Como montar uma carteira de investimentos do zero
Descubra como montar uma carteira de investimentos do zero, entendendo o investimento livre de risco e como equilibrar risco e retorno nas suas aplicações
Quem está começando no mundo dos investimentos costuma ter a mesma dúvida: por onde começar? Entender alguns conceitos essenciais pode fazer toda a diferença para montar uma carteira de investimentos de forma consciente e alinhada ao seu perfil de risco.
Confira a seguir o que é o investimento livre de risco e como equilibrar risco e retorno na hora de investir.
O que é o investimento livre de risco
Antes de entender o que é uma carteira de investimentos, é preciso entender o que não é.
Deixar dinheiro parado, seja embaixo do colchão ou em uma poupança sem rendimento adequado, faz o patrimônio perder poder de compra com o tempo, já que a inflação corrói esse valor aos poucos. Por isso, todo investimento parte de um marco zero teórico chamado de livre de risco: o investimento mais seguro da economia.
Vale lembrar que, na prática, nenhum investimento é totalmente livre de risco, nem mesmo guardar dinheiro em casa, que também está sujeito a furto, por exemplo, mas esse conceito serve como referência de retorno mínimo. Qualquer outro investimento precisa, teoricamente, pagar mais do que ele para justificar o risco adicional assumido.
Tesouro Selic: a base dos investimentos
No Brasil, o investimento livre de risco é o Tesouro Selic, título público emitido pelo governo, que é o pagador desse rendimento.
O rendimento desse título acompanha a Selic, a taxa básica de juros da economia, definida a cada 45 dias pelo Copom, o Comitê de Política Monetária, formado por diretores do Banco Central.
Ao comprar um Tesouro Selic, o valor investido passa a render essa taxa diariamente, de forma acumulada: quem permanece um dia com o investimento acumula o juro de um dia, enquanto quem mantém a aplicação por anos acumula os rendimentos de todo esse período.
O dinheiro só é efetivamente resgatado quando o investidor decide vender o papel ou quando ele chega ao vencimento. O Tesouro Selic pode ser adquirido em qualquer corretora, sem cobrança de taxa de corretagem, o que o torna acessível para quem está começando a investir.
Reserva de emergência: por que usar o investimento livre de risco
O dinheiro reservado para emergências, como imprevistos de saúde ou perda de renda, deve ficar sempre no investimento livre de risco, já que precisa estar disponível a qualquer momento sem risco de perda.
O mesmo vale para recursos com destino certo no curto ou médio prazo, como a compra de um imóvel daqui a dois ou três anos: nesses casos, não vale a pena assumir risco, pois uma eventual queda de mercado, como uma queda de quase 50% na bolsa, pode comprometer o objetivo e permitir, na prática, comprar apenas metade do imóvel planejado. Por isso, esse tipo de recurso não é considerado parte da carteira de investimentos propriamente dita, mas sim uma reserva de liquidez diária.
Como funciona uma carteira de investimentos

A carteira de investimentos é formada por camadas de risco construídas a partir do investimento livre de risco, como as camadas de uma cebola. Quanto mais risco o investidor aceita correr, maior é o potencial de retorno, mas também maior é a chance de oscilação e de perdas no curto prazo.
Entender essa relação é fundamental, mesmo para quem delega a gestão dos investimentos a um assessor, gestor ou consultor, já que só o próprio investidor sabe quanto risco está realmente disposto a tolerar no dia a dia e durante uma crise. Delegar essa decisão sem entender o próprio limite de risco pode gerar frustração caso a carteira oscile mais do que o esperado.
CDBs, crédito bancário e risco de crédito
A primeira camada de risco acima do Tesouro Selic costuma ser o crédito bancário, como CDBs pós-fixados de liquidez diária atrelados ao CDI, por exemplo, de bancos grandes como Itaú.
