Dividend yield alto demais? Pode ser uma armadilha, não uma oportunidade

Dividend yield acima de 20% parece bom demais? Pode ser um yield trap. Entenda os quatro pilares que separam pagadoras sustentáveis de armadilhas

Victor Bueno 08/08/2026 08:15 6 min
Dividend yield alto demais? Pode ser uma armadilha, não uma oportunidade

Você abre uma plataforma de análise fundamentalista, clica em screener (espécie de filtro de ações), ordena a coluna de dividend yield em ordem decrescente e lá estão elas: empresas pagando 20% ao ano, outras chegando até a 30% a.a. ou mais.

Lindo, não? Afinal, somente com os rendimentos dos dividendos, receberíamos mais do que a taxa básica de juros atual.

A primeira reação do investidor costuma ser, de fato, a empolgação. A segunda, se você já tem alguma bagagem no mercado, deveria ser uma pergunta bem mais desconfortável.

Se a oportunidade está tão clara assim, por que ninguém comprou antes de mim?

O mercado brasileiro tem muita gente olhando para as mesmas telas que você. Quando um número salta aos olhos dessa forma, quase sempre existe uma explicação.

Normalmente, um yield muito alto não é um prêmio, é um alerta. E é sobre isso que vamos falar.

O que é dividend yield e como ele é calculado

Para quem não faz ideia do que estamos falando, o dividend yield é uma conta simples.

Dividend yield = Dividendos por ação (pagos nos últimos 12 meses) / Preço da ação

Esse cálculo serve para fundos imobiliários também, mas o assunto aqui é sobre ações.

Por exemplo, imagine que uma empresa paga R$ 2 por ação ao ano e sua ação custa R$ 20. Logo, seu dividend yield é de 10% (DY = 2 / 20 = 0,1 = 10%).

Se o seu dividendo crescer +10% e sua ação não sair do lugar, o investidor da empresa passa a ter um rendimento de 11% (DY = 2,2 / 20 = 0,11 = 11%), assim como se o dividendo continuar o mesmo e a ação subir +10%, o yield será de 9,1% (DY = 2 / 22 = 0,091 = 9,1%).

Apesar de simples, os exemplos são úteis para mostrar que um dividend yield alto não é, necessariamente, reflexo de um dividendo alto ou de uma ação barata. O inverso também é verdadeiro: yield baixo não é, necessariamente, reflexo de dividendo baixo ou ação cara.

É preciso entender a história por trás do indicador de cada empresa. Mais do que isso, é preciso saber como serão as distribuições de dividendos daqui em diante.

Por que o dividend yield alto pode ser uma armadilha (yield trap)

Aqui mora a principal armadilha de olhar apenas para o dividend yield antes de comprar ou descartar uma ação. Como vimos, o yield conta o que aconteceu nos últimos 12 meses e nem sempre diz o que acontecerá nos próximos anos.

Ou seja, comprar (ou não) uma ação olhando apenas para esse indicador específico é olhar somente pelo retrovisor e não se atentar ao que realmente importa: o caminho à sua frente.

Ilustração de um motorista dirigindo por uma cidade destruída e sombria, enquanto o retrovisor do carro reflete uma paisagem oposta: uma estrada tranquila em meio a um campo verde e ensolarado, representando a diferença entre o passado (retrovisor) e o caminho real à frente (para-brisa).
 

Historicamente, vemos diversas empresas com yields elevadíssimos, mas cujos rendimentos são explicados por dividendos extraordinários ou por ações em queda.

O primeiro motivo é menos preocupante, já que nem todo dividendo extraordinário é ruim. Mas, caso o dividend yield seja composto apenas por um provento fora da curva (fruto de alguma venda de ativo, de uma captação ou de qualquer evento não recorrente), o sinal é de alerta.

O segundo motivo também pode ser justificável (empresas boas também podem ter ações caindo em meio à irracionalidade do mercado), mas muitas vezes pode acabar sendo um sinal de problemas (operações ruins, lucros caindo, dívida aumentando etc.).

Mais uma vez: é preciso identificar o que há por trás dos números e, principalmente, saber o que se pode esperar de uma companhia para os próximos anos.

Isso vale, inclusive, para dividend yields baixos, já que existem empresas que podem elevar as suas distribuições ao longo do tempo ou cujas ações estão melhor precificadas no presente, mas que, em uma eventual correção, podem se tornar oportunidades no futuro.

