O que 100 dias de Amyr Klink no Atlântico ensinam sobre FIIs e volatilidade

Amyr Klink cruzou o Atlântico Sul sozinho, em um barco feito para virar (e se levantar). A engenharia da travessia ensina uma lição sobre FIIs

Otmar Schneider 07/09/2026 08:00 8 min
O que 100 dias de Amyr Klink no Atlântico ensinam sobre FIIs e volatilidade

Essa história começa em 1984. Um brasileiro de 27 anos decidiu fazer algo que ninguém, em toda a história da navegação, havia conseguido fazer: atravessar o Atlântico Sul sozinho, a remo, sem motor, sem vela, sem apoio de nenhuma espécie. Da Namíbia até a Bahia. Mais de 6 mil quilômetros de água salgada entre ele e o próximo pedaço de terra firme.

O nome dele é Amyr Klink. A travessia levou pouco mais de 100 dias e o relato que ele escreveu depois, "Cem Dias entre Céu e Mar", virou um dos livros mais lidos da literatura de aventura brasileira. 

Não apenas por causa do recorde em si, que foi espetacular, mas por causa de uma decisão de engenharia, tomada meses antes de a viagem começar.

E essa decisão carrega uma das lições mais importantes que eu conheço sobre dinheiro, medo e paciência.

Hoje eu quero te contar essa história com calma. Porque ela é, ao mesmo tempo, sobre um barco de menos de seis metros no meio do oceano e também sobre a sua carteira de fundos imobiliários. 

As duas coisas têm mais em comum do que parece.

O barco perfeito que não existe

Antes de zarpar, Klink passou meses obcecado por uma única pergunta: como construir o barco perfeito, que não capotasse no meio do Atlântico?

Foram dois anos de planejamento, e esse era um ponto crucial.

Faz todo sentido, à primeira vista. Um barco de seis metros, sozinho, em meio a ondas que no Atlântico Sul podem ultrapassar facilmente essas dimensões em altura e fúria, era uma das coisas mais assustadoras que um ser humano poderia se propor a enfrentar. 

A reação mais racional do mundo é: então vamos construir um casco tão estável, tão bem lastreado, tão robusto, que ele simplesmente nunca vire!

O problema é que, após meses de estudos, desenhos e protótipos, essa embarcação perfeita não saía do papel. 

Todo projeto de barco "invirável" esbarrava no mesmo beco sem saída: ou ficava pesado e lento demais para ser remado sozinho por milhares de quilômetros, ou resolvia o problema da estabilidade criando outros problemas, igualmente fatais. 

Buscar a imunidade total ao tombo produzia, paradoxalmente, um barco mais frágil.

Existe uma verdade desconfortável escondida nesse impasse, e ela vale para o oceano tanto quanto vale para os seus investimentos: em ambientes voláteis, a segurança absoluta não é uma opção de design; é uma fantasia

Tentar projetar a perfeição custa caro: em peso, em velocidade, em tempo, em dinheiro parado, pois, lá fora, o mundo continua se movendo.

O joão-teimoso do Atlântico

Foi nesse impasse que Klink recorreu a José Carlos Fúria, engenheiro naval do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo. A resposta que ele trouxe é, até hoje, a parte da história que mais me fascina.

Fúria olhou para o problema e virou a pergunta de cabeça para baixo — um gesto que, algumas semanas depois, o oceano repetiria de verdade. Em vez de perguntar: "Como faço um barco que nunca capote?", ele perguntou: "E se eu parar de lutar contra o capotamento e desenhar um barco que sabe capotar bem?".

Não é sobre fugir da volatilidade do mar, mas sobre sobreviver a essa volatilidade e chegar do outro lado.

A solução não foi tornar o barco imune à instabilidade do mar. Foi torná-lo um parceiro dela. O casco foi construído em madeira laminada, colado com resina epóxi, vedado com borracha de geladeira e leve o suficiente para ser remado por um homem só. 

A simplicidade pode ser sinônimo de sofisticação.

O barco foi preparado para ser virado pelas ondas quantas vezes fosse necessário e se descapotar sozinho depois, como aquele brinquedo de infância que todos nós já empurramos pelo menos uma vez: o joão-teimoso. Você o derruba, ele se levanta. 

Reflita sobre a elegância disso. Em vez de gastar toda a engenharia e todo o dinheiro disponíveis tentando anular a variável mais selvagem do problema, Fúria e Klink gastaram a engenharia inteira ensinando o barco a conviver com ela. 

O mar ia continuar imprevisível; isso jamais mudaria. O que poderia mudar era a relação do barco (e do capitão) com essa imprevisibilidade.

Dezenove vezes de cabeça para baixo

Só no primeiro mês de viagem, o I.A.T. (barco de Klink) capotou dezenove vezes. Dezenove vezes em trinta dias, um sujeito sozinho no meio do Atlântico Sul, sendo virado de cabeça para baixo.

Ele não eliminou a volatilidade ajustando a teoria. Ele reduziu o custo dela ajustando a prática, tombo após tombo, com os dados que o próprio oceano ia entregando a cada capotamento.

