Ele tinha R$ 12 milhões de herança a caminho (e estava a dois anos de ficar sem nada).

A frase parece não fazer sentido. Mas ela resume um dos cases mais marcantes que já atendi na Nord Wealth, e uma armadilha que o brasileiro só descobre quando já está dentro dela: o inventário.

Quanto custa e quanto tempo leva um inventário no Brasil

No Brasil, a herança envolve um dos processos mais morosos e complexos em vigor.

Comece pelo que já está tabelado, antes de qualquer imprevisto.

O ITCMD, o imposto estadual sobre a herança, é de 4% em São Paulo e chega a 8% em outros estados. Os honorários advocatícios, usualmente, variam de 6% a 10%, a depender da complexidade do processo.

Soma: entre 10% e 14% do patrimônio só em imposto e honorários mínimos. Antes de custas, emolumentos e certidões.

E o tempo? O CNJ não publica uma série específica para inventários, mas divulga a média do Judiciário: os processos encerrados em 2025 levaram, em média, 2 anos e 4 meses. Os que ainda estão na fila já acumulam 3 anos e 7 meses.

Dois gráficos de barras: à esquerda, os percentuais tabelados de ITCMD (4% em São Paulo, até 8% em outros
Percentuais tabelados de ITCMD e honorários e tempo médio de tramitação judicial. Fontes indicadas no gráfico

Além disso, há um relógio correndo contra você desde o primeiro dia. Em São Paulo, se o inventário não for requerido em 60 dias após o falecimento, entra multa de 10% sobre o imposto. Passando de 180 dias, 20%.

Enquanto o processo corre, os bens ficam bloqueados. Você sabe que o dinheiro é seu. O juiz sabe que o dinheiro é seu. O advogado jura que “está andando”.

Só que o dinheiro não está na sua conta.

O case: ele largou o emprego contando com R$ 12 milhões de herança

O cliente, no caso, era profissional liberal, casado, tinha uma filha e morava em imóvel alugado.

Quando soube que receberia uma herança de aproximadamente R$ 12 milhões, tomou a decisão que talvez você já tenha fantasiado tomar: largou o trabalho.

Na cabeça dele, fazia todo sentido. R$ 12 milhões resolvem a vida de qualquer família. Para que continuar na esteira se a linha de chegada já apareceu?

O problema é que a linha de chegada não estava tão próxima quanto ele imaginava.

Quando chegou até nós, o quadro era este:

Seis indicadores resumindo a situação financeira do cliente na primeira reunião: herança esperada de R$ 12 milhões (travada no inventário), patrimônio investido de R$ 1,1 milhão (era R$ 2 milhões há pouco tempo), renda mensal de R$ 0 (largou o trabalho ao saber da herança), despesas mensais de R$ 50 mil (incluindo os custos do inventário), retirada mensal de cerca de 5% do patrimônio, e liquidez imediata de R$ 0 (COE com multa de 30% para sair antecipadamente).
Raio-X da situação na primeira reunião. Valores adaptados para preservar o cliente. Fonte: Nord Wealth

Os R$ 2 milhões que ele tinha investidos haviam virado R$ 1,1 milhão. Novecentos mil reais consumidos desde que parou de trabalhar.

Renda mensal: zero. Despesas: R$ 50 mil por mês. Incluindo, ironia das ironias, os custos do próprio inventário que ele precisava bancar para um dia receber a herança.

Faz a conta comigo: R$ 50 mil saindo de R$ 1,1 milhão é uma retirada de quase 5% do patrimônio ao mês.

Ao mês. Não ao ano.

Para referência: um plano de aposentadoria sustentável trabalha com retiradas nessa ordem de grandeza por ano.

E a carteira? Com as retiradas de R$ 900 mil já realizadas, a carteira ficou montada para um mundo que não existia mais. 

Liquidez imediata era zero. Um terço do patrimônio em bolsa. Uma posição travada num COE com multa de 30% para resgate antecipado. E a renda fixa concentrada em papéis que só viravam dinheiro quando vendidos com deságio no mercado secundário.

Todo fim de mês, ele era um vendedor forçado.

Quanto tempo o patrimônio dele aguentaria sem a herança

Ele sentou-se na nossa frente com três perguntas. As mesmas que talvez você faria no lugar dele:

De onde eu tiro os R$ 50 mil do mês? Quanto tempo meu patrimônio aguenta? Eu vou precisar voltar a trabalhar?

A primeira coisa que fizemos foi rodar a projeção e colocar o número na tela:

Gráfico de linha mostrando a evolução do patrimônio de R$ 1,1 milhão até zerar aos 48 anos de idade do cliente — dois anos depois da primeira reunião —, considerando retiradas de R$ 50 mil por mês e juro real de 4,8% ao ano, caso a herança não entrasse a tempo.
 Evolução do patrimônio mantendo o ritmo de gastos, sem a entrada da herança. Fonte: Nord Wealth

Sem a herança, o patrimônio zerava em dois anos. Passado esse período, ele estaria sem patrimônio, sem renda, sem emprego e com uma família para sustentar.

Foi a primeira vez, em meses, que ele olhou para um número em vez de uma esperança.

Como a Nord Wealth reorganizou a carteira

Reorganizamos a casa em três movimentos.

1. Liquidez virou prioridade absoluta.

2. Vendemos os ativos de menor deságio no mercado secundário.

3. Saímos das ações, independentemente da visão da Nord para o mercado.

Com a carteira reorganizada, rodamos os cenários de retirada mensal a depender do tempo para a entrada da herança:

Se a herança entrar em um ano, o patrimônio consolidado sustenta retiradas vitalícias na casa de R$ 47 mil mensais. 

Se demorar dois anos, cerca de R$ 45 mil. Diferença pequena aqui, o ponto era realmente o dinheiro não acabar no período.

O cliente, no final das contas, saiu da reunião com um prazo: se o inventário passar de determinado ponto, ele volta a gerar renda.

3 lições sobre contar com um dinheiro que ainda não chegou

Você já fez isso. Eu já fiz isso. A maioria das pessoas já fez. 

O bônus que "é praticamente garantido" virou jantar comemorativo antes da hora. A restituição do Imposto de Renda que já tinha destino antes de a Receita sequer processá-la. O 13º que virou reforma da cozinha em outubro.

Na maioria das vezes, dá certo e você nem lembra. Quando não dá, é um aperto de dois meses e uma lição barata.

Meu cliente fez exatamente a mesma coisa, mas em outra escala.

Ele não comprometeu um mês de salário contando com o bônus. Comprometeu a renda da família inteira contando com um processo lento e imprevisível.

Ficam três lições desse case:

1. Liquidez é oxigênio. Ninguém pensa nela até faltar. Quando falta, é a única coisa que importa, e acaba exigindo movimentos bruscos em momentos ruins.

2. Sua carteira precisa conversar com a sua vida. Uma alocação tecnicamente inteligente pode ser um desastre para o seu momento atual.

3. Dinheiro fora da conta não é dinheiro no bolso. Não tome decisões irreversíveis com base em patrimônio que ainda depende de fatores externos.

Está esperando (ou vai deixar) uma herança?

A herança do meu cliente vai chegar.

Mas entre o “vai chegar” e o “chegou” existe um vale onde muita família escorrega. Não por falta de dinheiro, mas por falta de plano.

Se está no meio de um inventário, ou sabe que um dia vai estar, como herdeiro ou como quem deixa, vale conversar antes de o relógio virar contra você.