Dividendos em 2026: por que os pagamentos caíram 27% e o que esperar daqui para frente

A torneira dos dividendos secou? Entenda por que os pagamentos caíram em 2026, os impactos da tributação e as perspectivas para investidores

Victor Bueno 23/06/2026 17:20 6 min
Dividendos em 2026: por que os pagamentos caíram 27% e o que esperar daqui para frente

Lendo o título deste artigo, você pode estar se perguntando: será que a torneira dos dividendos secou?

A dúvida faz sentido. Afinal, os dividendos pagos pelas empresas brasileiras caíram 27% nos primeiros meses de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento do Meu Dividendo.

Mas antes de concluir que as ações pagadoras de dividendos perderam sua atratividade, é importante entender o que está por trás dessa queda. A redução nos pagamentos não significa necessariamente que as empresas estão gerando menos caixa ou abandonando suas políticas de distribuição de proventos.

Grande parte desse movimento está relacionada à nova tributação de dividendos e à antecipação de pagamentos realizada por diversas companhias ainda em 2025.

Neste artigo, você vai entender por que os dividendos caíram em 2026, quais foram os efeitos da nova regra tributária, o que esperar para o restante do ano e se ainda vale a pena investir em uma carteira de dividendos.

Por que os dividendos caíram em 2026?

Vamos aos números. De janeiro a abril de 2026, as empresas de capital aberto distribuíram cerca de R$ 117 bilhões em proventos (juros sobre capital próprio, dividendos e afins).

Parece muito (e, de fato, é). Contudo, segundo estudo do Meu Dividendo, esse valor foi -27% menor do que os mais de R$ 160 bilhões pagos no mesmo período do ano passado.

 Levantamento dos pagamentos de dividendos na B3. Fonte: Meu Dividendo e Valor Econômico

Isso quer dizer que as “dividendeiras” perderam seus fundamentos ou algo do tipo? Não. O que aconteceu foi, basicamente, uma corrida contra o relógio.

O impacto da nova tributação sobre dividendos

Com a nova tributação aprovada no ano passado, desde 1º de janeiro de 2026, quem recebe mais de R$ 50 mil por mês de uma mesma empresa passou a pagar 10% de Imposto de Renda na fonte sobre os dividendos (que, antes dessa data, eram totalmente isentos).

Para fugir disso, diversas companhias correram para antecipar pagamentos ainda em 2025. 

A lei (nº 15.270/2025) forneceu uma brecha para as empresas. Os lucros aprovados em assembleia até o fim do ano passado seguiriam isentos, mesmo que pagos até 2028.

O resultado dessa brecha? 

Bancos, elétricas e seguradoras (entre outros setores) enxugaram parte do calendário de 2026, antecipando anúncios e distribuições. Segundo estimativas do mercado, as companhias adiantaram pelo menos R$ 68 bilhões (sendo R$ 35 bilhões em extraordinários).

Ou seja, boa parte do que apareceria em 2026 já caiu na conta dos investidores em 2025 (ou ainda cairá até 2028), confirmando que as empresas não estão fechando a mão.

Inclusive, dado o cenário atual para a distribuição de dividendos, as companhias estão concentrando seus proventos em JCPs (juros sobre capital próprio), que passaram, pela primeira vez nos últimos anos, a superar o montante distribuído em dividendos.

 Levantamento dos pagamentos de dividendos na B3. Fonte: Meu Dividendo e Valor Econômico

E o governo, que apostou nessa tributação para aumentar sua arrecadação? Frustrou-se. 

Segundo a Receita Federal, até abril de 2026, o IR sobre dividendos rendeu apenas R$ 885 milhões, o que representa menos de 3% da meta de R$ 30 bilhões para o ano.

Possivelmente, o que o governo não esperava era que as empresas pegassem uma parcela relevante de seus lucros (até mesmo de exercícios anteriores, que estavam acumulados em sua reserva) para antecipar suas distribuições, esvaziando uma potencial receita relevante.

O que esperar dos dividendos no segundo semestre 

Mas será que a torneira vai voltar a abrir para os investidores? A resposta é, provavelmente, sim (ao menos parcialmente).

