O Banco Central iniciou um ciclo de queda da Selic nas últimas reuniões, reduzindo a taxa em duas etapas: primeiro de 15% para 14,75% e depois para 14,5%. Mas o cenário macroeconômico mudou e os dados já levantam dúvidas sobre se esse movimento pode continuar. 

Sumário

O que mudou desde a última reunião do Banco Central?

O principal elemento que alterou o cenário foi a guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz

O conflito pressionou o preço do petróleo para cima, com efeitos em cadeia sobre fertilizantes, alimentos, frete e combustível de aviação. Esses fatores, juntos, passaram a influenciar diretamente as projeções de inflação no Brasil.

Expectativas de inflação estão piorando

A pesquisa Focus, que consolida as projeções do mercado financeiro, mostra que as expectativas de inflação subiram de forma expressiva a partir de fevereiro. 

A projeção para 2026, que estava próxima de 3,8%, já se aproxima de 5% — bem acima do teto da meta, que é de 4,5%. 

As estimativas para 2027 e 2028 também se afastaram do centro da meta de 3%, sinalizando que o problema pode não ser passageiro.

Quando as expectativas se descolam da meta por tanto tempo e em tantos horizontes, o Banco Central precisa avaliar se uma continuidade do ciclo de queda ainda faz sentido.

O Banco Central deveria parar de cortar juros?

Sim. Com inflação acima do teto da meta e expectativas se deteriorando, não há espaço para novas reduções da Selic. 

O mercado já revisou suas projeções: a expectativa de que a taxa pudesse cair até 12,5% foi descartada. As apostas agora apontam para uma Selic próxima de 14% ao longo do próximo ano, com probabilidade de ao menos mais uma queda residual de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, mas sem continuidade após isso.

Mercado reduz apostas de queda da Selic

As expectativas para a trajetória da Selic subiram de forma consistente. Para 2027, as projeções já foram de 11% para 11,25% em apenas um mês, e devem continuar subindo dependendo do desfecho da guerra, das eleições e da evolução da inflação. 

O mercado está dividido sobre o que o Banco Central fará na próxima reunião, com pouco mais de 50% de chance precificada para mais um corte de 0,25 ponto percentual.

PIB resiliente tira urgência de corte de juros

Outro fator que pesa contra novas reduções é a atividade econômica. As projeções de crescimento do PIB giram em torno de 1,75% a 2%, número considerado resiliente e possivelmente acima do PIB potencial brasileiro, estimado entre 1% e 1,5%. 

Quando a economia cresce bem, o Banco Central perde o argumento de que precisa estimular a atividade cortando juros.

O cenário atual se parece com 2014?

Há semelhanças. Em 2012, o Banco Central reduziu a Selic além do necessário, a inflação acelerou acima da meta e foi preciso retomar o ciclo de alta logo em seguida. Em 2014, às vésperas das eleições, o ciclo de alta foi interrompido — e só foi retomado depois. O resultado foi uma inflação ainda mais fora de controle nos anos seguintes. 

Hoje, o risco é parecido: um ciclo de queda que foi longe demais, expectativas se desancorando e uma possível hesitação do Banco Central por conta do calendário eleitoral.

Selic vai subir de novo? O que esperar

Os dados indicam que o movimento de queda deveria ser encerrado. Uma retomada do ciclo de alta seria, tecnicamente, a resposta mais adequada ao cenário atual — como ocorreu em 2016, quando o Banco Central manteve juros altos por mais tempo, ancorou as expectativas e abriu espaço para um dos maiores ciclos de queda da história recente, levando a Selic a 6,5%.

Na prática, porém, o Banco Central brasileiro tem demonstrado preferência por uma postura mais cautelosa do que agressiva. A avaliação é que novas altas são improváveis no curto prazo, mas que novas quedas também não cabem nesse cenário.

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