A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República provocou uma forte reação no mercado de renda fixa. As taxas dos títulos prefixados chegaram a subir cerca de 260 pontos-base (2,6 pontos percentuais), refletindo a mudança nas expectativas dos investidores para os próximos quatro anos.

Com os juros futuros novamente em patamares elevados, uma dúvida ganha importância: vale a pena manter os títulos prefixados ou chegou o momento de mudar a carteira de renda fixa?

A resposta depende do prazo dos investimentos, do risco fiscal e das perspectivas para a trajetória da dívida pública brasileira.

Neste cenário, nossa preferência é por uma combinação de títulos pós-fixados e indexados à inflação, com cautela adicional em relação aos prefixados de longo prazo.

Por que os juros prefixados subiram após a reeleição de Lula?

Para entender a alta dos juros após as eleições de 2026, é necessário observar o comportamento do mercado durante a corrida presidencial.

No início do ano, as taxas prefixadas já estavam em patamares elevados, oscilando entre 14% e 15% ao ano. Entretanto, conforme Flávio Bolsonaro avançava nas pesquisas eleitorais, as taxas começaram a recuar.

O movimento ganhou força após o primeiro turno, quando Flávio terminou à frente de Lula. Naquele momento, os juros prefixados chegaram a cair aproximadamente 150 pontos-base em um único dia.

A reação refletia a expectativa de que uma eventual mudança de governo pudesse trazer maior compromisso com o equilíbrio das contas públicas.

Entretanto, a vitória de Lula no segundo turno surpreendeu parte dos investidores e provocou uma reversão desse movimento.

As taxas prefixadas voltaram aos níveis elevados observados anteriormente, chegando a atingir aproximadamente 16% ao ano no primeiro pregão após o resultado eleitoral.

Portanto, a alta não representou necessariamente uma deterioração adicional do cenário econômico em relação ao início do ano, mas uma reversão das expectativas mais favoráveis que haviam sido incorporadas aos preços durante a campanha.

Como o risco fiscal afeta os juros da renda fixa?

O principal fator por trás da reação do mercado é a preocupação com a situação fiscal brasileira.

Quando o governo apresenta dificuldades para equilibrar receitas e despesas, os investidores passam a exigir uma remuneração maior para financiar a dívida pública.

Isso acontece porque uma trajetória de endividamento crescente aumenta a percepção de risco e pode comprometer a capacidade do governo de estabilizar suas contas no futuro.

Nos últimos anos, o cumprimento das metas fiscais tem sido um dos principais pontos de preocupação.

O arcabouço fiscal, apresentado em 2023, estabeleceu regras para o crescimento das despesas e metas para o resultado primário do governo. Entretanto, mudanças nas metas e resultados inferiores aos inicialmente projetados prejudicaram a confiança na trajetória de ajuste.

Após a reeleição de Lula, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, reforçou o compromisso do governo com o cumprimento da meta fiscal.

Apesar disso, a sinalização não foi suficiente para provocar uma queda expressiva e sustentada dos juros futuros.

O problema é que cumprir a meta fiscal não significa necessariamente estabilizar a dívida pública.

Para isso, seria necessário produzir resultados primários compatíveis com o crescimento da economia, o custo dos juros e o nível atual de endividamento.

Por que o crescimento da dívida pública preocupa os investidores?

A dívida pública brasileira está próxima de 82% do Produto Interno Bruto (PIB), em um ambiente de juros elevados e crescimento econômico relativamente baixo.

Essa combinação dificulta a estabilização do endividamento.

Enquanto o custo da dívida permanece elevado, a economia cresce em um ritmo insuficiente para compensar integralmente essa pressão.

Considerando um crescimento real do PIB próximo de 1,5% ao ano e inflação ao redor de 5%, seria necessário, nas condições consideradas, um superávit primário próximo de 2% do PIB para estabilizar a relação dívida/PIB.

Isso representa aproximadamente R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões, valores muito superiores aos resultados previstos nas metas fiscais mais modestas.

Mesmo um superávit de 0,5% do PIB, equivalente a cerca de R$ 70 bilhões nas estimativas utilizadas, seria insuficiente para interromper o crescimento da dívida. E as projeções de longo prazo reforçam essa preocupação.

