O IPCA de junho trouxe uma queda expressiva, de 0,58% em maio para 0,16%. À primeira vista, o dado parece indicar que a inflação está sob controle e que o caminho está aberto para a tão esperada queda da Selic. Mas a leitura completa do cenário mostra que a situação é mais complexa do que aparenta. 

Entenda a seguir como a inflação brasileira é formada, por que ainda não dá para dizer que a inflação está sob controle e o que esperar dos próximos passos do Copom.

Sumário

Como é formada a inflação brasileira

A inflação brasileira tem cerca de 30% da sua composição ligada a serviços, como cabeleireiro e educação, ou seja, tudo que não é industrial nem alimentício. 

Essa parcela é muito dependente das pessoas e, por isso, está diretamente ligada à situação da economia, como salários e nível de emprego. É uma inflação que muda devagar, como um transatlântico fazendo uma curva, ao contrário de outros componentes mais voláteis.

Inflação de serviços e mercado de trabalho

No Brasil, o desemprego está nas mínimas históricas, o que aqueceu o mercado de trabalho. 

Após a pandemia, parte das mulheres e dos jovens demorou mais para retornar ou entrar no mercado, o que reduziu a população economicamente ativa e também contribuiu para a queda do desemprego. 

Segundo dados do IBGE, esse cenário gerou pressão sobre os salários, fazendo com que a inflação de serviços rode em torno de 5%, bem acima da meta de 3% do IPCA.

Guerra, combustíveis e preços dos alimentos

Antes do conflito no Oriente Médio, os preços de indústria e alimentos rodavam abaixo da meta. Com a guerra, porém, houve aumento no preço dos combustíveis e, por consequência, nos alimentos, já que o frete impacta diretamente esse setor. 

Essa reaceleração levou as projeções do IPCA para bem acima de 5% neste ano. Recentemente, com o preço do petróleo em queda, os valores de gasolina e alimentos recuaram, o que ajudou a puxar o IPCA para 0,16%.

Inflação menor não significa preços baixos

Uma queda no índice de inflação não significa que os produtos ficaram mais baratos. 

Se um item sobe de preço em um mês e se mantém estável no seguinte, a inflação daquele item cai para perto de zero, mas o preço continua alto. Foi isso que aconteceu em junho: a alta foi menor, mas os preços seguem elevados, principalmente por conta de alimentos e energia.

Por que a inflação ainda não está sob controle

Apesar da melhora pontual, a inflação de serviços segue rodando bem acima da meta. Além disso, meteorologistas apontam 81% de chance de um El Niño intenso neste ano, fenômeno que costuma pressionar fortemente os preços de alimentos, um dos componentes mais voláteis do índice. 

Esse é mais um ponto de atenção que reforça por que ainda é cedo para falar em inflação sob controle.

Expectativas de inflação seguem acima da meta

Se o mercado realmente acreditasse que a inflação estivesse sob controle, as projeções cairiam para todos os anos seguintes. Não foi o que aconteceu. Enquanto a expectativa para este ano, medida pelo Boletim Focus, recuou de 5,30% para 5,16%, a projeção para 2027 subiu de 4,18% para 4,20%, próxima do teto da meta, que é 4,5%. 

Já as estimativas para 2028 e 2029 seguem em 3,70% e 3,5%, respectivamente, ambas acima do centro da meta.

A divisão do mercado sobre a queda da Selic

O mercado financeiro está dividido. De um lado, parte dos economistas defende a queda da Selic diante do enfraquecimento da atividade econômica e do aumento de casos de recuperação judicial de empresas. 

De outro, existe o argumento de que, mesmo com juros altos, a inflação segue acima da meta, o que tornaria uma queda de juros ainda mais arriscada neste momento.

O que aconteceu quando a Selic caiu "na marra"

O Brasil já tentou reduzir a Selic de forma mais agressiva no passado. Em 2012, sob o comando de Alexandre Tombini no Banco Central, a taxa foi levada ao menor patamar da época. 

O resultado foi uma reaceleração da inflação nos anos seguintes, culminando em uma taxa de 10,67% em 2015. O episódio reforça os riscos de reduzir juros sem que os fundamentos da inflação estejam realmente resolvidos.

A previsão para o próximo movimento do Copom

Apesar dos riscos, a expectativa é que o Copom opte por reduzir a Selic, aproveitando a queda pontual do IPCA como justificativa, especialmente em um ano eleitoral. Isso pode reacender o risco inflacionário no país. 

Ainda assim, a meta de 3% é factível, como mostrou o período entre 2017 e 2020, quando o Brasil conviveu com essa inflação sob uma política fiscal mais disciplinada. Um ajuste fiscal consistente é apontado como o caminho mais eficiente para permitir que a inflação fique, de fato, sob controle no futuro.