Uma vez por mês, os analistas da Nord e a equipe de alocação da nossa área de Wealth se reúnem em comitê de investimentos para debater, com bastante franqueza, onde estão as oportunidades e os riscos que não compensam. É esse encontro que sustenta as decisões de alocação das carteiras dos clientes de Wealth da casa.

No último comitê, realizado em julho, três temas dominaram a mesa: a queda abrupta dos semicondutores, que caíram até 39% em cinco semanas depois de subir mais de 100% no ano; o momento do Ibovespa, negociando abaixo da média histórica; e onde ainda existe prêmio nos juros brasileiros. Confira a leitura da equipe sobre cada um — e o que ela indica para os próximos meses.

Por que os semicondutores caíram até 39% em cinco semanas

O setor que mais brilhou em 2026 virou, em cinco semanas, o que mais machucou. Até 22 de junho, os números eram de outro planeta. O SOXX, principal ETF de semicondutores lá fora, acumulava alta de 118% no ano. A Coreia do Sul subia 111%, o SMH avançava 86%, o Japão, 40%, e a Nasdaq, 20%.

Gráfico mostrando o desempenho acumulado em 2026 até 22 de junho dos índices Coreia (KOSPI), Semicondutores (SMH), Japão (Nikkei), Nasdaq e S&P 500, com a Coreia liderando a alta com mais de 111% no período.
 Fonte: Bloomberg. Elaboração Nord Investimentos

De 22 de junho até o dia 29 de julho, o filme rodou ao contrário e em velocidade acelerada. A Coreia caiu 39%, o SOXX recuou 25%, o SMH perdeu 21%, o Japão cedeu 15% e a Nasdaq, 9%.

Gráfico mostrando a queda acumulada dos índices Coreia, Semicondutores (SMH), Japão, Nasdaq e S&P 500 entre 22 de junho e 29 de julho de 2026, com a Coreia caindo cerca de 38% no período.
 Fonte: Bloomberg. Elaboração Nord Investimentos

Passamos boa parte do comitê tentando responder a uma pergunta simples: isso é um problema de fundamento ou de posicionamento? Nossa leitura é que foi majoritariamente um movimento técnico, por três motivos que se somaram.

O primeiro veio do Federal Reserve. Com a sinalização de juros mais altos à frente, a taxa de desconto subiu e penalizou de forma desproporcional justamente os ativos de fluxo de caixa mais longo, como é o caso do setor de tecnologia.

O segundo foi um abalo na narrativa. Quando a Meta anunciou uma unidade para vender capacidade computacional excedente, o mercado saiu do roteiro de escassez perpétua de chips e passou a discutir a possibilidade de sobra de capacidade.

O terceiro, e o mais importante para explicar o tamanho do tombo, foi o desmonte de posicionamento. A alocação líquida global de fundos em semicondutores começou o ano em 10%, dobrou ao longo do primeiro semestre e bateu 24% em junho, o maior nível já registrado. Quando o mercado virou, a redução de risco veio em bloco, em um movimento que tem mais a ver com limite de mandato do que com mudança de opinião sobre o setor. Na Coreia, onde Samsung e SK Hynix respondem por mais de 40% do índice, a coisa foi ainda mais mecânica, com estrangeiros obrigados a vender por estouro de limites de concentração.

Aqui está o ponto que separa uma correção de uma crise: venda por gestão de risco se esgota; por deterioração de fundamento, não.

O que não caiu foram os lucros. As projeções de resultado para os próximos doze meses seguem sendo revisadas para cima em todos os mercados atingidos, e de forma impressionante na Coreia, onde as estimativas acumulam alta de 182% no ano.

Gráfico mostrando a revisão para cima das projeções de lucro por ação em 2026 para Coreia, Japão, Nasdaq e S&P 500, com a Coreia acumulando alta de 182% nas estimativas apesar da queda no preço das ações.
 Fonte: Bloomberg. Elaboração Nord Investimentos

O preço caiu, o lucro esperado subiu. É essa divergência que abre a janela.

