A decisão do Banco Central (BC) de reduzir a taxa Selic para 3%, anunciada em maio de 2020, intensificou o debate sobre os impactos nos preços, no câmbio e na economia real. 

No mercado, a leitura é que o corte de 0,75 ponto percentual foi mais agressivo do que parte dos investidores esperava, mas ainda alinhado ao mandato de perseguir a meta de inflação, especialmente diante da piora do cenário de atividade e das projeções abaixo da meta.

Por que o Banco Central cortou a selic para 3%

O Comitê de Política Monetária (Copom) justificou o corte ao observar que as projeções de inflação continuam bem abaixo da meta. Mesmo considerando um câmbio mais depreciado, os modelos do Banco Central indicam que a inflação seguiria distante do objetivo caso os juros permanecessem mais altos. Nesse cenário, a autoridade monetária optou por uma postura mais agressiva para cumprir seu mandato.

O que o comunicado do Copom sinalizou para a próxima reunião

Um dos trechos mais debatidos do comunicado foi a indicação de que pode haver mais um ajuste na Selic, condicionado ao cenário fiscal e à conjuntura econômica. O Copom deixou claro que, se houver novo corte, ele não deverá ser maior do que o anterior, o que foi interpretado pelo mercado como a possibilidade de um último movimento de 0,75 ponto percentual.

Inflação baixa é positiva, mas tem custo

A inflação abaixo da meta é, em princípio, uma boa notícia. No entanto, manter juros elevados em um ambiente de inflação muito baixa tem custo econômico. Isso pode reduzir o estímulo à atividade, frear investimentos e manter o desemprego elevado. O debate destacou que a desancoragem das expectativas pode ocorrer tanto para cima quanto para baixo, e ambas são problemáticas.

O papel do câmbio como canal da política monetária

A desvalorização do câmbio foi tratada como um dos canais de transmissão da política monetária. Com juros mais baixos, a moeda tende a se depreciar, o que pode tornar o país mais competitivo, estimular exportações e reduzir o consumo de importados. Esse movimento é considerado desejável até certo ponto, desde que não gere pressão inflacionária excessiva.

Quando a desvalorização do câmbio vira problema

O câmbio passa a ser um problema quando o país tem alta dívida externa ou quando a depreciação começa a se refletir fortemente nos preços. 

No caso do Brasil, foi ressaltado que o volume elevado de reservas internacionais reduz esse risco, tornando a desvalorização cambial menos perigosa do que em economias mais frágeis.

Por que o risco fiscal preocupa mais do que o câmbio

Ao longo da discussão, ficou claro que o principal ponto de atenção do mercado é o fiscal. A percepção é de que uma piora nas contas públicas pode pressionar os juros longos e limitar o espaço para novos cortes da Selic. Medidas que aumentem gastos permanentes ou enfraqueçam o ajuste fiscal tendem a elevar a taxa de juro neutra da economia.

Impacto da Selic a 3% nos investimentos em renda fixa

Com juros historicamente baixos, o investidor precisa repensar estratégias. Operações de marcação a mercado ficaram mais arriscadas, principalmente nos prazos longos. Por outro lado, surgem oportunidades em crédito privado de boa qualidade, com prêmios mais elevados após períodos de estresse no mercado.

Por que a queda da Selic ainda funciona

Apesar das críticas, a política monetária não atua apenas via crédito bancário. Existem outros canais relevantes, como expectativas, preços de ativos, estrutura a termo dos juros e câmbio. Além disso, os efeitos da decisão não são imediatos e costumam aparecer ao longo de dois a três trimestres.

Selic baixa pode levar à dolarização da economia

A possibilidade de dolarização foi considerada remota. Esse fenômeno costuma ocorrer em países com inflação crônica e perda de credibilidade da moeda, o que não é o cenário atual. As expectativas de inflação seguem ancoradas, o que dá conforto ao Banco Central para manter a estratégia.

O que acompanhar nos próximos meses

O mercado deve monitorar de perto três fatores: evolução do risco fiscal, comportamento dos juros longos e expectativas de inflação. Caso o fiscal se deteriore, o ciclo de cortes pode ser interrompido. Se as expectativas permanecerem ancoradas, ainda existe espaço para mais um ajuste na taxa Selic.