Renda fixa nas eleições: vale trocar prefixados por IPCA+?
Entenda os impactos das eleições na renda fixa, a queda dos juros prefixados e por que os títulos IPCA+ podem oferecer oportunidades e proteção à carteira
O resultado do primeiro turno das eleições provocou um forte rali no mercado financeiro brasileiro, impulsionando a bolsa e valorizando os títulos de renda fixa. O movimento reflete, principalmente, as expectativas em relação à nova composição do Congresso Nacional e à possibilidade de avanços no ajuste fiscal.
Mas será que essa valorização ainda tem espaço para continuar? Ou o melhor momento para reduzir riscos e realizar parte dos ganhos já chegou?
Na minha avaliação, a renda fixa nas eleições merece uma atenção especial, principalmente depois da queda expressiva das taxas dos títulos prefixados e indexados à inflação. Apesar da reação positiva do mercado, o resultado da disputa presidencial permanece indefinido, e a volatilidade pode aumentar nas próximas semanas.
Por isso, acredito que este seja um momento interessante para reavaliar as posições da carteira, especialmente nos títulos prefixados, que já acumularam ganhos relevantes com a marcação a mercado.
Sumário
- Como o resultado das eleições impacta a renda fixa?
- Por que as taxas dos títulos prefixados caíram tanto?
- Como a marcação a mercado gerou ganhos na renda fixa?
- O que falta para os juros de longo prazo caírem ainda mais?
- O que é inflação implícita e por que ela importa para os investimentos?
- Por que a inflação implícita caiu após o primeiro turno?
- Prefixado ou IPCA+: qual pode oferecer maior potencial de valorização?
- Vale a pena trocar títulos prefixados por IPCA+ agora?
- Como o segundo turno pode aumentar a volatilidade da renda fixa?
- Por que as small caps subiram tanto após as eleições?
- Como posicionar a carteira de investimentos antes do segundo turno?
Como o resultado das eleições impacta a renda fixa?
Um dos principais acontecimentos do primeiro turno foi a formação de um Congresso Nacional mais alinhado à centro-direita, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado.
Essa nova composição pode favorecer a aprovação de determinadas propostas econômicas, especialmente aquelas relacionadas ao controle das contas públicas. No entanto, o impacto dependerá de quem vencer a eleição presidencial e das prioridades do próximo governo.
Em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, uma composição parlamentar favorável poderia facilitar a aprovação de reformas e medidas de ajuste fiscal, desde que exista disposição política para implementá-las.
Por outro lado, em caso de vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, um Congresso mais conservador poderia limitar iniciativas de expansão fiscal consideradas excessivas.
Esse é um ponto importante porque a situação das contas públicas continua sendo um dos principais desafios da economia brasileira.
No cenário analisado, a dívida bruta está próxima de 82% do Produto Interno Bruto (PIB), com projeções que apontam a possibilidade de atingir 100% do PIB até 2030, caso não sejam adotadas medidas de ajuste.
Com taxas de juros elevadas, o crescimento da dívida aumenta o custo de financiamento do governo e pressiona as expectativas dos investidores.
Portanto, a perspectiva de um Congresso mais favorável à disciplina fiscal ajuda a explicar a reação positiva dos mercados após o primeiro turno.
Por que as taxas dos títulos prefixados caíram tanto?
A expectativa de melhora do cenário fiscal provocou uma queda expressiva nas taxas de juros de longo prazo.
Os títulos prefixados com vencimento em 2032, por exemplo, chegaram a oferecer taxas próximas de 15% ao ano nos meses anteriores à eleição.
Com a evolução das pesquisas eleitorais e a mudança nas expectativas dos investidores, essas taxas recuaram gradualmente para aproximadamente 14% ao ano.
Após o primeiro turno, a queda se intensificou. No primeiro pregão depois da votação, os títulos chegaram a negociar com taxas próximas de 12,67% ao ano.
Estamos falando de uma redução bastante significativa em um intervalo relativamente curto.
Na comparação com as máximas anteriores, a queda ultrapassou dois pontos percentuais, um movimento de grande magnitude para títulos de renda fixa de longo prazo.
Os títulos indexados ao IPCA também acompanharam a tendência, com reduções relevantes nas taxas reais oferecidas ao investidor.
