Em três semanas, a Bolsa brasileira viveu os seus dois extremos. Em 5 de outubro de 2026, o Ibovespa teve a maior alta diária desde 2020. Em 26 de outubro, a maior queda em seis anos, com direito a circuit breaker.

O mesmo mercado, as mesmas empresas e humores completamente diferentes.

Na Grécia antiga, havia um deus para explicar o que estava em jogo nesses dois pregões. E ele só tinha cabelo na frente.

Chronos e Kairos: os dois tempos dos gregos e o que significam para o investidor

Os gregos tinham duas palavras para se referir ao tempo: Chronos e Kairos.

Chronos é o tempo do relógio e do calendário, é aquele tempo que passa e é igual para todo mundo.

Já Kairos é o tempo que se agarra, o momento propício. É a coisa certa no momento exato, aquele instante que aparece sem aviso, dura pouco e não volta.

Pintura com duas figuras aladas. À esquerda, Chronos, um homem idoso de barba branca, apoiado em uma muleta e segurando uma ampulheta. À direita, Kairos, um jovem de perfil, calvo na nuca e com um tufo de cabelo caindo sobre o rosto, que segura uma pequena balança.
 

A estátua de Kairos em Sícion e o epigrama de Posídipo

Como qualquer deus grego, Kairos tinha uma estátua na cidade de Sícion, na antiga Grécia. Na sua estátua, o poeta Posídipo esculpiu um diálogo para quem passava por ela:

Por que anda na ponta dos pés? Porque estou sempre correndo.

Por que tem asas nos pés? Porque voo com o vento.

Por que o cabelo cai sobre o rosto? Para que me agarre quem me encontrar de frente.

E por que a nuca é careca? Porque, depois que eu passo, ninguém mais me segura, por mais que queira.

Metanoia, a companheira do arrependimento

Kairos também não está sozinho. Com ele, ou logo atrás, está a sua companheira Metanoia, o arrependimento. Essa divindade personificava a dor de quem perdeu uma oportunidade, tanto pelo que fez quanto pelo que deixou de fazer.

Em outubro, a Bolsa brasileira recebeu a visita dos dois. Nessa ordem.

Ibovespa de 5 a 9 de outubro: maior alta desde 2020 e recorde de 209 mil pontos

O primeiro turno das eleições colocou o mercado em euforia. No dia 5 de outubro, um dia depois do 1º turno, o Ibovespa subiu quase +8%, fechando acima dos 200 mil pontos pela primeira vez na história. Quatro dias depois, o índice renovou mais um recorde, alcançando os 209 mil pontos.

A partir dali, o mercado passou a negociar como se o 2º turno já estivesse praticamente resolvido, e muita gente correu para não ficar de fora.

Aqui está a primeira lição de Kairos. Quem compra depois, antecipando um cenário ainda incerto, está tentando agarrar o deus pela nuca, sem considerar que ele já pode ter passado.

Ou seja, a convicção do investidor não era nas empresas. Era no calendário, no timing. Mas, como sabemos, o calendário é de Chronos, não de Kairos.

Circuit breaker de 26 de outubro: Ibovespa −14% e small caps em queda

Três semanas depois, as urnas entregaram um resultado diferente daquele esperado pelo mercado.

A sessão do dia 26 de outubro foi a representação perfeita da reversão das expectativas.

Na segunda-feira, nos primeiros minutos da sessão, a B3 acionou o circuit breaker (a interrupção automática das negociações quando o índice cai 10%), o primeiro desde março de 2020. Meia hora depois, o mercado reabriu e chegou a cair mais de 17%.

Após um longo dia, o Ibovespa fechou com uma queda de -14%, e o índice de Small Caps de -27%, a pior sessão desde a pandemia.

Gráfico de área do Ibovespa em 2026, de dezembro de 2025 a novembro. O índice oscila entre 160 mil e 190 mil pontos até setembro, salta depois do 1º turno (seta verde) até a máxima de 209 mil pontos em 9/10 e despenca depois do 2º turno (seta vermelha) para 166 mil pontos, abaixo do nível anterior ao 1º turno.
 Ibovespa em 2026. Fonte: Bloomberg

A queda não parou ali. No dia 3 de novembro, o Ibovespa estava em 165 mil pontos, cerca de 21% abaixo do recorde e abaixo dos patamares anteriores ao primeiro turno.