Nesse caso, o risco assumido não é de marcação a mercado, mas sim de crédito, ou seja, a possibilidade de o banco emissor não honrar o pagamento, como ocorreu em episódios de liquidação de instituições financeiras.
Teoricamente, títulos bancários deveriam pagar mais do que o Tesouro Selic, já que o governo é considerado mais seguro, tendo mais recursos disponíveis em uma crise, como emissão de moeda, aumento de impostos ou empréstimos internacionais. Na prática, porém, alguns bancos grandes oferecem CDBs que pagam menos de 100% do CDI, o que não faz sentido para o investidor, já que o Tesouro Selic está disponível gratuitamente e paga mais, com menor risco.
Tesouro IPCA+, crédito privado e fundos imobiliários
Acima do crédito bancário estão os títulos públicos com componentes prefixados, como o Tesouro Prefixado e o Tesouro IPCA+, que trazem risco de marcação a mercado, ou seja, a possibilidade de o investidor receber menos do que aplicou caso precise vender o título antes do vencimento em um momento desfavorável.
Em seguida vêm os créditos privados, como CRIs, CRAs e debêntures, que somam risco de crédito e de marcação a mercado, gerando mais volatilidade.
Já os fundos imobiliários funcionam como uma camada intermediária de risco, descrita como um "crédito plus": ligados a ativos reais, como lajes corporativas e galpões logísticos, protegem contra a inflação, distribuem renda de forma isenta de imposto de renda e tendem a ganhar ou perder um pouco mais conforme o cenário melhora ou piora.
Ações, criptoativos e investimentos de maior risco
As ações representam uma camada ainda maior de risco.
Uma ação como a da Petrobras, por exemplo, pode cair 50% durante uma crise, e episódios assim acontecem com certa frequência: durante a pandemia, o Ibovespa chegou a cair 35%. Quem tinha toda a carteira em bolsa nesse período perdeu boa parte do patrimônio no curto prazo. No longo prazo, no entanto, o preço das ações tende a acompanhar o lucro das empresas, mesmo que no curto prazo exista um descasamento entre resultado e cotação.
Por isso, a recomendação é que ações sejam destinadas a quem pode esperar o cenário se ajustar ao longo do tempo.
Acima das ações estão ativos ainda mais voláteis, como criptoativos e opções, que podem oscilar 80% ou mais em curtos períodos.
O que os dados históricos mostram sobre risco e retorno
A composição ideal de uma carteira depende do quanto o investidor está disposto a oscilar em momentos de crise.
O ideal é montar essa composição de forma gradual, começando pelo investimento livre de risco e avançando conforme se ganha conhecimento e tolerância ao risco, sempre pensando no longo prazo, como quem planta uma semente e espera o tempo necessário para colher os resultados.
Como combinar renda fixa e ações
Em uma simulação histórica entre 2012 e 2024, uma carteira 100% em Tesouro Selic teria rendido cerca de 190% no período, com trajetória estável e sem grandes oscilações.
Uma carteira 100% em títulos IPCA+ teria rendido mais, cerca de 217% no mesmo período (114% do CDI), mas com uma queda máxima de quase 25% durante a crise de 2013.
Uma carteira 100% em ações teria rendido 333% (175% do CDI), o maior retorno entre os cenários simulados, mas com quedas de até 45% durante a pandemia e 35% em 2015.
Comparando diferentes composições de carteira
Ao combinar diferentes proporções entre renda fixa e ações, é possível equilibrar risco e retorno de acordo com o perfil de cada investidor.
Uma carteira com 50% em Tesouro Selic e 50% em IPCA+, por exemplo, reduziria a queda máxima de 25% para cerca de 8% a 9%, ainda que o retorno também caísse, para 110% do CDI.
Já uma composição com 25% em ações, 45% em Tesouro Selic e 30% em IPCA+ teria entregado um retorno de 140% do CDI no período simulado, com queda máxima de 18% durante a pandemia, considerada uma composição equilibrada para um perfil moderado.
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