A própria Receita reconhece que é cedo para concluir, mas, à medida que os lucros de 2026 forem apurados e distribuídos, o fluxo tende a se recompor no segundo semestre (ainda que sem aquele “estoque” de extraordinários que vimos no fim do ano passado).

Especialistas tributários já avisavam que o efeito real da nova regra só apareceria quando começassem a pingar os dividendos de 2026, já com a retenção de 10% (algo esperado a partir do segundo semestre do ano). 

Para o ano cheio, a leitura do mercado é de proventos ainda fortes, porém sem novos recordes (como vinha acontecendo nos últimos anos de forma consecutiva).

De forma geral, a Bolsa brasileira deverá continuar sendo o destino de investidores que buscam dividendos regulares e com rendimentos satisfatórios.

A tendência é que empresas com resultados sólidos, balanços saudáveis e alta geração de caixa sigam remunerando seus investidores a uma taxa (dividend yield) de, ao menos, 6% (no Nord Dividendos, sempre buscamos um mínimo mais próximo de 8%).

Os riscos de olhar apenas o dividend yield

Contudo, neste momento, é preciso tomar muito cuidado para não cair em armadilhas.

Com a antecipação de dividendos no último ano, muitos dividend yields (dividendo por ação nos últimos 12 meses/preço da ação) da Bolsa estão “inflados”.

Atualmente, 58 companhias da B3 possuem dividend yield acima de 10% (a média histórica das boas pagadoras gira em torno de 6%), sendo que 29 apresentam rendimentos acima da atual taxa Selic (14,25% a.a.) e 10 delas chegam a superar os 30%.

 Lista de maiores dividend yields da B3. Fonte: Bloomberg

Qual a grande armadilha aqui? Comprar ações de alguma(s) dessas empresas acreditando que os rendimentos apresentados nos últimos 12 meses se perpetuarão nos próximos anos.

Lembre-se sempre: dividend yield passado não é garantia de dividend yield futuro.

A regra acima vale especialmente para o cenário atual (totalmente atípico), mas é essencial que o investidor nunca analise apenas um indicador antes de comprar uma ação. 

Assim, chegamos à nossa última pergunta:

Ainda vale a pena montar uma carteira de dividendos?

Sim, eu sei que não teremos um ano de recordes, mas a base comparativa de 2025 é extremamente forte e incomum, e vai demorar para ser ultrapassada. 

Além disso, sei que a nova tributação pode reduzir parcialmente a atratividade do investimento em ações de dividendos. Porém, vale lembrar que a medida afeta 0,1% da população. 

Por fim, também sei que há diversas armadilhas que podem acabar capturando investidores (especialmente os menos experientes), mas é exatamente essa a nossa missão na Nord.

Por meio de nossas newsletters, buscamos trazer conteúdos atuais e educativos, além de análises de ativos específicos demandados por nossos leitores. 

Já em nossa carteira recomendada, fazemos todo o trabalho de buscar as melhores oportunidades para os nossos clientes (tentando eliminar todo tipo de armadilha que possa existir no mercado) e manter um acompanhamento recorrente desses ativos.

No Nord Dividendos, inclusive, seguimos encontrando boas empresas e incorporando-as ao nosso portfólio (acabamos de recomendar uma nova posição e temos outras mapeadas).

O dividend yield médio projetado para o fim de 2026 da nossa carteira é de 8%, enquanto, para o fim de 2027, é de 9%, mostrando um elevado rendimento esperado daqui para frente.

Então, sim, concluímos que vale a pena manter ou construir uma carteira de dividendos nesse momento (ainda mais após as quedas recentes observadas no mercado brasileiro).

Perguntas frequentes

Os dividendos vão voltar a crescer em 2026?

Sim. A expectativa do mercado é de recomposição parcial dos pagamentos ao longo do segundo semestre.

A tributação acabou com os dividendos?

Não. A tributação afeta apenas casos específicos e não altera a capacidade das empresas de gerar caixa.

Vale a pena investir em ações de dividendos hoje?

Para investidores focados em renda recorrente, ações de empresas sólidas continuam sendo uma alternativa interessante.

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