Quem acompanhou o Tesouro Selic em determinados períodos pode ter se deparado com uma surpresa desagradável: o título aparentemente não rendeu nada — ou até apresentou rentabilidade negativa. Isso levanta uma dúvida natural entre investidores: será que esse título deixou de ser seguro? Será que é hora de tirá-lo da reserva de emergência? A resposta passa por entender um detalhe técnico pouco conhecido sobre como esse título é precificado.

O que é o Tesouro Selic e como ele é precificado

O Tesouro Selic é um título público pós-fixado, negociado no Tesouro Direto, que rende de acordo com a taxa Selic diária.

Ele é amplamente utilizado como reserva de liquidez por ser considerado um dos investimentos mais seguros e acessíveis do país. No entanto, ao consultar o site do Tesouro Direto, o investidor percebe que o título é negociado a "Selic mais uma taxa". Essa taxa adicional sobe quando há pressão vendedora no mercado e cai quando há muita demanda.

Na prática, ela funciona como um pequeno componente pré-fixado dentro de um título pós-fixado, tornando o Tesouro Selic levemente híbrido. Por ser normalmente muito pequena, essa taxa costumava ser irrelevante, mas isso mudou.

Por que o Tesouro Selic pode apresentar rentabilidade negativa

Com a Selic nos menores patamares da história brasileira, essa pequena taxa adicional ganhou relevância inesperada.

Em condições normais, a rentabilidade mensal da Selic equivale a cerca de 0,16% ao mês, ou 16 pontos-base.

Quando essa taxa adicional sobe poucos pontos-base em um curto espaço de tempo, o efeito de marcação a mercado pode consumir toda a rentabilidade do período.

Um título que custa R$ 10 mil perde cerca de R$ 4 para cada ponto-base de alta nessa taxa. Se ela sobe quatro pontos-base em menos de uma semana — como chegou a acontecer —, o investidor perde cerca de 0,044% em poucos dias, o que pode zerar ou superar o rendimento acumulado no mês.

O histórico da taxa do Tesouro Selic ao longo do tempo

Dados acompanhados desde 2010 pela corretora Renascença mostram que essa taxa já apresentou movimentos semelhantes no passado.

Em 2012, ela chegou a subir nove pontos-base rapidamente e depois recuou. Em outros momentos, como 2016 e 2017, o movimento se repetiu com alta de cerca de sete pontos-base, também seguida de reversão.

O padrão histórico indica que essas oscilações tendem a se reverter à média, geralmente associadas a movimentos técnicos pontuais — como um fundo específico vendendo um volume muito grande de títulos no mercado. Não se trata de um risco sistêmico, mas de um evento técnico com tendência de normalização.

Tesouro Selic ainda vale como reserva de liquidez

Apesar do susto de curto prazo, o Tesouro Selic mantém seu papel como reserva de liquidez. Quando se analisa o desempenho do título em janelas mais longas — seis meses, um ano ou mais —, o efeito da oscilação da taxa adicional se torna irrelevante.

No período analisado, o Tesouro Selic rendeu 97,2% da Selic ao longo de aproximadamente um ano e meio, mesmo considerando os momentos de alta dessa taxa. Além disso, em contextos em que essa taxa está um pouco acima do normal, o título pode chegar a render cerca de 103% do CDI, tornando-se mais atrativo do que CDBs de grandes bancos com liquidez diária.

O que precisaria acontecer para o Tesouro Selic virar um problema de fato

Para que as oscilações dessa taxa se tornassem um risco real para o investidor, seria necessário que ela subisse quatro pontos-base todo mês, de forma contínua. Olhando o histórico desde 2010, isso nunca aconteceu.

O movimento mais provável, segundo o comportamento histórico, é a reversão à média. Em casos extremos, o próprio Tesouro Nacional poderia atuar no mercado para normalizar a situação. Portanto, o episódio de rentabilidade negativa ou próxima a zero no Tesouro Selic é, na maioria das vezes, um fenômeno pontual e passageiro — não um sinal de que o título se tornou arriscado ou inadequado para a reserva de emergência.

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