Essa mudança nas taxas explica boa parte da valorização observada nos títulos públicos ao longo do período.
Como a marcação a mercado gerou ganhos na renda fixa?
A queda dos juros tem um efeito direto sobre o preço dos títulos de renda fixa por meio da marcação a mercado.
Esse mecanismo atualiza o valor dos papéis de acordo com as condições de negociação. Quando as taxas de mercado caem, os títulos adquiridos anteriormente com remunerações maiores tendem a se valorizar.
O contrário também acontece: quando as taxas sobem, os preços desses títulos tendem a cair.
Para entender a dimensão desse movimento, podemos considerar um título prefixado com vencimento em 2032.
Dependendo da duração do papel, uma redução de um ponto percentual na taxa de juros pode provocar uma valorização próxima de 7% em seu preço.
Assim, uma queda acumulada superior a dois pontos percentuais pode gerar ganhos expressivos para quem já estava posicionado.
Foi justamente o que aconteceu durante o rali recente. Alguns papéis apresentaram valorizações próximas de 20%, considerando o movimento acumulado das taxas.
É importante lembrar que esses ganhos dependem das características de cada título e podem oscilar até o vencimento.
Para quem pretende vender antecipadamente, a marcação a mercado representa tanto uma oportunidade de lucro quanto um risco de perda, caso os juros voltem a subir.
O que falta para os juros de longo prazo caírem ainda mais?
Depois de uma valorização tão expressiva, surge uma questão importante: ainda existe espaço para novas quedas nas taxas?
Acredito que sim, mas o movimento depende de uma melhora consistente nas perspectivas fiscais.
Uma taxa prefixada de longo prazo próxima de 12,5% ao ano já parece compatível com um cenário futuro de Selic ao redor de 9% ao ano, considerando a normalização gradual das condições monetárias.
Para que os juros de longo prazo recuem de forma muito mais intensa, será necessário que o próximo governo apresente sinais concretos de compromisso com o ajuste fiscal.
Isso envolve medidas capazes de melhorar a trajetória da dívida pública e aumentar a confiança dos investidores na sustentabilidade das contas do país.
Sem um esforço fiscal relevante, vejo menos espaço para a continuidade de uma queda tão acelerada dos juros. E existe outro fator que precisa ser considerado: o segundo turno ainda não está definido.
Com uma disputa eleitoral apertada, novas pesquisas, declarações dos candidatos e acontecimentos políticos podem provocar mudanças rápidas nas expectativas do mercado.
Por isso, considero importante avaliar se o retorno potencial adicional dos títulos prefixados ainda compensa o risco de uma reversão nas taxas.
O que é inflação implícita e por que ela importa para os investimentos?
A inflação implícita é um dos indicadores mais importantes para comparar a atratividade dos títulos prefixados com a dos títulos indexados ao IPCA.
De maneira simplificada, ela representa a inflação incorporada aos preços de mercado a partir da diferença entre a remuneração nominal de um título prefixado e a taxa real oferecida por um título IPCA+ de prazo equivalente.
Para entender melhor, imagine dois investimentos com vencimento em dez anos:
- Um título prefixado com taxa de 15% ao ano.
- Um título IPCA+ com remuneração real de 7% ao ano.
Em uma conta simplificada, a diferença entre as taxas seria de oito pontos percentuais.
Entretanto, a forma mais adequada de calcular a inflação implícita considera a composição das taxas:
Inflação implícita = [(1 + taxa prefixada) ÷ (1 + taxa real)] − 1
Nesse exemplo, a inflação implícita seria de aproximadamente 7,48% ao ano.
Na prática, esse indicador ajuda a entender qual nível de inflação está incorporado às taxas dos títulos e como o mercado está precificando os riscos inflacionários.
A inflação implícita não deve ser interpretada como uma previsão exata da inflação futura, pois também pode incorporar prêmios de risco e características de negociação dos papéis.
Ainda assim, acompanhar esse indicador é fundamental para avaliar as oportunidades relativas entre títulos prefixados e IPCA+.
Por que a inflação implícita caiu após o primeiro turno?
O movimento de valorização dos títulos públicos não aconteceu de maneira uniforme. As taxas dos prefixados recuaram de forma mais intensa do que as taxas dos títulos indexados ao IPCA, comprimindo o diferencial entre os dois investimentos. Como consequência, a inflação implícita também caiu significativamente.
