Copom corta Selic para 13,75%: por que o comunicado não mudou quase nada
No mesmo dia em que o Fed subiu juros, o Copom cortou a Selic para 13,75%. Entenda o que esse descompasso significa para seus investimentos
O Banco Central bateu ponto, mas esqueceu de trabalhar. Depois de uma leitura detalhada do comunicado do Copom, a conclusão é simples: o texto se repete quase palavra por palavra em relação à reunião anterior, como se alguém tivesse apenas trocado a data e mandado publicar de novo.
Mas é justamente por isso que vale a pena destrinchar esse comunicado. Ele foi rápido de ler, mas o que revela (e o que esconde) diz muito sobre os próximos passos da política monetária brasileira.
Selic cai para 13,75%: por que o corte é simbólico
O Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75%, exatamente como o mercado esperava. Nenhuma surpresa aí. A pergunta que interessa nunca é "quanto caiu", é "o que o comunicado sinaliza sobre o próximo passo".
Vamos lá: 0,25 p.p. não muda a vida de ninguém. A empresa que tinha dificuldade para se financiar com Selic a 15% continua tendo dificuldade com Selic a 13,75%. Essa é, na prática, a menor queda histórica dentro de um ciclo de corte de juros — os ciclos anteriores normalmente vinham em passadas de 0,50 p.p. Isso é sintoma de que, no fundo, talvez nem devesse estar cortando.
Enquanto o Banco Central insiste nesse corte simbólico de curto prazo, o juro longo brasileiro está subindo, e a expectativa de inflação de longo prazo também. Traduzindo: o mercado está dizendo para o Banco Central: "Você está cortando o juro curto, mas isso não vai ser suficiente para controlar a inflação de longo prazo e, em algum momento, você vai ter que voltar a subir".
Hoje, a Selic está em 13,75%, mas o juro de longo prazo já embute algo perto de 14,50%. O mercado está precificando uma alta futura, enquanto o BC segue cortando. Isso não é normal.
E aqui vale explicar por que isso importa para a vida das pessoas: quem pega empréstimo não pega no overnight, pega em cinco, dez anos. Então, o que impacta o crédito, o financiamento das empresas e a atividade econômica real é o juro longo, não a Selic do dia a dia.
Do ponto de vista prático, esse corte simbólico não está fazendo muita coisa pela economia real. A única coisa que ele de fato reduz é o custo da dívida pública, porque boa parte dela (LFT, Tesouro Selic) está atrelada à Selic.
Quando o Banco Central mantém o juro artificialmente mais baixo e isso gera mais inflação, alguém paga essa conta. E quem paga é o cidadão, por meio da perda do poder de compra.
Cada real de juro recebido da dívida pública vale um pouco menos na hora de gastar. O investidor recebe o cupom, mas, no supermercado, ele compra menos carne, menos café, menos azeite. É uma transferência de riqueza silenciosa.
O cenário externo: por que o Fed subiu juros no mesmo dia
Aqui está o trecho que mais chama atenção no comunicado. O Copom manteve, palavra por palavra, o parágrafo dizendo que o ambiente externo "permanece incerto" por conta da indefinição dos conflitos no Oriente Médio e da "incerteza sobre a política monetária de algumas economias avançadas".
Só que, no mesmo dia da reunião do Copom, o Fed também se reuniu e subiu os juros americanos em 0,25 p.p.
Não é incerteza, é certeza. As economias desenvolvidas (Estados Unidos, Europa, Japão) estão todas em ciclo de alta de juros, preocupadas com o poder de compra da própria população. Enquanto isso, o Brasil está na contramão, cortando.
Vale um adendo: 0,25 p.p. para o Fed é relevante, porque a taxa de juro americana está na casa de 3,75% a 4%; lá, isso pesa. Aqui, com juro em dois dígitos, 0,25 p.p. quase não faz cócegas.
O ponto é: quando um banco central sobe juros para reforçar credibilidade, o juro curto sobe, mas o juro longo tende a cair, porque o mercado acredita que a inflação será controlada. O Brasil está fazendo o caminho inverso: cortando o curto e vendo o longo subir, porque ninguém está comprando a história de que a inflação está sob controle.
Essa dinâmica também pode pressionar o câmbio: com o diferencial de juros caindo, o apetite por risco Brasil cai junto, ainda mais em ano pré-eleitoral. Estamos sendo ajudados, por ora, pela balança comercial positiva, puxada pelo petróleo em alta, mas eu não colocaria essa âncora como garantia contra uma desvalorização cambial mais à frente.
Atividade econômica e inflação: o que mudou no comunicado
O único trecho de fato alterado no comunicado foi o doméstico. E, mesmo assim, para dizer basicamente: a atividade está desacelerando, mas ainda está resiliente. Estamos rodando perto de 1,5% de crescimento — que é, a grosso modo, o crescimento natural da economia brasileira.
Para gerar uma desinflação de verdade, seria preciso um crescimento perto de zero (ou negativo, como na pandemia ou em 2014-2015). Não é esse o cenário. Então, não faz sentido esperar um ciclo de corte mais agressivo; o que vier, se vier, vai ser "a conta-gotas", igual a esse.
