Copom corta Selic para 14,50%... mas algo não fecha
Copom reduz a Selic para 14,5% ao ano em meio à guerra no Oriente Médio. Entenda o que mudou, os riscos ignorados e como investir com juros altos
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic de 14,75% para 14,50% ao ano. O mercado esperava o corte, mas o comunicado do Copom levanta dúvidas importantes.
Por que a taxa Selic influencia a economia
A cada 45 dias, o Copom se reúne para decidir a taxa Selic. E, nesse mesmo intervalo, eu me encontro com você para ler o comunicado dessa reunião. São duas páginas que concentram a essência da economia brasileira. É ali que está, de forma direta, o que realmente importa.
A taxa de juros é a variável que resume todas as outras. Ela se move (sobe ou cai) como consequência da inflação, da atividade econômica, das expectativas do mercado, da geopolítica e da política fiscal do governo.
E, ao mesmo tempo em que reflete tudo isso, também influencia tudo: o preço do seu CDB, do Tesouro Selic, dos prefixados, do IPCA+, dos fundos imobiliários, da Bolsa, dos imóveis e dos empréstimos. Por isso, costumo dizer que a renda fixa é a mãe da Bolsa.
Quem entende juros entende o resto. E, para entendê-los, não precisa de um doutorado. Precisa apenas sentar comigo a cada 45 dias e ler duas páginas.
Conceitos essenciais para entender a Selic
Antes de entrar no comunicado, preciso passar por alguns conceitos que vão fazer tudo fazer mais sentido.
O papel do juro neutro na economia
O primeiro é o juro neutro, a taxa de juros que nem acelera nem desacelera a economia. Se a Selic está acima do juro neutro, o Banco Central está restringindo a atividade, tornando o crédito mais caro e o consumo mais difícil. Se a Selic está abaixo do juro neutro, a economia acelera porque o crédito fica barato e o consumo cresce.
A instituição usa esse conceito para calibrar a política monetária, e hoje essa calibração está sendo muito questionada.
O que são expectativas de inflação
O segundo conceito é o das expectativas de inflação. Elas importam mais do que a inflação passada porque são o principal fator que determina a futura. Por quê? Porque quem reajusta preços somos todos nós.
Você vende alguma coisa e reajusta seu preço baseado no que espera que vai acontecer com os seus custos. Se espera que tudo vai ficar mais caro, reajusta mais. E aí a inflação que esperava acontece de verdade.
Quando as expectativas estão ancoradas próximas à meta, o trabalho do Banco Central é muito mais fácil, porque, mesmo que haja um choque de preços, o mercado acredita que ele vai corrigir. Quando as expectativas estão desancoradas, como estão agora, a instituição precisa subir muito mais o juro para ter o mesmo resultado.
O que o Copom decidiu na última reunião?
O Copom decidiu por unanimidade reduzir a taxa Selic de 14,75% para 14,50% ao ano, um corte de 0,25 ponto percentual. Era exatamente o que o mercado esperava.
Na reunião anterior, o Banco Central havia sinalizado que poderia acelerar para cortes de 0,50 ponto, caso o cenário melhorasse. O cenário não melhorou, então o passo ficou em 0,25.

O que diz o comunicado do Copom
O comunicado começa pelo cenário externo, como de costume. A autoridade monetária reconheceu que o ambiente externo permanece incerto em função da indefinição a respeito da duração, da extensão e dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Até aqui, concordo.
No cenário doméstico, o Banco Central afirmou que o conjunto de indicadores segue apresentando, conforme o esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica. Aqui começo a discordar, e muito.
Na parte de inflação, o comitê reconheceu que a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta.
As expectativas de inflação apuradas pela pesquisa Focus voltaram a subir. Para 2026, a projeção avançou de 4,80% para 4,86%, acima do teto da meta de 4,5%. Para 2027, a estimativa passou de 3,99% para 4%.
A própria projeção do modelo Samba do Banco Central para o quarto trimestre de 2027 subiu de 3,3% para 3,5%, afastando-se da meta de 3%.
Na decisão em si, o Banco Central repetiu que o período prolongado de manutenção da Selic em patamar contracionista criou condições para que ajustes no ritmo e na extensão dessa calibração sejam possíveis à luz de novas informações.
Ou seja, ele manteve a porta aberta para acelerar os cortes, mas adicionou a palavra “extensão”, sugerindo que os passos podem ser menores, porém por mais tempo. E encerrou reafirmando serenidade e cautela, sem qualquer sinalização de pausa.
