Hiato de comportamento: por que seu investimento rende menos que o esperado
Entenda o hiato de comportamento e por que seu investimento rende menos que o esperado. Veja como evitar erros e melhorar seus resultados
Você já teve a sensação de que fez bons investimentos… mas, no fim das contas, seu dinheiro não rendeu como deveria? Você olha um ativo que subiu, vê pessoas comentando sobre ganhos e, quando confere sua própria carteira, o resultado não acompanha.
Isso é mais comum do que parece, especialmente para quem está começando a investir.
E o motivo não está, necessariamente, na escolha dos ativos.
Na maioria das vezes, o problema está no comportamento do próprio investidor. Ou seja, na forma como ele compra, vende e reage às oscilações do mercado.
Existe, inclusive, um conceito que explica exatamente isso: o chamado hiato de comportamento.
Neste conteúdo, você vai entender por que existe uma diferença entre o retorno de um ativo e o retorno que você realmente obtém. Além disso, trataremos como evitar esse erro que pode comprometer seus resultados no longo prazo.
Por que seu investimento parece render menos do que deveria
Já teve a sensação de que todo mundo está ganhando dinheiro com um ativo, menos você? Você olha a rentabilidade de um ativo e, quando vai checar na sua corretora, esse retorno não é confirmado pelos números?
Ou pior: vê o gráfico de um fundo imobiliário que subiu, olha para a sua posição e ela parece mais com um eletrocardiograma (muita volatilidade e pouco ou nenhum resultado)?
Afinal, por que isso acontece?
Retorno do ativo vs retorno do investidor
Bom, você tem que entender que o retorno de um ativo financeiro de renda variável, que você vê na tela, é como a paisagem em uma viagem de carro que já passou. O retorno que terá é daqui para frente. Será uma outra vista, que pode (ou não) ser ainda mais bela.
O fato de ser uma “outra vista” muda tudo!
Embora o retorno de um ativo no passado seja um bom testemunho, não é garantia de retorno futuro. Lembre-se daquela frase obrigatória: “retornos passados não são garantia de rentabilidade futura”.
Pois é...
No mundo teórico das planilhas de Excel (ou no Fantástico Mundo de Bobby), o retorno é simples. Se um fundo rende 20% ao ano por 10 anos, você deveria ter um lucro exponencial de 520% sobre o valor original, certo?
O problema é que o retorno do investimento é uma medida passiva. Ele assume que o dinheiro entrou no primeiro dia e ficou lá, imóvel, pegando sol, do dia 1 até o dia 3.650. Tem uma data de início, uma data de fim e nenhuma ação por parte do investidor nesse meio tempo (a não ser o reinvestimento automático dos dividendos).
É o que chamamos de retorno total (a soma dos dividendos pagos com a variação do preço da cota, levando-se em conta a data da compra e nenhuma movimentação).
Se você entrou no primeiro dia, nunca saiu e nem comprou mais cotas nesse período, continua com a mesma posição, reinvestiu os rendimentos, esse é o seu retorno, que será igual ao retorno do ativo naquele período.
Já deu para perceber que esse não é o seu retorno, né?
Se você é um investidor de longo prazo, que faz aportes mensais, esse dado não serve para te informar o retorno que teve com esse ativo.

O problema não é o ativo — é o comportamento
O retorno do investidor é influenciado pelo que chamamos de fluxo de caixa: entradas (aportes) e saídas (vendas). É o retorno real que você obtém com base nas datas em que você compra ou vende e por quanto vendeu ou comprou.
Lembre-se: você não tem lucro ou prejuízo com a variação do preço de tela, apenas se vender ou comprar, ou seja, se encerrar a operação.
E é aqui que a comédia (ou a tragédia) começa.
Se você sempre compra “na onda da moda”, quando a Bolsa é a estrela do Jornal Nacional (traduzindo: é um comprador apenas de mercado de alta), seu retorno pode ser bem mais baixo do que o retorno do ativo. Muitas vezes é, inclusive, negativo!
Esse é o comportamento padrão do investidor: ele quer ganhar dinheiro, então compra o que está subindo. Ele detesta perder dinheiro, então vende o que está caindo. E, assim, vai destruindo patrimônio com o passar do tempo.
O caso do Fundo Magellan e o erro clássico do investidor
Nada melhor do que um bom exemplo para dar cor aos desenhos que se formam em nossa mente. Vou trazer aqui o caso do Fundo Magellan.
Se houvesse um "Hall da Fama" para gestores, Peter Lynch estaria nele, com toda certeza! Entre 1977 e 1990, ele comandou o Fundo Magellan da Fidelity, que teve um retorno médio anual de 29% (acima até do retorno do lendário Warren Buffett).
O retorno total do fundo foi de absurdos 2.700%.
