você está mais perto?
Mais do que só isso: considerando o seu perfil, momento de vida e o cenário atual do mercado, quais são as melhores estratégias para chegar lá?
Na Nord Liberta, nossos planejadores começam exatamente por aí: perguntam quais são os seus sonhos e escutam com calma. O número vem depois, e o acompanhamento vem junto.
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