Minha leitura do comunicado do Copom
Vou ser direta: achei que este foi um comunicado de quem está forçando o argumento para fazer o que já decidiu fazer. E o que o Galípolo quer é continuar cortando juros. O problema é que os dados não acompanham essa narrativa.
Atividade econômica ainda aquecida
A primeira divergência refere-se a afirmação de que a atividade está em trajetória de moderação. O IBC-Br, que é a proxy mensal do PIB, voltou a acelerar. O Caged de hoje mostrou uma reaceleração forte na abertura de vagas de emprego. A inflação reacelerou. Me diz o que exatamente seguiu a trajetória de moderação que ele descreve, porque eu não encontro esse dado.
Riscos inflacionários ignorados
Já a segunda divergência é sobre o balanço de riscos. O Banco Central continua dizendo que os riscos para a inflação estão tanto de alta quanto de baixa, como se o cenário fosse equilibrado. Com o Estreito de Ormuz em instabilidade, o preço do petróleo pressionado, os fertilizantes caros por conta da guerra, as expectativas de inflação subindo pela quinta semana consecutiva e a atividade reacelerando, alguém precisa me explicar qual é o risco de baixa da inflação. Não existe. Os riscos são claramente assimétricos para cima.
Sinalização inconsistente do Banco Central
A terceira divergência está relacionada a manutenção da linguagem de eventual aceleração dos cortes. O mercado já precificava alguma probabilidade de pausa na próxima reunião de junho. Para dar credibilidade a isso, o comunicado deveria ter pelo menos dado um sinal de que o ritmo pode diminuir. Não deu. É um comunicado de quem está fingindo que não é com ele. Como se a guerra não tivesse acontecido, como se a inflação não tivesse reacelerado, como se o mercado de trabalho não estivesse aquecido.
Selic alta pode ser o novo normal?
Há um ponto mais profundo que quero destacar, que é uma pergunta que tenho me feito com frequência: e se a Selic de 15% for o novo juro neutro do Brasil?
O raciocínio é simples: se a Selic estivesse de fato muito acima do juro neutro, a atividade econômica deveria estar claramente desacelerando. Mas não está. O que explica isso?
O governo, em ano de eleição, está abrindo a torneira de gastos, crédito consignado, programas de transferência e tudo mais. O Banco Central aperta, o governo afrouxa, e o resultado é que o juro precisa ficar mais alto do que estaria em um cenário de disciplina fiscal para ter o mesmo efeito. Não é ciência de foguete.
É a mesma conta que fizemos entre 2016 e 2019, quando o governo promoveu um ajuste fiscal e a Selic caiu para 6%, com uma inflação média de 2,98% ao longo de quatro anos seguidos.
Quando o governo gasta menos do que arrecada, o Banco Central pode fazer milagres. Quando o governo estimula a economia sem parar, não há Selic que resolva.
O problema é que, em ano de eleição, o ajuste fiscal não acontece. E o resultado é que a autoridade monetária segue sendo obrigada a pousar e arremeter: corta um pouco agora e, mais adiante, acaba sendo forçada a subir de novo.
É o pouso arremetido da política monetária brasileira.
Cenário macro: petróleo, inflação e juros globais
Tem um ponto sobre commodities que considero fundamental para entender o cenário e que tem sido pouco discutido.
O mercado passou muito tempo com a tese de que o petróleo estava em sobreoferta, com o barril podendo cair para US$ 50. Mas, se havia de fato sobreoferta, por que a instabilidade no Oriente Médio causou um impacto tão grande nos preços?
Quando Israel e Hamas entraram em guerra, o petróleo mal se mexeu. Agora, com o conflito mais amplo, o movimento foi expressivo. Ao mesmo tempo, os estoques de petróleo dos países consumidores estão caindo. Isso não é sobreoferta; isso é um equilíbrio apertado.
Some a isso a demanda crescente por energia por conta da expansão dos data centers e da inteligência artificial. As energias renováveis têm limitações estruturais de intermitência, e a energia nuclear está cercada de restrições geopolíticas e regulatórias.
O resultado é que podemos estar diante de um choque estrutural de preço de commodities energéticas, não temporário. E commodities estruturalmente mais caras significam inflação estruturalmente mais alta, o que reduz o espaço para cortes de juros no mundo todo — inclusive nos Estados Unidos, que mantiveram o juro entre 3,5% e 3,75%.
Mas tem um lado positivo nesse cenário para o Brasil. Somos exportadores de petróleo, minério, terras raras e alimentos. Exportamos exatamente o que pode subir de preço.
Além disso, somos neutros do ponto de vista geopolítico, o que nos torna uma alternativa de diversificação interessante para o capital estrangeiro em um mundo em guerra.
