Nas últimas semanas, a pergunta “Vou tomar calote nos títulos públicos?” foi a que mais escutamos dos nossos clientes. Esse medo faz sentido, pois os números do Brasil assustam mesmo.

A dívida do governo saiu de 71,7% do PIB em 2022 para 81,1% hoje (mais de R$ 10 trilhões). Quase dez pontos de piora em pouco mais de três anos, algo visto só durante o governo Dilma.

Gráfico de linha mostrando a evolução da dívida bruta do governo brasileiro em % do PIB, saindo de 51,5% em 2013 para 81,1% em 2026, com duas projeções tracejadas: a do Tesouro Nacional chegando a 88,6% em 2032 e a do mercado (Boletim Focus) chegando a 94,1% já em 2030

Repare nas duas linhas tracejadas do gráfico. 

A amarela não é projeção de pessimista, e sim a conta do próprio Tesouro Nacional, que admite que a dívida segue subindo até 88,6% do PIB em 2032. Seis anos seguidos de piora no cenário oficial. 

A vermelha é o que o mercado enxerga: o Boletim Focus projeta 94% do PIB já em 2030; mais dívida, mais cedo. 

Ou seja: o cenário “bom” é a dívida piorar por seis anos seguidos. Quem empresta o dinheiro acha que nem isso o governo entrega. Nem o devedor, nem os credores acreditam em melhora tão cedo.

E o custo dessa dívida já apareceu. Só de juros, o país paga R$ 1,1 trilhão por ano. Para dar escala: é quatro vezes o orçamento de toda a educação federal.

Gráfico de barras comparando o gasto anual do Brasil: R$ 1,1 trilhão em juros da dívida pública contra R$ 270 bilhões em todo o orçamento da educação federal (MEC), mostrando que os juros custam cerca de quatro vezes mais.
 

E o ajuste? Precisa vir do corte de gastos, afinal, imposto já subiu tudo o que podia subir. O problema é que 92% do orçamento é despesa obrigatória: Previdência, salários, pisos de saúde e educação. Mexer nisso exige reformas duras, impopulares e de alto custo político. Ninguém faz reforma dura em ano de eleição.

Ou seja: a conta é grande, o ajuste é difícil e ficou para depois. Daí a pergunta do título.

O Brasil pode dar calote nos títulos públicos? 

Resposta direta: o calote clássico (o não pagamento dos títulos do Tesouro Selic) é muito improvável. Mais de 95% da dívida é emitida em reais, e o governo emite a própria moeda em que deve. Na prática, ele sempre consegue pagar.

O risco de verdade é outro, e é mais silencioso: o governo paga, mas o dinheiro que você recebe vale menos

Inflação acima da meta, dólar mais caro e mais imposto sobre os seus investimentos. Foi assim em todos os países que deixaram a dívida sair do controle e foi assim no próprio Brasil, mais de uma vez. Quem investiu nos anos 80 e 90 sabe: o título foi pago. O que ele comprava no vencimento é outra história.

Quem entende essa diferença já sabe o que fazer. Quem não entende costuma cometer o erro que mais vemos por aqui.

Por que concentrar tudo em CDI não protege do risco Brasil

Diante do medo, a reação mais comum é vender tudo e concentrar 100% do patrimônio em CDI e títulos públicos.

Diagrama de fluxo mostrando como o medo do risco Brasil leva o investidor a concentrar 100% do patrimônio em CDI e títulos públicos, resultando em exposição total a um único devedor (o governo), uma única moeda (o real) e uma única jurisdição (o Brasil).
 

O quadro acima resume o paradoxo: se o risco que te assusta é o risco Brasil, a carteira 100% CDI é a mais exposta possível a ele. Não há diversificação nenhuma ali.

Há, ainda, um segundo problema, que pouca gente para para pensar.

O CDI é o ativo livre de risco da nossa economia. Se o ativo livre de risco ganha de empresas, de imóveis e de todos os ativos de risco, TODOS os anos, há algo muito errado. 

Pense no que isso significa: ninguém que produz consegue competir com o dinheiro parado. Isso não é sinal de que o Brasil é o paraíso do investidor, mas sim uma bandeira vermelha. Significa que o país paga um juro que sufoca quem produz e que as próprias contas do governo não sustentam.

Uma situação assim é insustentável por definição e se resolve de um jeito ou de outro: ou o país faz o ajuste e os juros caem (e o CDI deixa de ser imbatível), ou não faz o ajuste e a conta chega via inflação e câmbio (e o CDI não protege). 

Nos dois cenários, quem está 100% no CDI descobre, tarde demais, que estava do lado errado da mesa.

Já escrevemos sobre isso em detalhe no blog da Nord, no texto “Ativos de risco ou CDI?”. A conclusão é simples: CDI é parte essencial da carteira, mas é uma posição, não estratégia absoluta. Estratégia é o que vem a seguir.

Como proteger o patrimônio: internacionalização como saída

Se o risco é o Brasil (fiscal, tributário, cambial), a resposta não é escolher o “melhor ativo brasileiro”, mas reduzir a dependência do Brasil. Por isso, batemos nessa tecla há anos, edição após edição: internacionalização de patrimônio é proteção básica.

Uma carteira global bem construída funciona como um seguro triplo:

1. hedge fiscal, onde você não depende de um único sistema tributário, justamente quando o Brasil implementa o maior IVA do mundo;

2. hedge cambial, afinal, parte da sua vida já é dolarizada, mesmo que você não perceba: viagens, eletrônicos, saúde, educação dos filhos;

3. hedge institucional (as regras do jogo não mudam todas ao mesmo tempo para todo o seu patrimônio).

Não precisa ser complicado nem caro. Hoje existem estruturas eficientes para investir lá fora sem armadilhas tributárias e com excelentes retornos.

O próximo passo é seu

Se você se identificou com a pergunta do título, faça um teste simples: olhe a sua carteira e responda: quanto do seu patrimônio depende de um único devedor chamado governo brasileiro?

Se a resposta te incomodar, o time da Nord Wealth pode te ajudar: vamos medir a sua exposição real ao risco Brasil, revisar a qualidade dos seus títulos e emissores, dimensionar quanto do patrimônio deveria estar protegido em outras moedas e jurisdições e montar, com você, um plano concreto de proteção, com alinhamento total de interesses, como sempre.

Proteger o patrimônio antes de o problema aparecer é o que mantém qualquer investidor no jogo.