Otis (OTIS): a empresa de elevadores por trás dos prédios mais altos do mundo
Enquanto o mercado americano sobe 70% em 5 anos, a Otis cai 17%. Entenda o modelo de negócio por trás da maior empresa de elevadores do mundo
A Otis (ticker: OTIS) está por trás dos elevadores de alguns dos prédios mais altos e icônicos do mundo, do Empire State Building ao Burj Khalifa. É uma das maiores empresas do setor, com um modelo de negócio que gera receita recorrente por décadas a partir de um único equipamento instalado.
Mesmo assim, nos últimos cinco anos, enquanto o mercado americano acumulou alta de mais de 70%, as ações da Otis caíram cerca de 17%. Entenda a história por trás da empresa, o que sustenta seu modelo de negócio e o que explica esse desempenho abaixo do esperado.
E se eu cortar a corda? A origem do elevador seguro
Nas minhas últimas férias, tive uma breve passagem de um dia e meio por Chicago. Acompanhado de uma pessoa que nunca havia visitado a Windy City, não poderíamos deixar de cumprir algumas daquelas atrações turísticas tradicionais. Entre elas, o Skydeck. Um passeio ao 103º andar da Sears Tower, hoje Willis Tower, com uma vista panorâmica incrível da cidade.
No meio do passeio, estava eu cronometrando o tempo que o elevador levaria para chegar ao topo, para depois calcular sua velocidade média. Acabou virando uma atração à parte. As outras pessoas perceberam o cronômetro no meu celular e, de repente, quase todo mundo estava acompanhando a subida junto comigo.
Besteira? Sem dúvidas. Ninguém pensa muito sobre “elevador” hoje em dia. A gente entra, deseja bom dia, abre o celular e espera chegar ao andar. A segurança virou pressuposto. O medo de elevador é mais raro do que o medo de balão de festa, inclusive. Mas faz sentido. Elevadores estão entre as formas de transporte mais seguras que existem.
Mas esse não foi o caso durante a maior parte da história.
Elevadores existem há milhares de anos. Só que, por muito tempo, foram usados principalmente para carregar bens e objetos, não pessoas. Afinal, se a corda de um mecanismo desses se rompesse, uma carga perdida seria um prejuízo. Com pessoas dentro… a conversa muda bastante.

Romper com o medo da morte foi necessário para que elevadores se tornassem meios de transporte populares. E foi isso que Elisha Otis fez em 1854.
O inventor apresentou em Nova York seu sistema de freios de segurança para elevadores em uma demonstração dramática. Ele entrou em uma plataforma suspensa por alguns andares e mandou cortarem a corda.
O elevador caiu alguns centímetros antes de o sistema de segurança ser ativado. A plateia ficou perplexa. Para a época, era uma mudança de paradigma enorme em transportes. Mas era ainda mais relevante para a construção civil.
Essa demonstração foi repetida outras vezes, até ajudar a mudar a percepção popular sobre elevadores. De uma máquina útil para cargas, eles passaram a ser vistos como um meio de transporte possível para pessoas.
Hoje, a Otis é uma das maiores empresas do mundo em elevadores e escadas rolantes. E isso tem tudo a ver com uma demonstração feita em 1854.
Por que o modelo de negócio da Otis tem alta recorrência
A mudança de percepção sobre segurança, puxada pelas demonstrações feitas no século XIX, deu à Otis uma vantagem de partida.
As pessoas passaram a confiar na marca por conta dos freios de segurança. Isso ajudou a transformar seus elevadores em alguns dos mais cobiçados da época. Mas essa vantagem não ficou presa ao passado. A própria natureza do produto contribuiu para a longevidade das empresas desse setor.

Quando um prédio é projetado, o poço do elevador já nasce pensado para um determinado modelo.
Depois que o elevador é instalado, trocar por outro fornecedor não é uma decisão simples. Envolve obra, adaptação técnica, interrupção do prédio, custo, risco e uma boa dose de dor de cabeça. Além disso, elevadores são equipamentos altamente regulados. Precisam de inspeções, manutenção recorrente, peças, técnicos especializados e alguém responsável por garantir que tudo continue funcionando.
E um bônus com base nas minhas experiências empíricas, sem nenhuma prova estatística: elevadores estão sempre dando problema. Aqui no escritório, sempre tem um, pelo menos, em manutenção. Isso gera uma demora insuportável para nós, usuários. Mas uma mina de ouro para o prestador de serviços e manutenção.
É isso que torna esse negócio tão sem graça em algo muito interessante. A venda do elevador coloca a empresa dentro do prédio. Mas a manutenção faz com que ela continue ali por décadas. O equipamento envelhece, precisa ser revisado, atualizado, modernizado e, eventualmente, trocado.
Dentro do mundo do value investing, isso é uma vantagem competitiva de “switching cost”. Depois que o elevador está instalado, mudar de fornecedor é caro, complexo e arriscado. O produto fica grudado no cliente, e essa base instalada garante uma recorrência relevante de receitas ao longo de décadas.
Por que a ação da Otis caiu 17% em 5 anos