Por isso, o câmbio está tão comportado, com o dólar em R$ 5, mesmo com inflação alta e eleições chegando. Os gringos continuam vindo. Mas isso não resolve a nossa inflação interna.
Onde investir com a Selic em 14,5%
O cenário mudou. Em 2025, a expectativa era de um ciclo longo de queda de juros, com a Selic podendo chegar perto de 11%, o que abriria espaço para ganhos com marcação a mercado em títulos prefixados e IPCA+.
No entanto, a guerra enterrou esse cenário. Agora estamos em um ambiente de juros altos por mais tempo, inflação resistente e incerteza eleitoral. Isso muda completamente a lógica de alocação.
Prefixados: riscos no cenário atual
Evite ou mantenha uma posição muito pequena. Com um risco real de inflação mais alta e eleição pela frente, travar taxa em prefixado é uma aposta que pode virar contra você. Se a inflação subir para dois dígitos, como aconteceu em 2015 e 2021, um prefixado de 13,5% vai render bem abaixo da inflação. Para quem tem apetite ao risco e quer uma pequena posição tática, tudo bem, mas que seja uma fatia pequena da carteira.
IPCA+: foco no carrego
Boa alternativa pelo carrego, não pela marcação a mercado. IPCA mais 7,5% está nas máximas históricas e é uma taxa excelente para travar a longo prazo. Só que o cenário de ganho expressivo com marcação a mercado ficou muito mais vago. A tese agora é de carrego: receber esse juro real alto por anos. Minha recomendação é o meio da curva, via Tesouro Direto e não via ETF de IPCA+. O ETF nunca vence, o título sim. No Tesouro Direto, você trava a taxa até o vencimento. No ETF, se os juros subirem um pouco a cada ano, você vai ter marcação negativa permanente.
Pós-fixado: melhor opção no curto prazo
Excelente para o momento. Com a Selic a 14,5% e sem perspectiva de queda acelerada, ficar no Tesouro Selic é uma opção muito boa. Prefiro o Tesouro Selic ao fundo Selic simples, porque este último tem come-cotas: você paga imposto de renda a cada seis meses. Em um Tesouro Selic de 9 ou 10 anos, o pagamento do imposto é feito só no resgate. O efeito dessa diferença, feita a conta, é de aproximadamente R$ 30 mil a mais a cada R$ 100 mil investidos ao longo de nove anos. E tem liquidez diária, com resgate no mesmo dia, se pedido até às 10h.
Crédito privado: risco elevado
Evite. Com a Selic a 15%, o número de recuperações judiciais dobrou de um ano para o outro. GPA, Raízen, Braskem e outras grandes empresas estão com dificuldade de rolar dívida. A inadimplência das pessoas físicas está nas máximas históricas. E, por incrível que pareça, os spreads do crédito privado estão nas mínimas históricas, porque os bancos continuam empurrando esse produto para seus clientes e o excesso de demanda comprime o prêmio. Ou seja: você está correndo risco alto com prêmio baixo. Se houver default, você não perde a rentabilidade. Você perde todo o capital investido. Não é o momento para isso.
Fundos imobiliários: oportunidade
Minha preferência no momento. Os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) estão pagando IPCA mais 8,5% ao ano, com isenção de imposto de renda nos proventos mensais, contra IPCA mais 7,5% do Tesouro, com tributação. Além disso, muitos fundos estão sendo negociados com desconto em relação ao valor patrimonial, o que significa que você compra o ativo abaixo do preço dos imóveis que ele tem dentro. Se tudo der errado, você tem um imóvel como lastro: um galpão logístico, um shopping, um prédio corporativo. No crédito privado, se der default, acabou. É uma relação risco-retorno muito mais favorável nesse cenário.
Bolsa brasileira: espaço limitado
Não é minha preferência agora. O Ibovespa está perto de 200 mil pontos, o Equity Risk Premium, que é o quanto a Bolsa rende a mais do que a renda fixa para compensar o risco, está nas mínimas históricas. Se a Selic não cair, o upside da Bolsa fica muito limitado. Prefiro ficar no juro ou nos fundos imobiliários, que pagam mais e com menos risco.
Conclusão
O Copom cortou a taxa Selic. O mercado já esperava. Mas o comunicado ignorou dados que um Banco Central comprometido com a meta de inflação não ignoraria: atividade acelerando, inflação acelerando, expectativas desancoradas. E, ainda assim, a instituição age como se estivesse tudo sob controle.
Para o investidor, a mensagem é clara: o ciclo de queda será menor e mais lento do que se imaginava. O carrego alto deve durar mais. Ajuste sua carteira para atravessar esse cenário com inteligência — não para torcer por um que não aconteceu.