Só para você ter uma ideia da magnitude desse retorno, alguém que tivesse investido US$ 35 mil no fundo do Sir. Peter teria US$ 1 milhão após treze anos. Milionário em 13 anos!
Mas nem tudo são flores. Como diriam os atores da Companhia de Comédia Os Melhores do Mundo, na peça que narra a vida de Joseph Climber: “A vida é uma caixinha de surpresas”.
Agora, a reviravolta (o lado triste do retorno espetacular): de acordo com estudos da própria Fidelity, o cotista médio desse fundo perdeu dinheiro no mesmo período!
[Pausa dramática].
Como isso é possível? O que aconteceu?
Bom, o comportamento dos investidores seguiu o roteiro clássico do erro emocional: o fundo subia 40% em um ano e todos corriam para comprar (no topo). “Esse é o melhor fundo, do melhor gestor!”, diziam eles. O fundo tinha uma correção natural de 10% e o pânico vinha: eles pediam o resgate do seu dinheiro (no fundo). “Bolsa é cassino!”, reclamavam enquanto retiravam menos dinheiro do que haviam investido.
O ciclo se repetia. Compra na alta, vende na baixa. O algoritmo da pobreza.
O investidor médio chegava ao encontro anual dos amigos já no final da festa, não participava dos comes e bebes, mas dividia a conta igualmente, como todo bom amigo (que joga dinheiro fora)!

O que é o hiato de comportamento
Nos investimentos, o hiato de comportamento (ou behavior gap) é a diferença entre o rendimento que um ativo financeiro gera e o rendimento que o investidor realmente obtém. É a definição, pura e simples, da nossa newsletter de hoje.
Comportamento — ele é o responsável pelo seu retorno, não a inteligência.
Esse fenômeno foi popularizado por Carl Richards e mostra que, embora um fundo de investimento possa render 30% ao ano, o investidor médio nesse mesmo fundo costuma lucrar significativamente menos devido às suas próprias decisões emocionais.
O hiato acontece nos ciclos de ganância e medo. Esses ciclos foram tratados no livro do Benjamin Graham, O Investidor Inteligente, por meio da figura do Senhor Mercado. O tema também é explorado em finanças comportamentais, um campo interdisciplinar que estuda como emoções, psicologia e vieses cognitivos influenciam as decisões financeiras dos investidores.
Como evitar esse erro e melhorar seus resultados
Para se proteger do hiato de comportamento, o segredo não é ter mais inteligência financeira, mas sim criar sistemas que anulem a sua emoção na hora de decidir.
Sabe aquele percentual em cada classe de ativos, cada qual com um percentual diferente, que você segue para garantir uma boa diversificação? Essa é uma das formas mais simples de fazer isso.
Digamos que você tem 20 FIIs, com 5% em cada um. Se três deles caírem, o percentual deles na carteira também vai diminuir — e você precisará comprar mais. Na outra ponta, os ativos que subirem vão ficar desbalanceados também. Esses você não vai comprar até que o resto da carteira volte a alcançá-los.
Pronto! Você se protegeu do hiato de comportamento.
O investidor que consegue o melhor resultado é aquele que compra na baixa. Buffett diz: “Compre aos sons de canhões”. O problema é que a maioria dos investidores ficam decepcionados quando o preço da cota cai, mas ficam felizes quando o preço da cota sobe. Esse investidor, provavelmente, vai ter um retorno bem abaixo da média de mercado.
Conclusão: o maior inimigo do seu retorno
A grande maioria dos investidores entra nos fundos imobiliários (FIIs) em momentos de alta. Quando os juros estão baixos, não se fala de outra coisa na imprensa, a não ser os “bons rendimentos” da Bolsa de Valores, que estão batendo recordes.
Com a festa já iniciada, o investidor iniciante quer pagar o preço do ticket de entrada. O problema é que a “quantidade de diversão” não será a mesma de quem entrou quando ninguém queria.
O mercado financeiro é um dos poucos lugares onde esforço e atividade constante nem sempre geram mais resultado.
No caso do Fundo Magellan, os investidores que "fizeram menos" (simplesmente esqueceram o dinheiro lá) foram os que ficaram ricos.
O maior inimigo do seu retorno não é o Banco Central, a inflação ou o gestor do fundo: é o carinha que você vê no espelho toda manhã, enquanto escova os dentes.
Mantenha a calma, os aportes e pare de tentar ganhar do mercado no curto prazo. O tempo é o melhor amigo do investidor, mas a impaciência é o melhor amigo da corretora.
Não acredite nos “ativos vencedores”. Embora seja desejável que um time de futebol tenha bons jogadores, o que ganha uma partida é o conjunto, não o indivíduo! O mais importante é a carteira, não os ativos em si.
E não se esqueça: a principal característica de um investidor é a paciência. O bom investidor é aquele que gosta de passar o tempo apreciando a grama crescer!

