Ações para sempre

Se você acompanha a Nord há algum tempo, já deve ter nos visto escrever e falar várias e várias vezes que ações são para o longo prazo.

Eu vou além: na minha opinião, ações são para sempre.

É lógico que a sua alocação em bolsa vai variar ao longo dos anos, a depender da fase do ciclo econômico em que o país se encontra, dos seus objetivos financeiros, do conhecimento/disponibilidade para estudar/acompanhar as empresas em que investe, do seu apetite/tolerância a risco etc.

Mesmo que você tenha mais ou menos bolsa ao longo da sua jornada de construção/multiplicação patrimonial, as ações sempre devem ter algum espaço em sua carteira.

Ainda mais em um país com taxas de juros “normais”, e não aquelas acima de dois dígitos com as quais o brasileiro, infelizmente, acabou se acostumando.

Entretanto uma distinção importante precisa ser feita: quando digo que ações são para sempre, estou dizendo que acredito que você deverá sempre manter alguma parcela dos seus recursos investidos em empresas da bolsa, mas não necessariamente nas mesmas empresas sempre.

É comum confundir investir no longo prazo com comprar e esquecer, mas acontece que as empresas e os preços de suas ações mudam ao longo do tempo e, em algum momento, até uma empresa muito boa pode deixar de ser um bom investimento se seu preço deixa de fazer sentido.

Os preceitos do Value Investing nos ensinam a focar no longo prazo, simplesmente porque os ciclos empresariais demandam alguns anos para se concretizar.

Uma empresa precisa primeiro planejar e então investir, para depois lançar seu produto/serviço no mercado e, finalmente, após a maturação do produto, começar a colher os frutos, caso sua estratégia e execução forem acertadas.

Acontece que entre um bom plano e o sucesso de um projeto existem alguns anos de intervalo, e as boas empresas não vão se acomodar após um sucesso, vão começar tudo de novo, reinvestindo os lucros obtidos.

Então quando recomendamos que você invista em ações com foco no longo prazo, estamos simplesmente alinhando suas expectativas.

Sabemos que as oscilações de curto prazo no preço das ações são completamente imprevisíveis e em alguns casos até descorrelacionadas com a realidade das empresas naquele momento, inclusive são nesses pontos em que as oportunidades surgem.

Mas também sabemos que quando alongamos o horizonte de investimento, a correlação entre os resultados das empresas e o movimento de suas ações se torna uma realidade.

Não basta comprar bem

Apesar de as ações (no plural) serem para sempre, nenhuma ação (no singular) é.

A relação entre a qualidade de uma empresa (seu valor) e seu preço é o que define um bom investimento. Esses dois elementos sempre precisam ser analisados em conjunto na hora de tomar alguma decisão.

Para classificar uma empresa como um bom investimento, é preciso encontrar uma que esteja negociando abaixo do seu valor, seja porque é bom ou cresce demais, seja porque está barato demais.

Mas como esses dois elementos (o valor da empresa e o seu preço) podem variar em ritmos ou até em caminhos diferentes no curto prazo (às vezes até em alguns anos), comprar uma ação e simplesmente esquecê-la não é uma boa ideia.

Para ter sucesso na bolsa, você precisa não apenas comprar na hora certa, mas também vender na hora certa.

Caso contrário, a probabilidade de sucesso, que no momento da compra estava a seu favor, pode se inverter. E como ninguém consegue prever o futuro, investir com as probabilidades ao seu lado é a única forma de obter retornos consistentes.

Saber a hora de vender é tão importante quanto saber a hora de comprar.

A literatura que te ensina a comprar uma ação é vasta. Existe uma enxurrada de excelentes livros que te mostram como escolher as melhores ações. Entretanto, poucos falam sobre a outra ponta: a venda.

Três motivos que justificam a venda de uma ação

Assim como eu acredito que para identificar um bom investimento não existe uma fórmula mágica, mas sim uma mistura de ciência, arte e esforço (by Peter Lynch), para sair de um investimento não é diferente.

Eu gostaria muito que uma análise estatística ou gráfica fornecesse o ponto de saída ideal ou que um valor estimado para um preço-alvo fosse realmente confiável.

Infelizmente, não é assim que funciona na hora de comprar e também não seria assim que funcionaria na hora de vender.

Na minha opinião, existem 3 motivos que justificam a venda de uma ação:

1. A tese se concretizou

Segundo Bruce Greenwald, escritor de um dos melhores livros sobre Value Investing, existem 3 fontes de valor em uma empresa.

A primeira é o valor de reprodução daqueles ativos (quanto custaria para reproduzir maquinários, marca, expertise, tecnologia etc.), a segunda é a capacidade de geração de lucros atual da empresa (se ela construiu alguma vantagem competitiva, lucra e vale mais), e a última é o valor do crescimento (que inclui o potencial de crescimento dos lucros futuros).

A depender da força das vantagens competitivas e dos riscos inerentes a cada negócio, podemos identificar por qual dessas fontes de valor vale a pena pagar.

Independentemente de qual seja a fonte de valor, quando você faz um investimento bem fundamentado, o faz porque acredita que o preço da ação naquele momento é inferior ao seu valor, isso é o que chamamos de tese de investimento.

Com o passar do tempo, sua tese pode simplesmente se concretizar. O preço da ação pode chegar a um patamar próximo daquele que poderia ser considerado justo em relação ao valor dos ativos ou à capacidade de geração de lucros da empresa, ou o bom crescimento pode cessar.

Nesses casos, é hora de se despedir e partir para o próximo investimento.

2. Fundamentos mudaram/erro de análise

Mesmo com muito estudo e análise, nunca saberemos tudo sobre uma empresa — nem quem está gerindo a empresa no dia a dia sabe, imagina quem está olhando de fora?

Além disso, as coisas podem simplesmente mudar ao longo do caminho, uma vantagem competitiva pode deixar de existir, o crescimento esperado pode deixar de ser factível, novos concorrentes ou produtos substitutos podem ameaçar a empresa, a regulação pode mudar etc.

Em alguns casos, as coisas vão realmente mudar, em outros, o risco já estava lá e apenas passou despercebido.

Mas não faz a mínima diferença se os fundamentos realmente mudaram ou se você apenas identificou um erro de análise por conta de algum acontecimento.

O fato é que caso isso aconteça e você conclua que o preço atual já não lhe garante a margem de segurança (diferença entre preço e valor) necessária para manter o investimento, também é hora de dizer adeus (ou até logo).

3. Oportunidade maior

Por fim, o último motivo que considero adequado para vender uma ação é quando encontramos uma oportunidade melhor.

Se identificamos uma empresa com uma relação de risco/retorno mais atrativa ou simplesmente que faça mais sentido para a composição de nosso portfólio no momento, podemos abrir mão de uma empresa que já não nos deixava tão confortáveis e, assim, realizarmos uma substituição de ativos.

Acredito que alguns leitores vão ficar decepcionados com os 3 motivos para vender uma ação, afinal nenhum deles é uma fórmula que diz o momento exato de sair de um investimento.

O segredo para ganhar dinheiro com ações não é a precisão, é a consistência.

Se você investe seu capital com disciplina e paciência, conhece profundamente as empresas em que investe e não deixa seu emocional influenciar suas decisões, você terá grandes chances de obter retornos formidáveis na bolsa ao longo dos anos.