Copom corta juros, mas reconhece riscos de inflação: a contradição por trás da decisão

O Copom cortou a Selic para 14%, mas reconheceu riscos de inflação em alta. Entenda a contradição — e por que ainda não é hora de aumentar risco

Marilia Fontes 06/08/2026 10:00 6 min
Copom corta juros, mas reconhece riscos de inflação: a contradição por trás da decisão

Quem acompanha o mercado financeiro sabe que toda reunião do Copom parece uma final de campeonato. As manchetes aparecem em segundos, as redes sociais se enchem de opiniões e, quase imediatamente, surge a pergunta que todo investidor faz: "E agora?"

Ontem, 5 de agosto, o Banco Central (BC) respondeu parte dessa pergunta. Reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano, exatamente como o mercado esperava.

Mas, para mim, essa foi a parte menos interessante da reunião.

Quando o Copom divulga sua decisão, ele entrega um diagnóstico da economia brasileira. É como um médico que, antes de prescrever um tratamento, explica o estado de saúde do paciente. Foi justamente aí que encontrei uma contradição.

O diagnóstico do Copom: o que o comunicado reconheceu sobre a inflação

Ao longo do comunicado, o BC reconhece praticamente tudo aquilo que justificaria cautela. Diz que o ambiente internacional continua incerto. Reconhece que o mercado de trabalho permanece aquecido. Admite que a inflação de serviços continua elevada. Afirma que as expectativas de inflação seguem acima da meta e, pela primeira vez em bastante tempo, reconhece explicitamente que os riscos para a inflação têm assimetria predominantemente de alta.

Até aqui, o diagnóstico faz sentido. É exatamente assim que eu penso. O problema é que, depois de listar todos esses fatores, a decisão foi seguir reduzindo a taxa de juros.

Não estou dizendo que um corte de 0,25 ponto seja necessariamente um erro. Política monetária nunca é uma ciência exata. Economistas adoram responder "depende", e, desta vez, eu também preciso responder assim. O meu incômodo não está no tamanho do corte, mas na coerência entre o diagnóstico e a decisão.

Para entender isso, vale voltar um passo.

Por que nem toda inflação exige juros mais altos

Existe uma ideia muito difundida de que qualquer aumento de preços exige uma resposta imediata do Banco Central. Mas isso não é verdade. Nem toda inflação merece juros mais altos.

Imagine que uma guerra interrompa a produção de petróleo e o barril dispare. A gasolina sobe, o frete sobe e vários produtos ficam mais caros. Isso é um choque de preços. 

Aumentar a Selic não faz uma guerra acabar nem aumenta a oferta de petróleo no mundo. Por isso, bancos centrais normalmente evitam reagir automaticamente a esse tipo de evento.

O problema começa quando esse choque deixa de ser temporário e passa a contaminar o restante da economia.

Quando empresas começam a reajustar preços porque acreditam que a inflação continuará elevada. Quando trabalhadores pedem aumentos salariais para recompor o poder de compra. Quando contratos de aluguel, serviços e fornecedores passam a incorporar essa inflação futura. É isso que os economistas chamam de efeitos de segunda ordem, justamente o ponto mais delicado do Brasil.

Indexação, mercado de trabalho e credibilidade: por que o Brasil é diferente

Nossa economia é altamente indexada. Quase tudo possui algum mecanismo de reajuste automático. Além disso, o desemprego continua muito baixo. Em um mercado de trabalho apertado, empresas precisam oferecer salários maiores para contratar pessoas, e isso acaba alimentando a inflação de serviços, justamente a parte mais persistente do índice de preços.

É por isso que controlar as expectativas de inflação é tão importante.

Quando um banco central possui credibilidade, basta sinalizar que fará o necessário para cumprir a meta. O mercado acredita na mensagem, as expectativas permanecem ancoradas e o custo de controlar a inflação é muito menor.

Foi exatamente isso que vimos diversas vezes nos Estados Unidos. Diante dos riscos recentes, o Federal Reserve adotou um discurso bastante duro e disse que deve subir os juros americanos nas próximas reuniões. O resultado foi que as expectativas de inflação de longo prazo continuaram próximas da meta, mesmo diante do choque provocado pelo petróleo.

No Brasil, infelizmente, aconteceu o oposto.

As expectativas para os próximos anos continuam se afastando da meta de inflação. E o mais curioso é que o próprio Banco Central reconhece isso no comunicado. 

A autoridade monetária afirma que acompanha atentamente a desancoragem adicional das expectativas, justamente porque isso aumenta o custo de trazer a inflação de volta para a meta.

Essa, para mim, foi a frase mais importante de toda a decisão.

Porque, se o próprio Banco Central reconhece que as expectativas continuam piorando, fica natural perguntar por que escolheu iniciar um ciclo de flexibilização justamente agora?

O Copom vai cortar juros de novo? O que o comunicado sinaliza

Outro ponto que chamou minha atenção foi a sinalização para as próximas reuniões.

Muita gente interpretou o comunicado como o encerramento do ciclo de cortes. Eu não tive essa leitura.

É verdade que o texto ficou um pouco mais duro do que o anterior. O Copom reconheceu explicitamente a assimetria altista dos riscos e reforçou diversas vezes a necessidade de cautela. Mas, ao mesmo tempo, evitou dizer que pretende interromper os cortes para observar os efeitos da política monetária. Preferiu afirmar que continuará acompanhando a evolução do cenário.

Pode parecer uma diferença pequena, mas, em comunicação de Banco Central, palavras importam muito.

Se a intenção fosse fechar completamente a porta para novas reduções, acredito que o comunicado teria sido mais explícito. Ao optar por um texto dependente dos próximos dados, o Copom deixou uma pequena janela aberta para mais um corte, caso a inflação continue melhorando e o cenário externo permaneça benigno.

Talvez aconteça. Talvez não. Mas eu ainda não vejo elementos suficientes para dizer que o Brasil entrou em um novo ciclo estrutural de juros baixos.

O que o corte da Selic muda para o investidor

Há alguns anos, quando a Bolsa brasileira negociava a múltiplos historicamente baixos, eu defendia aumentar o risco. Naquele momento, o investidor estava sendo muito bem remunerado para enfrentar as incertezas. Atualmente, a situação é diferente.

A Bolsa já voltou para patamares próximos da sua média histórica, enquanto a economia continua convivendo com juros elevados, aumento das recuperações judiciais e um ambiente fiscal que ainda inspira cautela. Não acho que seja o momento de aumentar a exposição apenas porque a Selic caiu 0,25 ponto.

Continuo preferindo uma carteira construída sobre uma base sólida de renda fixa, complementada por ativos que realmente oferecem uma boa relação entre risco e retorno.

Gosto dos fundos imobiliários de tijolo, que continuam negociando com descontos relevantes.

Em relação ao crédito privado, sigo desconfortável, especialmente em um momento em que as empresas ainda enfrentam um custo financeiro elevado e os spreads permanecem excessivamente comprimidos. 

Também continuo acreditando que patrimônio relevante deve ser diversificado internacionalmente. Sem contar que a concentração geográfica raramente é uma boa estratégia quando falamos de patrimônio.

No fim das contas, a queda da Selic só é uma boa notícia quando vem acompanhada de um cenário de inflação benigno e de credibilidade nas políticas fiscal e monetária. Caso contrário, a redução da Selic não provoca redução dos juros longos, o que não alivia os mercados. E essa é mais ou menos a situação atual.

Se você quer entender como esse cenário de juros e inflação afeta sua carteira, converse com a equipe do nosso Wealth.

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