Toda a euforia foi devolvida, e um pouco mais. Foi aí que Metanoia apareceu, cobrando de quem age por impulso, seja pela euforia ou pelo pânico.

O Investidor de Valor: realizar lucros, reduzir small caps e reforçar o caixa

Lembra da definição dos gregos? Kairos é a coisa certa no momento exato. E, em um mercado como o atual, a coisa certa nem sempre é comprar. Às vezes, é se proteger.

E é isso que estamos fazendo no O Investidor de Valor (IV).

Diante da forte deterioração das expectativas para o macro, não vamos bater de frente com o mercado. O risco fiscal, a desaceleração da atividade e as expectativas para a inflação intensificaram de modo relevante os riscos.

Por isso, aproveitamos a euforia após o 1º turno, realizamos lucros e reforçamos a nossa proteção. Agora, com a imposição de um cenário mais desafiador, reduzimos a exposição a small caps. Não porque as teses pioraram, pois seguimos com boa visibilidade para elas, mas porque elas são as primeiras a sofrer.

Em momentos de grande incerteza, o macro se impõe e o mercado deixa de lado os fundamentos, por melhores que eles sejam. E esse último ciclo, desde 2021, comprova essa dinâmica.

Gráfico de área do Índice Small Cap desde 2021, normalizado em 30/12/2020. O índice sobe até a máxima de +14,26 em junho de 2021, cai até a mínima de −38,72 em janeiro de 2025, sobe até perto de zero em outubro de 2026 e despenca depois do 2º turno, para −32,12, uma queda de 32% desde o início de 2021.
 Índice Small Cap desde 2021. Fonte: Bloomberg

Caixa como munição: Charlie Munger e o Wells Fargo em 2009

A partir desses ajustes no IV, reforçamos o caixa. E caixa, neste momento, não é medo, é munição. Se proteger é só parte do trabalho; a outra parte é estar preparado para agarrar Kairos pela frente quando ele passar.

Em 2009, no auge da crise financeira americana, Charlie Munger comprou ações do Wells Fargo em um momento em que ninguém queria ouvir falar de ações de bancos. Mas Munger não estava tentando acertar o fundo, ele conhecia aquele banco havia quase duas décadas. 

Sete anos depois, as ações valiam cerca de seis vezes mais. Munger agarrou Kairos pela frente porque já conhecia o seu rosto.

No IV, estamos fazendo o mesmo movimento. Voltamos para um velho conhecido, que, sinceramente, nunca deveria ter saído da carteira em 2021 (quem acompanha o Investidor de Valor já vai saber de quem estou falando). Metanoia já tinha cobrado a sua parte por aquela saída.

Como se preparar para a próxima oportunidade: caixa, paciência e empresas que você conhece

A estátua de Sícion tinha razão: depois que Kairos passa, ninguém mais o segura. Mas a Bolsa tem uma vantagem: ele passa de novo.

A questão é: onde você vai estar quando isso acontecer? De costas, olhando para o calendário, a eleição e o noticiário, ou de frente, preparado, com caixa, paciência e uma lista de empresas que você conhece bem o suficiente para aproveitar possíveis oportunidades.

Mas vale lembrar que o cenário exige cautela. A coisa certa no momento exato não significa que você precisa agir, comprando ou vendendo.

Não sabemos quando o mercado vai virar. Ninguém sabe. Como ensinou o grande Howard Marks: "Você não consegue prever. Você consegue se preparar."

Kairos só se agarra pela frente, e só fica de frente quem se preparou para agarrá-lo.

Retorno de Howard Marks, de óculos e terno escuro, ao lado da frase em inglês “You can’t predict. You can prepare.” (Você não consegue prever. Você consegue se preparar.), atribuída a ele.
 

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