Existe uma regra empírica bem estabelecida no mercado de renda fixa: comprar títulos quando as taxas estão historicamente elevadas é, em geral, uma das melhores decisões que um investidor pode tomar. 

Em 2026, essa lógica parece ainda mais convincente. O Tesouro IPCA+ oferece juros reais acima de 8% ao ano e os títulos prefixados pagam mais de 14% ao ano, patamares raros na história recente do Brasil.

Mas investir em renda fixa nunca depende apenas do nível das taxas. O contexto econômico importa tanto quanto o retorno prometido. E, neste segundo semestre, eleições, deterioração fiscal e inflação persistente tornam o cenário mais complexo do que normalmente seria.

Por que as taxas atuais parecem tão atrativas

O raciocínio é simples. Quem trava uma taxa de juro real acima de 6% ao ano por um prazo longo está garantindo um retorno que, na maior parte da história brasileira, só ficou disponível por janelas curtas de tempo. 

E quanto mais alta é a taxa de entrada, menor é a probabilidade de o investidor perder dinheiro nos anos seguintes, porque a margem de proteção é maior.

Essa lógica não está errada. 

O Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032 ainda paga juro real acima de 8% ao ano. O prefixado está acima de 14%. 

Em termos históricos, esses patamares são excepcionais. 

Quem entrou no começo do primeiro semestre de 2026, quando o mercado ainda estava mais otimista, certamente encerra junho com um portfólio que parece bem posicionado no papel.

Mas existe um porém neste ciclo específico que me deixa com menos convicção do que a história normalmente justificaria. 

Eleições, dívida pública e gastos: por que este ciclo é diferente?

O segundo semestre de 2026 começa com pelo menos três fatores que tornam o ambiente mais complexo do que o simples nível das taxas sugere. 

O impacto das eleições sobre a economia e os juros

O primeiro é o calendário eleitoral. Eleição no Brasil historicamente produz dois efeitos no mercado financeiro: ela aumenta a volatilidade dos ativos de risco e dos títulos públicos de prazo mais longo, e aumenta a pressão para que o governo gaste mais, seja para sustentar popularidade ou para financiar promessas de campanha.

Esse efeito sobre o fiscal é o que mais preocupa em um momento como o atual, porque ele acontece exatamente quando a situação das contas públicas já não tem margem para folgas.

Por que a dívida pública preocupa o mercado

O segundo fator é a trajetória da dívida pública, que neste momento tem uma matemática brutal. 

A dívida bruta do governo está em torno de 80% do PIB e deve alcançar 83,8% ainda em 2026, segundo projeções do mercado. 

O custo de carregamento dessa dívida está na faixa de 13% ao ano. O PIB cresce em torno de 2% ao ano. 

Ou seja, o numerador da equação cresce a 13% e o denominador, a 2%. Para que essa trajetória se estabilize, o governo precisaria gerar um superávit primário robusto ano após ano, que é o excesso de arrecadação sobre gastos antes do pagamento de juros. 

O que está acontecendo na prática é o contrário.

Em maio de 2026, o governo central registrou déficit primário de R$ 53,3 bilhões, 32% acima dos R$ 40,2 bilhões registrados em maio de 2025. 

No acumulado de janeiro a maio, o déficit chegou a R$ 44,4 bilhões, enquanto no mesmo período de 2025 havia um superávit de R$ 32,9 bilhões. 

A reversão é expressiva: saímos de um resultado positivo para um resultado fortemente negativo em 12 meses. 

As despesas cresceram 9,4% em termos reais no comparativo anual, quase o dobro do ritmo de crescimento das receitas, de 4,9%

Esse diferencial entre gastos e arrecadação, mantido por período prolongado, é exatamente o que torna a dívida uma bola de neve.

Inflação elevada aumenta o risco para a renda fixa?

O terceiro fator, e talvez o mais importante para o posicionamento de renda fixa, é que o Banco Central (BC) não tem o espaço que normalmente teria para suavizar esse quadro.

Quando a dívida cresce rápido e o fiscal deteriora, a saída clássica seria um ciclo de queda de juros que reduziria o custo de carregamento da dívida e daria mais fôlego às contas públicas. 

Mas para que o Banco Central possa cair os juros, ele precisa de inflação convergindo para a meta. 

O que temos hoje é exatamente o contrário: inflação acelerando, expectativas desancoradas e IPCA projetado em mais de 5% para 2026 e acima de 4% para 2027, ambos acima do centro da meta de 3%.

Isso cria um cenário de encruzilhada. 

O que é dominância fiscal e por que ela importa

Se o Banco Central mantiver os juros altos para controlar a inflação, o custo da dívida pública segue elevado e a trajetória fiscal piora ainda mais. 

Se ele ceder à pressão e cortar mais do que o ambiente inflacionário justifica, a inflação pode sair ainda mais do controle, forçando uma alta de juros no futuro que seria ainda mais custosa. 

Esse cenário pode evoluir para o que os economistas chamam de dominância fiscal: o momento em que a situação da dívida pública começa a tornar a política monetária ineficiente, pois o aumento de juro provoca o aumento da inflação. 

Ainda não chegamos lá, mas o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Instituição Fiscal Independente (IFI) já sinalizam que, se o ajuste estrutural não vier em 2027, esse risco passa de teórico para concreto.

Como estou posicionando minha carteira de renda fixa no segundo semestre

Olhando tudo isso em conjunto, começo o segundo semestre mais temerosa do que estava em janeiro.

Não porque o retorno da renda fixa deixou de ser atraente; é atraente. Mas porque o risco de cauda, aquele cenário de baixa probabilidade e alto impacto, cresceu ao longo dos últimos seis meses.

No começo de 2026, o mercado ainda alimentava a esperança de queda de juros consistente ao longo do ano, de estabilização da inflação e de melhora gradual do fiscal. 

Hoje, com o déficit de maio R$ 13 bilhões acima do mesmo mês do ano passado, as expectativas de inflação passando de 5%, o Banco Central esticando o horizonte relevante da política monetária para justificar cortes que talvez não devessem acontecer, e eleições criando incentivos para mais gastos e mais instabilidade, o cenário que se desenhava no início do ano ficou mais nebuloso.

A história ensina que juro real acima de 7% é uma raridade e que quem compra nesse patamar tende a se dar bem no longo prazo. 

Porém, a história também ensina que juros altos com fiscal descontrolado, inflação resistente e eleições no horizonte podem terminar de formas que ninguém gosta de lembrar. 

O Brasil de 2013 a 2016 é a referência mais recente.

Por isso, minha postura para o segundo semestre é de cautela ativa. 

Minha estratégia para os próximos meses

Isso significa manter exposição em renda fixa, porque as taxas são genuinamente altas e o retorno esperado compensa o risco na maior parte dos cenários razoáveis. 

Mas significa também não concentrar em prefixados longos, que são os mais vulneráveis a uma eventual deterioração adicional das taxas, e manter uma parcela relevante em pós-fixado e IPCA+ de prazo moderado, que oferecem mais proteção se o cenário piorar além do que os modelos atuais projetam. 

E significa, acima de tudo, garantir que parte do patrimônio esteja fora do Brasil, em economias que não dependem das mesmas escolhas de política fiscal e monetária que estamos discutindo aqui.

Esperava chegar ao meio do ano com mais clareza sobre a trajetória. Em vez disso, estou chegando com mais perguntas do que respostas. 

E quando as perguntas são muitas e as respostas são incertas, a prudência é a posição mais honesta que posso oferecer.

Monte uma carteira de renda fixa para o segundo semestre

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