Essa é, para mim, a parte mais honesta da história. Não existiu um único momento de epifania em que o barco parou de capotar. Existiu uma curva de aprendizado, feita inteiramente dentro da própria tempestade, em que cada capotagem virava informação, e a informação tornava o capitão mais eficiente em se reerguer da próxima vez.

Compare isso com o instinto do investidor médio diante da primeira queda relevante na cota de um fundo imobiliário. A reação natural é tratar a queda como uma falha do sistema, algo que não deveria estar acontecendo. 

Klink e Fúria fizeram exatamente o oposto: trataram o tombo como parte do design, não como uma falha dele. Foi justamente por aceitar essa premissa que o barco chegou inteiro à Bahia, enquanto praticamente todo projeto concorrente, obcecado em evitar o tombo a qualquer custo, nunca saiu do estaleiro.

O sextante: navegar sem saber o que vem depois

Tem um detalhe da viagem que fez o desafio ser ainda maior: Klink não tinha nenhum sistema eletrônico de navegação. Ele guiava o barco usando um sextante, um instrumento que existe, essencialmente, sem grandes mudanças, desde o século 18.

Você mede o ângulo entre o horizonte e um astro (o Sol, de dia; uma estrela, à noite) e, com cálculo e uma tabela de referência, descobre a sua posição exata.

Repare na dobradinha entre o céu e o mar que dá nome ao livro. O mar era o ambiente caótico, instável, imprevisível, o lugar de onde vinha o perigo. O céu, paradoxalmente, era o lugar da certeza. Os astros não negociam, não entram em pânico, não capotam.

Foi olhando para cima, para o que era estável e previsível, que Klink conseguia calcular, com confiança, sua posição em meio ao que era instável e imprevisível.

Todo investidor de longo prazo precisa do seu próprio sextante. Não existe forma de prever a próxima queda do IFIX, o próximo susto político, a próxima manchete de recuperação judicial de um inquilino relevante.

Isso é o mar, e o mar sempre vai ser imprevisível, ponto final. Mas existe o sextante dos FIIs. Uma bússola estável para se guiar em meio ao caos: os fundamentos. A vacância física, a qualidade dos contratos, a localização e padrão construtivo dos imóveis, o time de gestão. 

Isso segue sua órbita, ano após ano, quase indiferente ao humor do mercado no curto prazo. É justamente aí que mora a diferença entre navegar de olhos vendados e navegar com instrumentos.

Por que uma carteira 100% imune à volatilidade não funciona 

Assim como o Klink dos primeiros meses de projeto, boa parte dos investidores brasileiros passa a vida inteira tentando construir o "barco invirável" das próprias finanças: uma carteira imune a qualquer oscilação, blindada contra qualquer notícia ruim, sem nenhuma chance de valer, em um dia qualquer, menos do que valia ontem. 

E, assim como os primeiros protótipos de Klink, esse barco também não sai do papel. Quando sai, chega pesado e lento demais para uma viagem em que o tempo não perdoa atrasos.

Você já viu esse barco de verdade. Ele se chama renda fixa. E ele não é um mau porto, muito pelo contrário. Para o dinheiro de curto prazo, para a reserva de emergência, ele é exatamente o lugar certo. No entanto, usado como destino final do patrimônio inteiro, ele tem um limite estrutural: sem volatilidade, sem exposição ao mar aberto, quase não existe capotamento, mas também não existe a chance real de multiplicar o patrimônio no ritmo que ativos de risco, geridos com critério, historicamente entregam.

Comprar FII na baixa é comprar o barco virado, que vai desvirar logo adiante.

Comprar na baixa não é sorte nem coragem cega. É a recompensa de quem projetou a própria carteira, com antecedência, para sobreviver e se beneficiar do momento em que ela vira.

Quem constrói o barco invirável nunca vai estar posicionado para aproveitar esse instante. Ele vai estar em terra firme, olhando o mar de longe, justamente enquanto os outros barcos estão lá fora, aproveitando cada onda que os concorrentes têm medo de enfrentar.

Tirando o barco do estaleiro

Amyr Klink podia ter desistido da travessia. Podia ter aceitado, como quase todo mundo aceita, que o risco de capotar no meio do Atlântico Sul era suficiente para nunca zarpar. 

Em vez disso, ele e Fúria fizeram algo mais raro: olharam diretamente para a coisa que mais assustava o projeto inteiro e desenharam um barco ao redor dela, em vez de tentar desenhar um barco que fingisse que ela não existia.

Essa é, no fundo, a essência da construção de patrimônio no longo prazo. As coisas que mais valem a pena na vida quase nunca vêm com garantia de estabilidade no caminho. Vêm com mar aberto, com capotagens previsíveis, embora inconvenientes, com dias em que o barco vira de cabeça para baixo e você precisa confiar que ele foi feito, com consciência, para se endireitar sozinho.

Fugir dessa volatilidade em nome de um conforto ilusório não é prudência. É deixar o barco no estaleiro para sempre, olhando outros navegadores partirem e chegarem, enquanto você discute, por décadas, o projeto perfeito que nunca vai sair do papel.

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