Gestão da carteira de FIIs na fase de usufruto: quanto reinvestir e como revisar
Veja como gerenciar sua carteira de FIIs na fase de usufruto: quanto reinvestir, como revisar seus ativos e manter sua renda ajustada à inflação
Recebi diversos comentários elogiosos sobre nossa última newsletter — e quero agradecer de coração a cada um de vocês pelo carinho. Fico realmente feliz em saber que os temas que tratamos aqui têm feito diferença na sua jornada de planejamento patrimonial.
Entre as mensagens, veio também uma excelente sugestão de pauta, enviada pelo assinante Ronaldo Pardini:
— “Gostaria de sugerir um tema ainda pouco explorado: a gestão e os ajustes da carteira de FIIs no período do usufruto. Como acompanhar, manter e revisar essa carteira quando ela passa a ser fonte de renda”.
Ronaldo, muito obrigado pela contribuição!
Também quero deixar as “portas abertas” para todos que queiram sugerir assuntos para as nossas newsletters semanais!
Vamos, então, ao nosso assunto de hoje.
Cronos e Kairós: o tempo do dinheiro
Para introduzir o assunto, vamos falar sobre Cronos e Kairós, ou seja, tempo e oportunidade.
Cronos, na mitologia grega, é o Rei dos Titãs. Cronologia vem de cronos. Tempo. Para se ter uma ideia de sua importância, ele é o pai do todo-poderoso Zeus. Ele é implacável e devora, inclusive, os seus filhos para manter sua estrutura linear.
Ele é o titã que representa o tempo quantitativo: as horas que você trabalha, os juros que rendem no banco e, portanto, os juros compostos, a força mais poderosa do universo. Ele simboliza o seu aporte mensal nos FIIs. Entendeu a importância dos aportes?
Já Kairós é o Deus da Oportunidade: Ele é um jovem ágil, com asas nos pés, que não se importa com relógios; manifesta-se em brechas de tempo nas quais algo extraordinário acontece.
Sua principal característica é um único tufo de cabelo na testa: você só pode agarrá-lo quando ele vem em sua direção; depois que passa, sua nuca careca impede qualquer captura.
Quem está preparado segura a oportunidade! Ela não aparece com frequência! Kairós simboliza, aqui, o momento em que conseguimos a independência financeira. Agarrar essa oportunidade só vem após servir a Cronos durante muitos anos.
Quando o tempo da liberdade chega, ele passa a nos servir. É a fase de fruição.
O que é a fase de usufruto nos investimentos?
Diferentemente da fase de acumulação, na qual o investidor deveria fazer o reinvestimento dos rendimentos para aproveitar o efeito “bola de neve” dos juros compostos, na fase de fruição o investidor vai utilizar grande parte da renda para o pagamento das contas.
A pergunta natural que surge é: “nesta fase, qual parte, ou melhor, qual o percentual eu deveria utilizar da renda dos FIIs, sem comprometer o fluxo de renda mensal”?
Bom, isso vai variar muito de carteira para carteira. Vou te dar um número como referência para uma carteira padrão de mercado, ou seja, 60% tijolo e 40% papel.
Padrão de mercado, aqui, é como se divide a capitalização de mercado entre FIIs de tijolo e de papel. Vamos usar isso como padrão, ok?
De acordo com alguns estudos e com a experiência prática de alguns amigos que estão nesta fase, você deveria utilizar cerca de 70% da sua renda mensal dos FIIs.
Os mais radicais falam que você só está “financeiramente independente” quando a renda de FIIs é o dobro daquela que você precisa para pagar todas as suas contas e seu estilo de vida. Sempre prefiro o lado “menos radical”, porém a favor da segurança. “A virtude está no meio”. É um conceito filosófico aristotélico. Todo o meu respeito a Aristóteles.
Dessa forma, vou explicar, em linhas gerais, a lógica de reinvestir parte da renda gerada pelos FIIs.

Quanto reinvestir dos seus FIIs de papel?
FIIs de papel pagam, nos rendimentos, juros + correção monetária (inflação). Em FIIs mais high grade, a correção monetária é cerca de ⅓ do rendimento (Por exemplo, um IPCA+10 com inflação de 5 entra nesse modelo).
Os juros, outros ⅔. Se considerar apenas a inflação, você deveria reinvestir ⅓ em FIIs de papel, ou seja, 33%. Mas também há eventos na carteira, como inadimplências. Por isso, é melhor fazer uma “reserva” um pouco maior, algo em torno de 40%.
Quanto reinvestir dos seus FIIs de tijolo?
Nos FIIs de tijolo, também há diversos eventos que impactam a renda: inadimplência, vacância, carência concedida, descontos, atrasos nos pagamentos, entre outros.
Como esses fundos “tendem” a corrigir os contratos pela inflação (mas as aleatoriedades acima mencionadas tiram parte desse resultado), assim como o ativo imobiliário é corrigido pelo INCC, os rendimentos, em tese, poderiam ser gastos (com as ressalvas consideradas, claro).
No entanto, em uma gestão ativa, ativos são vendidos e o lucro da operação é distribuído. Isso deve ser considerado no percentual de reinvestimento desse tipo de fundo, que acredito ser em torno de 20%.
Sendo assim, em uma conta simples, com pesos (média ponderada), 60 x 20% + 40 x 40% = 28% de reinvestimento (arredondando, 30%). Isso é uma estimativa, não um estudo científico. No entanto, ela permite orientar quem está usufruindo a renda de uma carteira de FIIs.
Abaixo, segue uma figura de DRE de um FII de CRI high grade (RBRR11), que traz os rendimentos de juros e de correção monetária, para ilustrar o assunto que abordamos.