Em um cenário de superávit primário médio de 1% do PIB, a dívida bruta poderia alcançar aproximadamente 105% do PIB em 2036, segundo a simulação considerada.

Essas projeções não representam um resultado inevitável, mas mostram a dimensão do ajuste necessário.

Quanto maior a dificuldade para estabilizar a dívida, maior tende a ser o prêmio de risco exigido pelos investidores.

Isso ajuda a explicar por que as taxas de juros podem permanecer elevadas mesmo diante de promessas de cumprimento das metas fiscais.

Vale a pena investir em títulos prefixados após as eleições?

Os títulos prefixados oferecem uma taxa de retorno conhecida no momento da aplicação, desde que sejam mantidos até o vencimento e o emissor cumpra suas obrigações. Entretanto, seu preço pode oscilar significativamente antes dessa data. Esse movimento é conhecido como marcação a mercado.

Quando as taxas de juros sobem, o preço dos títulos prefixados já emitidos tende a cair. Quando os juros recuam, acontece o contrário. É justamente essa dinâmica que exige atenção no cenário atual.

Com as taxas prefixadas próximas de 14% ao ano, poderia parecer interessante apostar em uma queda futura dos juros para 10%, por exemplo.

Se esse movimento acontecesse, os títulos prefixados poderiam apresentar ganhos relevantes de marcação a mercado.

O problema é que a probabilidade de uma queda dessa magnitude diminuiu diante das perspectivas fiscais para os próximos quatro anos. Por outro lado, não é possível descartar um cenário de deterioração adicional das contas públicas, com taxas avançando para 15%, 16% ou até 17% ao ano.

Nesse caso, os títulos prefixados, especialmente os de vencimento mais distante, sofreriam perdas de valor de mercado.

Por isso, não considero o momento adequado para assumir riscos elevados em títulos prefixados de longo prazo.

Vender ou manter os títulos prefixados que já estão na carteira?

A decisão depende principalmente do prazo de vencimento e da necessidade de utilizar o dinheiro antes dessa data.

Para quem possui títulos prefixados de curto prazo, manter o investimento até o vencimento pode ser uma alternativa razoável, desde que a taxa contratada continue adequada aos objetivos e o risco do emissor seja aceitável.

Nesse caso, as oscilações intermediárias de preço não alteram a remuneração nominal contratada.

A situação é diferente para quem possui títulos prefixados de longo prazo.

Esses papéis apresentam maior sensibilidade às mudanças nas taxas de juros, o que significa que pequenas alterações nas expectativas do mercado podem provocar oscilações relevantes no preço.

Diante das incertezas fiscais, minha preferência seria aproveitar eventuais recuperações de preço para reduzir a exposição a esses títulos.

Isso não significa que os prefixados necessariamente terão desempenho negativo.

Existe a possibilidade de ganhos caso o governo consiga melhorar a trajetória fiscal e os juros recuem.

Entretanto, a relação entre os riscos e os retornos potenciais tornou-se menos favorável, especialmente nos vencimentos mais longos.

Antes de vender, também é importante considerar o preço atual do título, o resultado acumulado, a tributação e os objetivos individuais da carteira.

Pós-fixados são uma boa opção para os próximos quatro anos?

Os títulos pós-fixados ganham relevância em um cenário de juros persistentemente elevados.

Diferentemente dos prefixados, sua remuneração acompanha um indicador de referência, como a taxa Selic ou o CDI.

Assim, se os juros permanecerem altos por mais tempo, esses investimentos poderão continuar oferecendo retornos nominais atrativos.

Além disso, títulos como o Tesouro Selic apresentam menor sensibilidade às oscilações das taxas de juros do que os prefixados longos, embora não estejam completamente livres de marcação a mercado.

Por isso, considero os pós-fixados uma parte importante da carteira de renda fixa neste momento. Entretanto, existe uma limitação que não pode ser ignorada.

Uma rentabilidade nominal elevada não garante, necessariamente, a preservação do poder de compra.

Se a inflação acelerar e os juros não acompanharem esse movimento, o retorno real dos investimentos pós-fixados poderá diminuir ou até se tornar negativo.

O Brasil já passou por uma situação semelhante.

Em 2012, a Selic foi reduzida para 7,25% ao ano, enquanto a inflação voltaria a acelerar nos anos seguintes, chegando a 10,67% em 2015.

