Evolução das sardinhas: hora de ser mais prudente na bolsa
Após o baile nas sardinhas nos institucionais, Marilia Fontes explica por que chegou a hora de mais prudência, menos risco e mais renda fixa na carteira
A tese da vingança das sardinhas deu certo. A pessoa física comprou bolsa quando os institucionais estavam vendendo, e a carteira recomendada subiu 45% em cerca de dois meses, contra 18,7% do Ibovespa no mesmo período. Mas acertar uma batalha não significa baixar a guarda para sempre — e é exatamente essa a mensagem desta evolução da tese.
Por que a bolsa a 104 mil pontos é mais arriscada do que a 63 mil pontos
Pode parecer contraintuitivo, mas quanto mais caro está um ativo, maior é o risco de comprá-lo. A margem de segurança do investidor diminui à medida que os preços sobem. A bolsa a 104 mil pontos, com resultados das empresas ainda pressionados e cenário macroeconômico deteriorando, oferece muito menos proteção do que oferecia quando estava nas mínimas.
O maior risco para a economia brasileira: a deterioração fiscal
A despesa primária explodiu com a pandemia enquanto a receita do governo despencou. O déficit primário projetado para 2020 chegou a quase R$ 800 bilhões — valor próximo ao que a reforma da previdência, aprovada com enorme esforço político, pretendia economizar em dez anos. Tudo gasto em um único ano.
Além disso, crescem as pressões para flexibilizar o teto de gastos e transformar despesas temporárias em permanentes. Esse caminho impacta diretamente a curva de juros — e juros mais altos são um dos principais riscos para a bolsa.
O que pode acontecer com ações que dependem de crescimento absurdo
Empresas negociadas a múltiplos muito elevados dependem de um cenário futuro extremamente otimista para justificar seus preços. Quando o mercado se frustra com os resultados, a punição sobre esses papéis costuma ser severa. Esse é um risco real para teses mais especulativas que subiram forte na esteira da recuperação.
Sinais de alerta no mercado americano
A bolsa americana também acumula sinais de esticamento. O número de empresas negociadas acima de dez vezes sua receita estava, naquele momento, no maior patamar desde o estouro da bolha das pontocom em 2000. Ao mesmo tempo, os juros dos treasuries de dez anos — uma espécie de Tesouro Direto americano — estavam no menor nível histórico, o que historicamente antecede períodos de recessão. Esses movimentos externos também afetam o Ibovespa.
Evolução das sardinhas: o que muda na estratégia agora
A evolução não é vender tudo e sair da bolsa. É ajustar a alocação com mais estratégia. Isso significa realizar lucro nas posições que já subiram muito, reduzir exposição em teses especulativas que dependem de crescimento elevado e começar a olhar com mais atenção para a renda fixa — especialmente o mercado de crédito privado, ainda pouco explorado pela pessoa física no Brasil.
Por que é hora de olhar para a renda fixa
Mesmo com a Selic nas mínimas históricas, surgem boas oportunidades no mercado de dívida privada. Não é qualquer título que vale a pena — a situação fiscal do país exige critério na seleção. Mas ignorar completamente a renda fixa em um momento de bolsa cara e cenário incerto é abrir mão de uma parte importante do portfólio.
Gerenciar a carteira de forma completa — equilibrando renda variável e renda fixa conforme os ciclos econômicos — é o que diferencia o investidor que evolui daquele que apenas torce para que tudo continue subindo.
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