Ontem foi a vez do Habib's. O Grupo Gennius, dono das redes Habib's, Ragazzo e Tendall Grill, teve a recuperação judicial aprovada pela Justiça de São Paulo, com uma dívida declarada de R$ 265 milhões e prazo de 60 dias para apresentar um plano de reestruturação. 

É mais uma vítima dos juros altos saindo no jornal.  

Já falamos bastante sobre isso por aqui: o Brasil fechou o primeiro semestre com mais de 6,3 mil empresas em recuperação judicial ativa, recorde da série histórica, alta de dois dígitos frente ao ano anterior. 

E se você está percebendo que está muito difícil para as empresas grandes, imagina para as pequenas: o número de microempresas em recuperação judicial subiu 133% desde 2023, o de pequenas empresas subiu 69% e o de médias, 31%.

O impacto que a gente enxerga de cara é o de curto prazo. Gente sendo mandada embora, vídeos impactantes circulando nas redes sociais, fornecedores que não recebem e, para os concorrentes que sobrevivem, uma fatia de mercado a mais para disputar sem aquele adversário no caminho. 

É desconfortável, mas é visível, e o mercado sabe precificar isso rápido.

O problema mais sério é o que fica escondido debaixo do capô: o efeito dessa quebradeira sobre o produto potencial da economia. 

O que é produto potencial e por que ele importa

Calma, sem economês. Vou explicar de um jeito simples, porque isso ajuda a entender boa parte do que acontece com a inflação no Brasil nos próximos anos. 

Produto potencial é a soma de tudo que o país consegue produzir quando todo mundo que pode trabalhar está trabalhando, toda fábrica está rodando, toda loja está aberta e todo restaurante está com a cozinha funcionando no limite. É o teto de produção da economia, o tamanho máximo que ela consegue entregar quando está em plena forma.

Pense em uma cidade que tem 20 padarias. Elas dão conta de abastecer o município inteiro de pão, mesmo nos dias de maior movimento. 

Se cinco dessas padarias fecham, a capacidade de produzir pão daquela região caiu de forma permanente. No dia seguinte, a demanda das pessoas por pão continua praticamente a mesma. Só que agora ela precisa ser atendida por 15 padarias, não por 20. 

Basta a cidade crescer um pouco, ganhar novos moradores ou aumentar a renda para que essas 15 padarias já não deem conta.

É exatamente esse o mecanismo por trás do produto potencial. 

O que acontece quando empresas fecham

Quando dezenas de milhares de empresas encolhem, fecham linhas de produção ou somem do mapa por causa de processos de recuperação judicial, a capacidade produtiva do país cai junto

O trabalhador demitido de uma dessas empresas eventualmente encontra outro emprego, mas muitas vezes leva tempo para recolocar toda a experiência e a produtividade acumuladas naquela função. 

A máquina que parou de rodar, o ponto comercial que fechou, o fornecedor que perdeu know-how, tudo isso é capacidade produtiva que se perde e demora a voltar.

O resultado aparece um pouco mais à frente. 

Com um teto de produção mais baixo, aumentos de demanda que antes seriam absorvidos sem problema — com o Banco Central baixando juro, com o governo gastando mais e com o crédito voltando a fluir — passam a esbarrar em um setor produtivo menor. E, quando a demanda cresce mais rápido do que a capacidade de produzir, o ajuste vem pelo preço

Essa é a origem de boa parte da inflação que parece brotar do nada: é o consumo aquecido encontrando uma economia que já perdeu parte da sua capacidade de entregar.

Por que o juro no Brasil é estruturalmente mais alto

Isso ajuda a explicar por que o Banco Central brasileiro convive com um juro estrutural tão mais alto do que o de países desenvolvidos. 

Quando o teto de produção fica mais baixo, qualquer estímulo de demanda gera inflação mais cedo, e o Copom precisa segurar a atividade com juro alto para evitar que a economia bata nesse teto com força demais.

A conta da recuperação judicial anunciada ontem não fecha só no balanço do Habib's ou no bolso de quem perdeu o emprego nesta semana. Ela entra, aos poucos, em um número que a gente só sente meses ou anos depois: quanto o Brasil consegue crescer sem gerar inflação

Cada empresa que fecha as portas tira um tijolo desse teto, e reconstruir isso leva muito mais tempo do que levou para derrubar.

Para cessar esse ciclo vicioso, temos que ter o oposto. Seja por aumento de produtividade, seja por meio do investimento na ampliação da capacidade produtiva. Essa é a única forma de crescer sem gerar inflação. 

Infelizmente, o Brasil segue tomando o rumo mais difícil. E isso tem consequências nos juros altos, no risco da Bolsa e no retorno dos seus investimentos.