Esse episódio mostra que uma política monetária excessivamente expansionista pode comprometer a rentabilidade real de aplicações vinculadas aos juros de curto prazo.

Portanto, embora os pós-fixados sejam importantes, concentrar toda a carteira nessa categoria pode deixar o investidor vulnerável à inflação.

Tesouro IPCA+ é uma alternativa para proteger o patrimônio?

Para complementar os pós-fixados, considero importante manter uma parcela da carteira em títulos indexados à inflação.

O Tesouro IPCA+ oferece uma remuneração composta pela variação do IPCA e por uma taxa real definida no momento da aplicação.

Isso significa que, ao manter o título até o vencimento, o investidor recebe uma rentabilidade vinculada à inflação acumulada, acrescida da taxa real contratada, antes de impostos e custos.

Essa característica permite preservar e aumentar o poder de compra do patrimônio, considerando o IPCA como referência de inflação. Entretanto, é necessário tomar cuidado com os prazos.

Assim como os prefixados, os títulos IPCA+ também estão sujeitos à marcação a mercado.

Quando as taxas reais de juros sobem, o preço desses títulos tende a cair. E quanto maior for o prazo até o vencimento, maior costuma ser a sensibilidade a essas oscilações.

Por isso, não considero adequado concentrar a proteção contra a inflação em títulos de vencimento excessivamente longo, especialmente quando existe a possibilidade de precisar vender antes do prazo.

Qual vencimento do Tesouro IPCA+ escolher?

Minha preferência está nos títulos de prazo intermediário, com vencimentos próximos de cinco anos. 

Um exemplo seria um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032. Esse prazo oferece duas características importantes: 

  • primeiro, permite capturar eventuais ganhos de marcação a mercado caso as taxas reais de juros apresentem uma queda relevante;
  • segundo, oferece um horizonte mais próximo para o vencimento, reduzindo a necessidade de manter um investimento por várias décadas para receber a rentabilidade contratada.

Assim, se o cenário econômico melhorar, existe a possibilidade de realizar ganhos antecipadamente.

Se o cenário piorar, o investidor que puder manter o título até o vencimento continuará tendo a remuneração real contratada, independentemente das oscilações intermediárias de preço.

Essa combinação torna os títulos IPCA+ intermediários particularmente interessantes no contexto atual, respeitando os objetivos e o horizonte de cada investidor.

Onde investir em renda fixa durante o novo governo Lula?

Diante da perspectiva de manutenção dos juros elevados e das incertezas sobre a trajetória fiscal brasileira, considero que a carteira de renda fixa deve priorizar dois grupos de investimentos: pós-fixados e títulos indexados à inflação.

Os pós-fixados permitem acompanhar os juros de curto prazo e oferecem maior estabilidade de preço, especialmente em instrumentos de baixa sensibilidade à marcação a mercado.

Já os títulos IPCA+ de prazo intermediário ajudam a proteger o poder de compra e podem oferecer ganhos adicionais caso as taxas reais de juros recuem.

Por outro lado, reduziria a exposição aos prefixados de longo prazo, que apresentam riscos mais elevados diante de uma possível deterioração das expectativas fiscais.

É importante destacar que essa estratégia não é definitiva.

Mudanças na condução da política econômica, novas medidas fiscais e alterações nas expectativas de inflação podem modificar completamente a atratividade relativa desses investimentos.

Uma boa carteira de renda fixa não deve ser construída apenas com base nas taxas disponíveis hoje, mas também nos riscos que o investidor está disposto a assumir até o vencimento. Por isso, acompanhar o cenário econômico e revisar periodicamente a alocação continua sendo essencial.

Como acompanhar as melhores oportunidades de renda fixa?

Na Nord Renda Fixa PRO, acompanhamos as mudanças no cenário macroeconômico, as perspectivas para os juros e as oportunidades que surgem nos diferentes títulos.

Nosso trabalho envolve avaliar quando vale a pena manter uma posição, quando é mais interessante trocar um investimento por outro e quando as oscilações do mercado criam oportunidades de ganhos com marcação a mercado.

O objetivo é construir uma carteira de renda fixa que considere não apenas a rentabilidade oferecida, mas também os riscos, os prazos e a evolução das condições econômicas.

Conheça a Nord Renda Fixa PRO e acompanhe nossas recomendações para investir em renda fixa com estratégia.