Por isso, enxergamos ali uma oportunidade de posicionamento, com uma ressalva importante. Essa é uma posição que ainda deve trazer volatilidade nos próximos meses e não faz sentido para todo mundo. Ela cabe ao investidor de perfil moderado a arrojado, que entende a natureza cíclica do setor, aceita oscilações fortes no caminho e sabe dimensionar a exposição de forma controlada. 

Nossa visão de médio e longo prazo para a cadeia de inteligência artificial segue construtiva, e é isso que sustenta a tese.

Ibovespa: por que vale a pena olhar para ações brasileiras agora

O contexto da bolsa doméstica já apareceu por aqui em outras edições, então vou direto ao ponto. 

O bom começo de ano veio do fluxo estrangeiro, e o sofrimento recente veio exatamente da reversão desse mesmo fluxo. Hoje, o Ibovespa negocia a 8,3 vezes o lucro projetado, contra uma média histórica de 10,2 vezes.

Gráfico de linhas mostrando a evolução do múltiplo P/E projetado para os próximos 12 meses do Ibovespa entre 2016 e 2026, atualmente em 8,3 vezes, abaixo da média histórica de 10,2 vezes e próximo da banda inferior de desvio padrão.
 Fonte: Bloomberg. Elaboração Nord Investimentos

Reconhecemos que as perspectivas estruturais não são as mais animadoras neste momento. Mas há uma diferença entre um cenário ruim e um cenário ruim já embutido no preço. E, com o risco eleitoral e boa parte do risco estrutural do país já refletidos nos múltiplos, entendemos que existe espaço para algum posicionamento, sempre em concentração controlada.

A discussão mais rica do comitê, porém, não foi sobre quanto alocar, e sim sobre como. Debatemos bastante se a gestão ativa continua fazendo sentido nas carteiras. 

A resposta é sim, ela continua tendo o seu lugar. Só que o amadurecimento do mercado de ETFs no Brasil abriu alternativas interessantes para a parte estrutural da alocação.

Estamos falando de ETFs que reúnem empresas com maior previsibilidade de receitas, como os de dividendos e os de utilities, a exemplo do DIVO11, UTLL11, NSDV11 e outros do mesmo estilo, em meio a um país que entrega muita volatilidade nos ciclos econômicos.

Esse tipo de carteira costuma capturar bem os movimentos de alta da Bolsa e, ao mesmo tempo, oferecer alguma proteção nos momentos ruins, caindo menos que o índice na média. Ao longo do tempo, essa combinação tem entregado desempenho competitivo e, em vários períodos, superior ao de boa parte dos gestores ativos.

A conclusão a que chegamos é que é possível montar um núcleo da exposição em Bolsa de forma mais estrutural, apoiado nesses veículos e em poucos gestores ativos de qualidade, e complementar esse núcleo com posições oportunistas, conforme o cenário permitir e oportunidades interessantes aparecerem. Isso não exclui small caps ou empresas sensíveis a juros, muito pelo contrário. Elas entram quando o momento pede, e não como base permanente da carteira, com essa parcela da gestão ativa podendo trazer um belo diferencial de performance no longo prazo para uma carteira de ações bem construída.

Juros e crédito privado: onde está o prêmio para os próximos meses

Antes de falar de alocação, vale registrar que discutimos os últimos dados de inflação, e eles foram positivos

A composição melhorou, com desaceleração dos núcleos e dos serviços, e a queda dos preços dos alimentos ajudou bastante. Isso abre espaço para que o Banco Central promova provavelmente mais um corte na reunião do Copom desta semana, exatamente o movimento já precificado pela curva de juros: 0,25 ponto percentual. 

Ainda assim, seria precipitado dizer que a inflação está resolvida. Os indicadores qualitativos ainda não estão baixos de forma consistente, as expectativas do mercado seguem desancoradas da meta, o mercado de trabalho continua aquecido e a atividade desacelera, mas de forma incipiente. 