Nos últimos cinco anos, o mercado americano vem surfando em uma alta impressionante. O índice acumula retornos acima de 70% no período. A Otis foi na contramão. No mesmo intervalo, as ações tiveram queda de cerca de 17%.
Isso levanta um questionamento: o que vem dando errado? Considerando que ela é uma empresa líder no setor, com um modelo de negócios recorrente e uma base instalada relevante, essa discrepância chama atenção. Mas também seria simplista dizer que o mercado está apenas “errando” na Otis.
Hoje, a companhia ganha dinheiro em três grandes frentes. A primeira é a venda de novos equipamentos, como elevadores e escadas rolantes. Essa é a parte mais ligada ao ciclo de construção civil. Quando incorporadoras lançam menos projetos, quando juros apertam, quando o mercado imobiliário desacelera ou quando a China vai mal, essa linha sente primeiro.
A segunda frente é manutenção e reparo. Aqui está o lado mais “bonito” do negócio. Depois que o elevador é instalado, ele precisa continuar funcionando por décadas. Isso exige inspeções, peças, técnicos e contratos recorrentes. É uma receita mais previsível, mais resiliente e normalmente mais rentável.
A terceira é modernização. Elevadores antigos precisam ser atualizados ao longo do tempo. Pode ser por eficiência, segurança, conforto, tecnologia ou adequação regulatória. Essa linha fica no meio do caminho entre manutenção recorrente e venda de equipamento novo. Não depende de um prédio novo, mas depende da decisão do cliente de investir na renovação do ativo.

O problema recente da Otis está principalmente na primeira frente.
O mercado de novos equipamentos ficou mais difícil, especialmente por causa da fraqueza da construção na China, e isso pesa negativamente nas receitas. Essa linha de resultado vem apresentando quedas desde o auge em 2021. Isso pressiona o crescimento negativamente.
Por outro lado, o pedaço mais interessante continua funcionando. Manutenção, reparo e modernização continuam apresentando crescimento. Ao mesmo tempo, representam a maior parte do lucro operacional da companhia.
A Otis continua sendo uma boa empresa, mas parte relevante do seu negócio vem passando por um ciclo negativo. A fraqueza em novos equipamentos pesa no crescimento atual e também reduz a base futura de elevadores que poderão gerar serviços recorrentes.
Otis pode voltar a subir? Os desafios que a empresa ainda enfrenta
Após entender um pouco sobre a natureza do negócio e o momento da companhia, a pergunta óbvia é: será que esse elevador sobe?

O mercado de novos equipamentos precisa, no mínimo, parar de piorar. Manutenção e modernização seguem crescendo, representam a maior parte do lucro operacional e continuam sendo o lado mais interessante do negócio.
Se as quedas em novos equipamentos perderem força e o mix continuar migrando para serviços, a Otis pode voltar a entregar crescimento melhor e alguma expansão de margem. Isso parece ser um catalisador positivo para a ação.
Mas existe um problema importante: execução. Ao longo dos últimos anos, a gestão errou nas projeções de forma recorrente e entregou números abaixo do esperado. Em uma tese que depende de estabilização em novos equipamentos, crescimento em serviços e melhora de margem, confiança no management importa bastante.
Pode ser que esse elevador volte a subir. Mas, hoje, ainda existem alguns desafios importantes a serem superados. Vale acompanhar.
1:01:07
Um minuto, um segundo e sete milésimos. Foi esse o tempo que levei para chegar ao 103º andar no Skydeck, em Chicago. Isso dá uma velocidade média de 24,3 km/h. A velocidade máxima chegou a quase 29 km/h, levando-me a 412 m de altura.
Nunca na minha vida tive medo de elevador. Tudo graças a algumas demonstrações feitas por Elisha Otis.