Na análise dos títulos com prazo de cinco anos, esse indicador recuou de aproximadamente 5,5% para 4,9%.
Quando observamos uma série histórica mais longa, esse patamar está próximo de níveis bastante baixos, semelhantes aos registrados em determinados momentos de 2020.
Nos títulos de dez anos, a inflação implícita também passou a ficar próxima de 5%.
Esses números mostram que parte importante da melhora das expectativas econômicas já está refletida nos preços dos ativos.
Na minha visão, a inflação implícita já caiu bastante e, a partir desses níveis, existe menos espaço para uma compressão adicional expressiva.
Isso muda a relação entre o potencial de valorização dos títulos prefixados e dos papéis indexados ao IPCA.
Prefixado ou IPCA+: qual pode oferecer maior potencial de valorização?
Para entender a diferença entre os dois investimentos, precisamos observar como as taxas se comportam em diferentes cenários.
Quando a inflação implícita está elevada e existe expectativa de queda, os títulos prefixados podem apresentar um desempenho relativo melhor.
Isso acontece, por exemplo, quando a taxa nominal dos prefixados cai mais do que a taxa real dos títulos IPCA+.
Imagine um cenário inicial com um título prefixado oferecendo 15% ao ano e um IPCA+ pagando uma taxa real de 7%.
Se, posteriormente, a taxa prefixada cair para 10% e a taxa real do IPCA+ recuar para 6%, a inflação implícita calculada pela fórmula composta passará de aproximadamente 7,48% para 3,77%.
Nesse exemplo, o prefixado se beneficia de uma queda muito mais intensa de sua taxa, favorecendo uma valorização relativa maior.
Agora imagine outro cenário.
A taxa prefixada cai de 15% para 12%, enquanto a taxa real do IPCA+ recua de 7% para 3%.
Nesse caso, a inflação implícita sobe de aproximadamente 7,48% para 8,74%.
O movimento indica que a taxa real caiu mais intensamente e, mantidas as demais condições, o título IPCA+ tende a apresentar uma vantagem relativa na valorização.
É justamente esse segundo tipo de cenário que considero importante observar neste momento.
Depois da forte queda da inflação implícita, vejo uma relação entre risco e retorno mais interessante nos títulos indexados ao IPCA do que nos prefixados.
Isso não significa que os prefixados não possam continuar se valorizando. Significa que, aos níveis atuais da análise, sua vantagem relativa parece menor.
Vale a pena trocar títulos prefixados por IPCA+ agora?
Depois de uma valorização expressiva, acredito que vale considerar a realização de parte dos ganhos acumulados nos títulos prefixados.
Minha preferência neste momento é utilizar o rali para trocar parte dessas posições por papéis indexados ao IPCA. A principal justificativa está no comportamento da inflação implícita.
Como esse indicador já recuou bastante, considero que o potencial de ganho adicional dos prefixados em relação aos títulos IPCA+ ficou menos atrativo.
Além disso, os papéis indexados à inflação oferecem uma proteção importante para quem pretende mantê-los até o vencimento: a remuneração contratada acompanha a variação do IPCA, acrescida de uma taxa real.
Em um cenário de continuidade da melhora econômica, os títulos IPCA+ também podem apresentar ganhos de marcação a mercado, caso suas taxas reais continuem caindo.
Por outro lado, se as expectativas fiscais se deteriorarem, os prefixados poderão enfrentar uma pressão maior caso haja uma abertura mais intensa das taxas nominais.
Isso não elimina o risco dos títulos IPCA+, que também podem sofrer perdas de mercado quando suas taxas reais sobem.
Mas, considerando o comportamento recente da inflação implícita, prefiro o posicionamento em títulos indexados à inflação.
Naturalmente, qualquer troca precisa considerar o vencimento dos papéis, a tributação, os custos e o objetivo de cada investimento.
Como o segundo turno pode aumentar a volatilidade da renda fixa?
Um dos principais riscos para a continuidade do rali está na própria disputa eleitoral. Apesar da reação otimista dos investidores, considero que o resultado presidencial continua bastante aberto.
A diferença estreita entre os candidatos indica que pequenas mudanças nas intenções de voto podem alterar as probabilidades atribuídas pelo mercado a cada cenário.