O mercado de trabalho segue aquecido, desemprego nas mínimas históricas, o que também não bate com a narrativa de "juro caindo porque a economia esfriou". Isso acontece porque o governo não para de injetar estímulo e crédito na economia.
Sobre a inflação: o IPCA-15 veio negativo, de -0,40%. Mas a inflação não mede se o preço está caro ou barato, mede se ele está subindo ou não.
Se a carne foi de R$ 40 para R$ 80, a inflação foi de 100%; se no mês seguinte continua em R$ 80, a inflação cai para zero, mas a carne não ficou mais barata, só parou de subir. Então essa deflação pontual não significa "tá tudo baratinho", significa apenas que parou de acelerar naquele mês. E, quando você olha o acumulado em 12 meses, a inflação ainda está bem próxima do teto da meta (4,5%), longe do centro.

A projeção que sustenta o corte — e por que ela é frágil
O Banco Central está justificando o ciclo de corte com uma projeção de inflação de 3,2% para o primeiro trimestre de 2028, ou seja, quase dois anos à frente. É muita areia para pouco caminhão.
Além disso, tem um problema de credibilidade aqui: essa forma de olhar a meta "lá na frente" (horizonte móvel) começou em 2023 e, desde então, o Banco Central não cumpriu a meta de inflação nenhuma vez. Usar uma projeção distante e historicamente furada para justificar cortes agora é, no mínimo, um exercício de fé.
As expectativas de inflação do próprio mercado (pesquisa Focus) estão em 4,9% para este ano e 4,3% para o ano que vem, ambas rodando no topo da banda ou acima dela. Não estão nem perto do centro da meta. Não é um cenário que pede corte de juros.
O comunicado ainda reconhece que os riscos seguem "altistas" — mas, mesmo assim, segue cortando. E sobre a desancoragem das expectativas? Ele "monitora com atenção". Só monitora. Sabe que está desancorando, vê acontecendo, e não faz nada. Um pouco como quem vê o errado na sua frente e finge que não viu.
O Copom sinalizou mais cortes de juros?
Uma das perguntas mais comuns sobre essa reunião é: o Copom sinalizou mais cortes para frente? A resposta é: não sinalizou nada explicitamente, mas também não disse que ia parar.
O comunicado manteve a frase de sempre: "Os próximos passos vão depender da evolução do cenário macroeconômico". Se o Copom quisesse fechar a porta para novos cortes, teria dito isso com todas as letras. Não disse. Então a porta segue aberta.
O que isso significa para sua carteira
Aqui é onde eu quero que vocês prestem atenção de verdade.
Não vamos ter um ciclo de corte longo, tipo o de 2016-2019 (quando a Selic saiu de 14,25% e foi a 6%, e o juro longo saiu de 17% e foi a 6% — aquela marcação a mercado maravilhosa que todos nós aproveitamos). Não tem ambiente para isso agora.
Se o Banco Central tentasse forçar a barra e derrubar a Selic de verdade, o juro longo e o câmbio disparariam na mesma hora. Ele não tem moral para fazer esse movimento hoje.
Então, quem está esperando comprar prefixado para "pegar marcação a mercado" pode tirar o cavalinho da chuva. Não vai rolar, pelo menos não com as informações que temos hoje.
Juro alto por mais tempo é ruim, principalmente, para dois grupos: empresas alavancadas e pessoas físicas endividadas.
Isso ficou visível recentemente com nomes como Raízen, GPA, Marisa, Casas Bahia e Braskem — companhias que já vinham endividadas, mas que perderam a capacidade de rolar a dívida justamente porque o custo dela ficou alto demais e comeu o resultado.
O crédito privado que virou ponto cego nas carteiras
Isso me leva ao ponto que mais me deixa de cabelo em pé quando analiso carteiras: praticamente todas as carteiras que chegam até nós na Nord Wealth estão entupidas de crédito privado — CRI, CRA, debênture, fundo de crédito.
O mais absurdo é que, nesse cenário macro desafiador, os spreads de crédito (o quanto recebe a mais por tomar esse risco) estão nas mínimas históricas. Ou seja: você está tomando mais risco e sendo remunerado cada vez menos por isso. Não faz o menor sentido.
Isso acontece porque quem te vende esses produtos muitas vezes está pensando em "o que eu tenho de produto para empurrar hoje", e não em "o que o cenário macro pede agora".
Cuidado redobrado também com CDB de banco pequeno/médio de prazo mais longo, porque o FGC está mal estruturado e, em caso de problema, não é garantido que ele consiga honrar tudo.
Importante: CDB de liquidez diária, 100% do CDI, de banco grande (Itaú, Bradesco, BB, Caixa) não entra nessa crítica. Isso é reserva de oportunidade, praticamente um Tesouro Selic. O alerta é para crédito privado travado, de prazo longo, de emissor que você nunca ouviu falar.
