Política e investimentos: você decide como investidor ou como torcedor?
Política mexe com identidade e emoção, e isso pode contaminar a carteira. Confira o que a neurociência mostra e como investir sem torcida
Poucas regras de etiqueta são tão brasileiras quanto esta: política, religião e futebol não se discutem. Confesso que nunca concordei com ela. Discutir uma ideia é a forma mais honesta de testá-la. Mas, com os anos, passei a entender por que ela existe.
Curiosamente, esses são três assuntos sobre os quais a gente raramente debate de forma aberta. Na maior parte das vezes, a gente defende nossa posição com unhas e dentes.
Nestas semanas entre o primeiro e o segundo turno, essa regra tem me vindo à cabeça com frequência. As conversas sobre investimentos ficaram mais carregadas, e muitas vezes a pergunta sobre a carteira chega acompanhada de uma convicção forte sobre o país.
É compreensível. E é justamente por isso que vale olhar com calma para o que acontece dentro da nossa cabeça nesses momentos. Hoje, a carta não traz nenhuma análise ou convicção, apenas um convite à reflexão.
O que a neurociência mostra sobre crenças políticas e religiosas
Em 2009, um grupo de pesquisadores liderado por Sam Harris e Jonas Kaplan colocou 30 pessoas, metade cristãs e metade sem religião, dentro de um aparelho de ressonância magnética e pediu que avaliassem afirmações como verdadeiras ou falsas.
Sempre que a pessoa acreditava em algo, uma área se destacava: o córtex pré-frontal ventromedial, ligado à forma como representamos a nós mesmos. E as afirmações religiosas mobilizavam com mais força regiões associadas à emoção, como a ínsula.
Sete anos depois, os mesmos pesquisadores fizeram a pergunta com política. Apresentaram contra-argumentos às convicções de 40 pessoas e compararam crenças políticas com crenças comuns.
As comuns cederam; as políticas quase não se moveram. Diante do desafio político, o cérebro recorria à rede ligada à identidade, da qual a região pré-frontal medial faz parte, e a áreas ligadas à emoção e à sensação de ameaça, como a amígdala e, de novo, a ínsula.

Não é exatamente o mesmo ponto do cérebro, mas a sobreposição é clara. Nos dois casos, entram em ação as áreas ligadas à nossa identidade e às nossas emoções.
O próprio Kaplan resumiu bem: quando o cérebro considera algo parte de si, seja um pedaço do corpo, seja uma crença, ele o protege do mesmo jeito.
Quando a política vira identidade e entra na carteira de investimentos
Nada disso é uma crítica a quem tem fé ou a quem tem posição política. Convicções fazem parte de uma vida com sentido. O ponto é outro.
Para muita gente, a política deixou de ser apenas uma opinião sobre o país e passou a ocupar um lugar parecido com o de uma crença profunda, ligada a quem a pessoa é e ao grupo a que pertence. Crenças desse tipo têm uma característica: costumam ficar onde estão, mesmo quando os fatos mudam.
Na religião, isso raramente chega aos investimentos. Pouca gente define a alocação da carteira com base na própria fé. Com a política é diferente. Ela trata justamente de juros, inflação, câmbio e contas públicas e, por isso, entra na carteira com muito mais facilidade.
Quando entra carregando esse grau de devoção, a decisão deixa de ser uma análise e vira torcida. É um dos vieses que mais atrapalham quem investe. Para conhecer outros, leia 4 vieses comportamentais que podem afetar sua decisão de investimento.
Investimento não é torcida: como decidir sem viés político
Torcer faz todo sentido no estádio. O torcedor não precisa de motivo para continuar acreditando no time, e é bom que seja assim.
Investir, no entanto, pede o contrário: pesar cada cenário com frieza, mudar de posição quando os fatos mudam e não se apegar a nenhuma aplicação nem a nenhuma tese só porque ela combina com aquilo em que acreditamos.
Eleições importam para os mercados, às vezes muito. Mas uma carteira bem construída não precisa acertar quem vai ganhar.
Diversificar entre classes de ativos, moedas e prazos serve exatamente para isso: reconhecer que não sabemos qual futuro vai chegar e estar preparado para mais de um.
O teste: o que faria você mudar de ideia?
Há uma forma simples de perceber se você está decidindo como investidor ou como torcedor. Pergunte a si mesmo o que faria você mudar de ideia.
Se a resposta vier rápido e envolver fatos, como preço, prazo ou fundamento, ótimo. Se ela não vier, talvez seja a convicção falando mais alto do que a análise.
Como deixar as convicções do lado de fora do seu dinheiro
A regra da mesa nunca proibiu ninguém de ter convicções. Ela só reconhecia que alguns assuntos mexem com o que temos de mais íntimo e que, nesse estado, é difícil pensar com clareza.
Com o patrimônio, vale o mesmo. Você pode — e deve — ter as suas convicções. Só vale deixá-las do lado de fora quando a conversa for sobre o seu dinheiro.
A sua carteira aguenta qualquer resultado das urnas?
Até o segundo turno, o barulho deve aumentar. Fica uma pergunta para levar com você: da última vez que mexeu nos seus investimentos, quem decidiu foi o investidor ou o torcedor?
Se você não tiver certeza da resposta, ou se quiser saber se a sua carteira aguenta qualquer resultado das urnas, vale agendar uma conversa com o nosso time. A gente olha junto, com calma e sem torcida.
A Nord Wealth é hoje a wealth mais premiada do Brasil, com mais de R$ 12 bilhões sob custódia e a única Top Performer nos rankings XP e BTG. Nosso trabalho começa por perguntas como estas, antes de qualquer produto.