Obviamente, na maioria dos casos, uma carteira de dividendos será composta por empresas que conseguem manter yields satisfatórios de forma recorrente e previsível.

Por que 2026 pede cuidado extra com dividend yield

Voltando às armadilhas, o momento atual exige uma cautela adicional por parte do investidor.

Com a antecipação de dividendos no último ano (para as empresas fugirem da nova tributação que começou em 2026), muitos dividend yields da Bolsa estão "inflados".

Atualmente, 58 companhias da B3 possuem dividend yield acima de 10% (a média histórica das boas pagadoras gira em torno de 6%), sendo que 36 apresentam rendimentos acima da atual taxa Selic e 20 delas chegam a superar os 20% ao ano.

Ou seja, 2026 é um ano que, mais do que nunca, exige o alerta: não olhe apenas para o dividend yield.

Tabela mostrando o ranking das companhias da B3 com maior Dividend Yield nos últimos 12 meses, incluindo colunas de payout, P/E, P/B, ROE e ROIC
 Ranking dos maiores dividend yields da B3. Fonte: Bloomberg

Repita três vezes:

Dividend yield passado não é garantia de dividend yield futuro.
Dividend yield passado não é garantia de dividend yield futuro.
Dividend yield passado não é garantia de dividend yield futuro.

Mas, afinal, o que olhar além do dividend yield?

Quatro pilares para identificar dividendos sustentáveis

A pergunta que os investidores precisam fazer não é "quanto essa empresa pagou?", mas sim "de onde saiu esse dinheiro e ele vai continuar pingando na conta?"

São, basicamente, quatro pilares a serem acompanhados para separar pagadoras sustentáveis de dividendos de pagadoras momentâneas: (i) payout, (ii) qualidade dos lucros, (iii) geração de caixa e, por fim, (iv) alavancagem financeira.

O payout é o percentual do lucro líquido que é distribuído em forma de proventos aos investidores. Quanto maior for o payout, melhor. Contudo, caso esse percentual ultrapasse 100% do lucro de forma recorrente, pode ser um sinal de insustentabilidade.

O payout por si só, porém, não é o principal. Não adianta uma empresa ter um payout de 70% se o lucro cair pela metade no ano seguinte. Sendo assim, é preciso avaliar a qualidade do lucro: as receitas estão crescendo? Como andam as margens? E as despesas financeiras?

Além disso, é preciso avaliar o quanto a companhia está convertendo seus resultados em caixa (que é de onde saem os proventos). Empresas com queima de caixa recorrente (altos investimentos, pagamentos de dívidas etc.) tendem a ter um menor fluxo de dividendos.

Por fim, mas não menos importante, é preciso analisar a alavancagem financeira. Uma dívida ser grande ou pequena (em valor financeiro) não diz tudo. O que é fundamental é saber a capacidade da empresa de honrar seus compromissos.

Por exemplo, a Vale possui uma das maiores dívidas líquidas do país, de quase R$ 70 bilhões. Contudo, apenas com seu potencial de geração de caixa operacional (o Ebitda), poderia pagar todo esse valor em pouco mais de um ano (Ebitda atual de R$ 52 bi).

Existem outros indicadores que fazem parte de análises mais aprofundadas, mas, com esses quatro pilares, já é possível separar o que é joio do que é trigo.

Como evitar cair em um yield trap

Se você ainda não se sente confortável para escolher as próprias ações e montar uma carteira de dividendos, nos dias 24 e 25 de setembro teremos um encontro presencial, na sede da Nord em São Paulo, para uma imersão completa sobre onde e como colocar seu dinheiro para trabalhar.

As aulas serão lideradas por Marília Fontes (renda fixa), Otmar Schneider (fundos imobiliários), Nélio Costa (planejamento financeiro) e Victor Bueno (ações e dividendos). Quem participar do Nord Marco Zero também garante acesso vitalício às séries Renda Fixa PRO, Nord Fundos Imobiliários e Nord Dividendos, além de outros bônus exclusivos.

Veja a Nord com mais frequência no Google

Publicamos análises todos os dias para te ajudar a investir melhor — marcar como favorita aumenta as chances dos nossos conteúdos chegarem até você.

Favoritar no Google
Compartilhar

Receba conteúdos e recomendações de investimento gratuitamente

Obrigado pelo seu cadastro!

Acompanhe nossos conteúdos por e-mail para ficar por dentro das novidades.