Além disso, a abstenção registrada no primeiro turno pode ter influência importante sobre o resultado final. Eleitores que não participaram da primeira votação podem decidir comparecer ao segundo turno, alterando o equilíbrio da disputa.
Também precisamos considerar a possibilidade de novas informações políticas e econômicas influenciarem as expectativas dos investidores nas próximas semanas.
Historicamente, períodos de incerteza eleitoral podem provocar oscilações relevantes nos mercados, especialmente quando há dúvidas sobre a condução futura da política fiscal.
Se as expectativas piorarem, as taxas de juros podem voltar a subir, revertendo parte dos ganhos recentes dos títulos públicos.
Por outro lado, sinais consistentes de compromisso com um ajuste fiscal podem sustentar novas quedas nas taxas.
É exatamente por essa combinação de oportunidades e riscos que prefiro adotar uma postura mais cautelosa antes da definição eleitoral.
Por que as small caps subiram tanto após as eleições?
A reação positiva do mercado não ficou restrita aos títulos de renda fixa.
As ações de empresas de menor capitalização, conhecidas como small caps, também apresentaram valorizações expressivas após o primeiro turno.
Alguns desses papéis registraram altas entre 15% e 25%, refletindo principalmente a expectativa de queda dos juros e de melhora das condições econômicas.
As small caps costumam apresentar maior sensibilidade às mudanças nas taxas de juros.
Isso acontece porque muitas dessas empresas dependem mais das condições de financiamento, do custo de capital e do desempenho da economia doméstica.
Quando os juros caem, o ambiente tende a se tornar mais favorável para empresas com projetos de crescimento, necessidades de financiamento e receitas ligadas à atividade econômica.
Além disso, taxas de desconto menores podem elevar o valor presente dos resultados futuros dessas companhias, favorecendo suas ações. Porém, essa sensibilidade também funciona no sentido contrário.
Se o cenário eleitoral frustrar as expectativas e provocar uma nova alta dos juros, parte da valorização poderá ser devolvida ao mercado.
Mesmo depois do rali, vejo oportunidades em determinadas small caps, especialmente em empresas negociadas com múltiplos de preço sobre lucro significativamente abaixo de suas médias históricas.
Entretanto, não considero necessário assumir toda essa exposição antes de termos maior clareza sobre o resultado eleitoral.
Se o ambiente econômico realmente melhorar, acredito que ainda haverá oportunidades para investir em boas empresas e participar de um eventual ciclo de valorização mais prolongado.
Como posicionar a carteira de investimentos antes do segundo turno?
O primeiro turno trouxe uma mudança importante nas expectativas do mercado, mas ainda não eliminou as incertezas sobre o futuro da economia brasileira.
Os títulos prefixados já registraram ganhos relevantes, a inflação implícita recuou para patamares baixos na comparação histórica apresentada e as small caps tiveram uma valorização expressiva. Em outras palavras, parte do cenário positivo já está refletida nos preços dos ativos.
Por isso, não vejo necessidade de aumentar excessivamente o risco da carteira neste momento.
Minha preferência é aproveitar o rali para reduzir parte da exposição à bolsa, realizar ganhos em determinadas posições e substituir parte dos títulos prefixados por papéis indexados ao IPCA.
Essa estratégia não representa uma aposta em um candidato específico, mas uma forma de equilibrar o potencial de valorização com os riscos de uma eleição ainda indefinida.
Caso o próximo governo apresente um plano fiscal consistente, poderemos observar novas quedas nas taxas de juros e uma valorização adicional dos ativos brasileiros.
Nesse cenário, os títulos IPCA+ também podem se beneficiar, enquanto a bolsa poderá oferecer oportunidades interessantes, principalmente em empresas mais sensíveis ao ciclo econômico.
Por outro lado, se houver uma deterioração das expectativas fiscais, uma carteira menos exposta a ativos voláteis poderá enfrentar melhor as oscilações do mercado, embora não esteja imune a perdas.
Neste momento, prefiro preservar parte dos ganhos acumulados, reduzir riscos e aguardar maior clareza sobre o cenário eleitoral e fiscal.
Investir não deve ser uma aposta binária sobre quem vai vencer a eleição. O mais importante é construir uma carteira preparada para diferentes resultados, sem depender exclusivamente de um único cenário para obter bons retornos.