Traduzindo para a carteira: podemos ver mais algum movimento de queda pela frente, mas o cenário prospectivo ainda é de Selic elevada por bastante tempo, porque o caminho até a meta de 3% ainda é longo.

Gráfico de linhas comparando a precificação do mercado para a taxa Selic em três momentos diferentes (dezembro de 2025, abril de 2026 e julho de 2026), mostrando a trajetória esperada da Selic até 2028, com a curva de julho projetando juros mais altos do que as curvas anteriores.
Fonte: Bloomberg. Elaboração Nord Investimentos 

É justamente esse ambiente que cria o prêmio

Assim como na Bolsa, enxergamos uma boa parte do risco já precificado tanto nos juros nominais quanto nos reais. O juro real de dez anos ronda os 8%, um patamar que historicamente costuma se mostrar uma porta de entrada interessante. Mas vale o alerta: ninguém dá dinheiro de graça, se existe esse prêmio, é porque há poucos compradores, dado o alto risco fiscal da economia.

Vemos sentido em carregar risco de mercado em juros, de forma controlada, com preferência pelos títulos indexados à inflação. 

Os prefixados também têm prêmios interessantes, mas trazem mais volatilidade na bagagem, enquanto o IPCA+ oferece um controle melhor desse balanço. 

Um exemplo do que gostamos é o Tesouro IPCA+ 2032, negociado a taxas em torno de 8,3%. Prazo intermediário, juro real alto e uma assimetria que nos parece favorável. Evitamos alongar demais os vencimentos, porque títulos de longuíssimo prazo agregam risco em excesso à carteira.

Vale entender por que o juro real pode cair, porque existem dois caminhos, e eles são bem diferentes entre si. 

O primeiro é o cenário bom, com maior eficiência e melhor direcionamento dos gastos públicos e um arcabouço fiscal mais crível, o que reduz o prêmio de risco exigido pelo investidor. 

O segundo é o cenário ruim, em que a inflação sobe de forma significativa e corrói o componente real da taxa, já que o título paga a inflação acumulada mais o cupom. 

Nos dois casos, o carrego do IPCA+ é beneficiado, ainda que por motivos opostos, e é isso que torna esse ativo um bom equilibrador dentro da carteira.

Nada disso reduz a importância do pós-fixado. 

O investidor segue sendo muito bem remunerado para não correr risco, e manter uma parcela importante em CDI e Selic continua fazendo todo o sentido, especialmente para quem tem perfil mais conservador. A ideia é complementar essa base com uma dose de risco de mercado, não substituí-la.

Já em crédito privado, nossa postura segue mais cautelosa. Depois dos casos de recuperação judicial que marcaram o ano, os spreads abriram, mas entendemos que boa parte desse movimento já aconteceu sem que ele tenha se convertido em uma oportunidade clara. Com os fundos da categoria ainda enfrentando resgates, preferimos esperar

Seguimos monitorando de perto, e se a janela abrir para crédito privado, estaremos preparados.

Da mesa do comitê para a sua carteira

Comitê como esse é o que nos permite separar o que é barulho do que é oportunidade. Cada uma das decisões de hoje — quanto alocar em semicondutores depois de uma queda de 25%, como equilibrar gestão ativa e ETFs na Bolsa, onde vale a pena carregar risco em juros — passou pelo mesmo processo: dados, debate entre analistas e disciplina, nunca impulso.

É esse mesmo processo, aplicado à carteira inteira e não a cada posição isoladamente, que sustenta as decisões dos nossos clientes de Wealth mês a mês.

A questão é que as respostas não são iguais para todos os investidores. A mesma oportunidade pode fazer sentido para uma carteira e não para outra, dependendo dos objetivos, do horizonte e do nível de risco que cada pessoa está disposta a assumir.

Se você quiser entender como essas discussões se traduzem para o seu patrimônio, vale conversar com a nossa equipe.