Corte da Selic: por que o mercado ainda aposta na queda dos juros?

IPCA-15 sobe acima do esperado em maio, mas investidores seguem projetando queda da Selic. Veja os riscos e oportunidades

Marilia Fontes 28/05/2026 10:00 6 min
Corte da Selic: por que o mercado ainda aposta na queda dos juros?

Quanto mais olho para o cenário atual, mais difícil me parece justificar um corte de juros em junho. Teoricamente, o Banco Central não tem muito espaço. A inflação voltou a surpreender para cima, as expectativas seguem piorando e o cenário fiscal continua pressionado.

Mas, ainda assim, o mercado passou a tratar um corte da Selic já na próxima reunião como o cenário mais provável. 

A lógica existe. O problema é que ela depende de várias coisas darem certo ao mesmo tempo. 

IPCA-15 sobe acima do esperado e preocupa o mercado

O IPCA-15, considerado a prévia da inflação oficial do país, subiu 0,62% em maio, acima dos 0,56% que o mercado esperava. 

O grupo de alimentos puxou a alta, ainda como efeito indireto da guerra: petróleo mais caro encarece o frete, o frete mais caro encarece a comida, e a comida mais cara aparece no bolso de todo mundo antes de qualquer outro item. 

Com essa leitura, a inflação acumulada em 12 meses subiu de 4,3% para 4,6%, desviando cada vez mais da meta de 3% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

Um número acima do esperado em um mês poderia ser acidente. Dez semanas seguidas de revisão para cima nas expectativas do Focus não são acidente. Indicam uma tendência que, no caso da inflação, tem um nome técnico: desancoragem de expectativas.

O que significa a desancoragem das expectativas

As projeções de inflação para o fechamento de 2026 já passaram de 5%. Para 2027, já passaram de 4%. Esses números importam muito mais do que a leitura mensal de maio.

Eles revelam o que os agentes econômicos acreditam que vai acontecer com os preços no futuro, independentemente do que o Banco Central faça nas próximas reuniões.

Quando as expectativas de inflação sobem para dois anos à frente, o mercado está dizendo que não acredita que o choque atual é temporário. Está dizendo que o Banco Central ou não vai fazer o suficiente para controlar a inflação, ou que o ambiente fiscal e externo não vai permitir que ele consiga. 

Essa perda de credibilidade é o que mais me preocupa no cenário atual, porque expectativa desancorada vira inflação real.

Empresas reajustam preços com base no que esperam da inflação futura. Trabalhadores pedem reajuste salarial com base no mesmo número. O efeito se autorrealiza.

A situação fiscal aumenta a pressão sobre os juros

Por baixo da inflação, tem uma questão fiscal que não está sendo discutida com a seriedade que merece. 

A dívida bruta do Brasil está em torno de 80% do PIB. Todo ano, o governo paga aproximadamente 12% de juros sobre essa dívida. O PIB, por sua vez, cresce em torno de 2% ao ano.

A matemática é simples e cruel: o numerador da equação dívida/PIB cresce a 12%, enquanto o denominador cresce a 2%.

Isso significa que a dívida se torna explosiva, a menos que o governo gere superávit primário. Ou seja, arrecade mais do que gasta antes do pagamento de juros.

O problema é que o déficit fiscal atual está acima da meta. Em ano eleitoral, a pressão para gastar é ainda maior.

Nenhum governo chega à campanha cortando benefícios e segurando investimentos.

O resultado é que o mercado precifica um fiscal que vai piorar antes de melhorar. Isso torna a trajetória da dívida ainda mais preocupante e exige prêmio de risco maior nos títulos longos do governo.

Eleições de 2026 elevam a volatilidade do mercado

Eleição não é risco porque um candidato é melhor do que o outro. Eleição é risco porque gera incerteza sobre a política econômica futura, e esse sentimento tem preço no mercado financeiro. 

Com inflação desancorando, fiscal deteriorando e guerra sem resolução definitiva, o último ingrediente que faltava para um cenário de alta volatilidade era exatamente este: uma disputa eleitoral acirrada com resultado incerto. 

Temos os três.

Por que o mercado ainda aposta em corte da Selic

Com todo esse cenário, o que mais me chamou atenção esta semana foi ver o mercado precificar uma probabilidade de quase 100% de corte de 25 pontos-base na Selic na próxima reunião do Copom, que ocorrerá nos dias 16 e 17 de junho.

Parece contraditório: inflação acima da meta, expectativas desancorando, fiscal deteriorando, e o mercado acha que o Banco Central vai cortar? 

A explicação está nas negociações em torno do fim da guerra e da reabertura do Estreito de Ormuz, que é a passagem por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial. Se o canal for reaberto, o petróleo cai, o frete cai, os alimentos ficam mais baratos e o principal componente do choque inflacionário se dissipa. 

O mercado está apostando que esse cenário de normalização se concretize e que o Banco Central aproveite a janela para cortar antes que o ciclo eleitoral torne tudo mais difícil.

A lógica faz sentido, mas é uma aposta. 

Uma aposta de que a resolução da guerra acontece, é duradoura e os preços recuam rápido o suficiente para justificar um afrouxamento monetário enquanto a inflação acumulada ainda está em 4,6%.

Eu acho esse cenário possível, mas arriscado de precificar com quase 100% de probabilidade.

Onde investir em um cenário de juros elevados

Minha leitura do cenário atual é que estamos em um ambiente de risco assimétrico. 

O upside de tudo dar certo — a guerra acabar, a inflação ceder e a Selic cair — já está precificado. O downside de qualquer uma dessas apostas não se concretizar ainda não está totalmente refletido nos preços.

Para a carteira, isso significa continuar preferindo a renda fixa com proteção, como pós-fixados e IPCA+

Tesouro Selic continua atrativo?

O Tesouro Selic remunera bem sem exigir que nenhuma dessas apostas se concretize. 

Vale a pena investir em Tesouro IPCA+?

O Tesouro IPCA+ de médio prazo protege o investidor se a inflação persistir mais do que o mercado espera. 

Ambos continuam com relação risco-retorno superior à da Bolsa em um ambiente em que o juro real acima de 7,5% compete diretamente com o prêmio de risco das ações.

Bolsa ainda enfrenta cenário desafiador

A Bolsa brasileira pode se recuperar caso o cenário de paz se materialize, mas ela também já caiu bastante recentemente, com o gringo saindo do Brasil, e já reflete parte dos riscos que mencionei.

Alocar novo dinheiro em Bolsa hoje, com a Selic caindo pouco e as eleições chegando, é uma decisão que exige mais convicção do que eu tenho neste momento.

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