Como gerenciar sua carteira de FIIs na fase de usufruto
Gestão de carteiras é o processo de construir, manter e ajustar um conjunto de ativos para atingir um objetivo financeiro (no caso dos FIIs, grande parte das vezes, esse objetivo é obter renda para a liberdade financeira).
Algumas decisões são importantes de serem tomadas durante o processo de gestão: qual o risco assumido, a liquidez dos ativos, o nível de diversificação da carteira, os setores abrangidos, o prazo (duration) de ativos de renda fixa (CRIs), a tributação etc.
Nesse sentido, alocação e seleção de ativos são capítulos à parte. Alocação diz respeito aos pesos por classe de ativos. Seleção, à escolha dos ativos do portfólio.
Como deve ser a alocação entre FIIs de tijolo e papel?
Para uma carteira de FIIs, sugiro acompanhar o desenvolvimento do mercado. Atualmente, acredito que 40% em FIIs de papel e 60% em FIIs de tijolo seja uma boa diversificação.
Dicas para manter o equilíbrio da carteira ao longo do tempo
Se você quer aproveitar o momento de queda de juros, pode estar sobrealocado em tijolo. Se quer defender a carteira em momentos de juros ou inflação alta, pode estar sobrealocado em papel.
Quanto à seleção de ativos, ela deve ser feita dentro dos setores mais proeminentes da indústria:
- TVM (papel);
- Logística;
- Shoppings;
- Renda Urbana;
- Escritórios;
- FoF/Multiestratégia.
Os 60% em tijolo representam, em média, 12% em cada uma destas classes de ativos. O resto são pequenos ajustes, de acordo com as preferências de cada um.
Quando e como revisar a carteira de FIIs?
Definida a alocação padrão e a seleção de ativos, resta o acompanhamento periódico da carteira, que sugiro que seja feito de forma anual. O acompanhamento dos ativos deve ser mensal, com a leitura dos relatórios, claro. Mas o acompanhamento da carteira, como um todo, pode ser feito anualmente, por ocasião da Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física (DIRPF).
O momento de declarar o IRPF já te faz olhar os ativos e os resultados (renda a declarar). É o melhor momento para ver a performance de cada fundo, quem aumentou ou diminuiu rendimentos, ativos investidos, alocação etc.
A importância dos ajustes finos e da diversificação
Diversificação é a proteção gratuita dos seus investimentos. O último almoço grátis do mercado. Depois que uma carteira está “montada”, gerando a renda necessária, alguns ajustes devem ser feitos e os aportes são a melhor forma de realizá-los.
Eu gosto de olhar para onde o mercado está indo, para decidir minha diversificação. Diversificação não é algo fixo; pode sofrer ajustes finos ao longo do tempo. Vou te dar um exemplo para ficar mais claro.
Os FIIs de papel surgiram em 2009 e tinham pouca participação no mercado. Hoje, correspondem a cerca de 40% da indústria. Assim, era normal ter muito menos FIIs de papel antigamente do que hoje, pois a indústria cresceu nessa direção.
Já o setor de escritórios vem diminuindo sua participação na indústria ao longo do tempo, e isso acaba influenciando a diversificação da nossa carteira de investimentos.
A melhor forma de ajustar é durante os aportes mensais. Mesmo que a carteira esteja na fase de fruição, é importante reinvestir uma parte dos rendimentos para garantir uma renda crescente, que faça frente à inflação.
O aporte também ajuda a balancear os setores, pela sua importância relativa. O ideal é que o investimento seja feito no ativo desbalanceado, que ficou para trás. Assim você se força a comprar na baixa e evita comprar na alta.
Como acompanhar sua carteira de FIIs na prática?
Essa é a pergunta que originou este texto. E a resposta faz parte da nossa conclusão. Vamos resumir a resposta tendo como base os temas abordados acima.
A carteira de investimentos deve ser acompanhada ao longo do tempo. Existem várias formas de se fazer isso: algumas com mais trabalho, outras com menos trabalho, mas com custos.
Você pode acompanhar os ativos do seu portfólio lendo os relatórios gerenciais dos fundos. Esse é o jeito mais barato. Você pode também pagar uma casa de research e contratar um bom analista para olhar tudo. Esse é o jeito com custos.
Ambas as formas funcionam bem. Quanto maior for o patrimônio, mais “barata” sai a assessoria de um bom analista.
A manutenção da carteira é a fase responsável por tornar todo o processo saudável, com renda que acompanhe a inflação. O reinvestimento de 30% na fase de fruição e de 100% na fase de acumulação cumpre esse papel.
Por fim, a revisão da carteira. Esta deve ser feita, ao menos, uma vez por ano, na época da declaração do imposto de renda (período mais favorável). Também pode ser feita no fechamento do ano — o mais importante é que seja feita.
Alguns comparativos são fundamentais: como está a renda recorrente (se manteve, caiu ou aumentou), o que a gestão fez ao longo do ano, se os ativos investidos são mais arriscados ou menos, se há alavancagem (diminuiu ou aumentou), qual o custo dessa alavancagem, como está o balanceamento entre os setores e qual a importância relativa de cada um em toda a carteira.
Concluindo.
Seja o "mestre de cerimônias" do encontro entre Cronos e Kairós: transforme Cronos em seu aliado com anos de aportes e disciplina e mantenha os olhos atentos para agarrar Kairós pelo topete, assim que o destino oferecer o momento certo.
Essas são reflexões para você que está na fase de fruição. Se não estiver nela ainda, guarde esta carta para acessá-la em um futuro próximo.