Recomendação da Nord para renda fixa agora
A recomendação da Nord para renda fixa neste momento: pós-fixado para segurança (o rendimento não é alto, mas também não há perda com marcação, só uma erosão leve pela inflação) e títulos IPCA+ do Tesouro Direto — não ETFs de renda fixa longa — para proteção.
Um ponto de atenção: o IPCA+ funciona bem quando comprado para ser levado até o vencimento, com prazo que faça sentido para a vida do investidor. Comprar um IPCA+ 2060 sem saber se estará vivo para ver o vencimento não é proteção, é especulação disfarçada. Além disso, ETF de renda fixa longa (tipo IMA-B) não serve para travar taxa, porque o fundo nunca vence. O gestor está sempre vendendo o título mais curto e comprando um mais longo, então o investidor está sempre exposto à marcação a mercado e nunca garante a rentabilidade contratada.
Como a eleição de 2026 pode mudar esse cenário
Tudo o que foi descrito até aqui pode mudar completamente dependendo do resultado das eleições. Essa é a decisão mais importante de alocação para os próximos meses.
Cenário 1 — Lula reeleito: o quadro que descrevi se mantém. Juro alto por mais tempo, fiscal pressionado, inflação no topo da banda, dívida pública subindo, dólar sob pressão. Nesse cenário, sigo evitando crédito privado e prefixado.
Cenário 2 — um candidato com plataforma mais fiscalista se elege: aí o jogo muda. Ganho de credibilidade fiscal e monetária, o Banco Central (nesse cenário, sem motivo para "ajudar" o governo) pode até suspender o ciclo de corte. O mercado passaria a enxergar a Selic podendo ir para um patamar bem mais baixo, tipo 9%. Nesse mundo, o prefixado é o grande vencedor, porque aí sim faz sentido se posicionar para ganho de marcação a mercado.
Por que não vale a pena apostar em um candidato
Uma pergunta recorrente é: "Então, qual cenário eu escolho?".
A resposta que eu dou para mim mesma é: eu não escolho. Eu opero por probabilidade.
Se a chance de um candidato ganhar fosse muito assimétrica (tipo 90% x 10%), eu montaria a carteira do lado mais provável. Mas hoje as pesquisas estão em um cenário de praticamente 50-50, e apostar 50-50 não é investir, é jogar uma moeda para cima. Cara ganha, coroa perde. Isso é cassino, não é gestão de patrimônio.
Eu já vivi isso em 2014, Dilma x Aécio, outro cenário de eleição acirrada, tentando operar cada pesquisa que saía, e posso dizer que foi um dos anos em que mais perdi dinheiro tentando "tradar" eleição. Aprendi a lição: não se opera jogando moeda para cima.
Por isso, minha escolha (e é o que estamos fazendo para os clientes da Nord Wealth agora) é simplesmente não participar dessa aposta binária: manter o dinheiro mais líquido, sem travar em crédito privado, com pouca exposição a componentes prefixados, e com uma parcela relevante do patrimônio no exterior, descolada desse rojão eleitoral brasileiro.
Isso significa abrir mão do primeiro movimento caso o resultado seja favorável. A Bolsa pode abrir com gap, o juro pode cair com gap, o real pode se valorizar de uma vez, e esse primeiro movimento pode ser perdido. Mas ainda restam quatro anos de ciclo pela frente para fazer o "catch up" já sabendo o resultado, em vez de arriscar entrar errado em uma aposta de moeda.
Se a volatilidade te incomoda
Para quem sente o estômago embrulhar vendo os ativos de risco oscilando (e isso é a grande maioria de nós, não tem vergonha nenhuma nisso), minha recomendação é aproveitar esse momento de alta que a Bolsa vem tendo, puxado pelo movimento nas pesquisas eleitorais, para reduzir um pouco o risco da carteira agora, antes da eleição, e só voltar a aumentar risco depois, com o cenário estrutural dos próximos quatro a oito anos mais claro.
É exatamente isso que estamos fazendo aqui para os clientes da Nord Wealth: diminuindo a exposição, ficando mais leves, para depois decidir com mais informação.
O que fica desse Copom
Resumindo esse comunicado preguiçoso: o Banco Central cortou 0,25 p.p. de forma simbólica, manteve o texto praticamente idêntico ao anterior, ignorou que o resto do mundo desenvolvido está subindo juros, usou uma projeção de inflação frágil e distante para justificar o corte e deixou a porta aberta para mais cortes sem se comprometer com nada.
Isso pede uma carteira mais cautelosa: fugir de crédito privado, evitar prefixado por enquanto, priorizar pós-fixado e IPCA+ do Tesouro Direto levado ao vencimento e, acima de tudo, não apostar na eleição como se fosse cara ou coroa.
Uma segunda opinião sobre a sua carteira
Se você tem patrimônio acima de R$ 1 milhão e quer entender se a sua carteira está exposta aos pontos que levantei aqui, a primeira reunião com a Nord Wealth não tem custo: a gente olha seu portfólio, mostra o que gosta e o que não gosta, sem nenhum compromisso. É só mandar mensagem.
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