Hoje, quero contar um pedaço da minha história, porque acredito que, para falar de educação financeira de verdade, é preciso mostrar de onde se veio. Nada melhor do que ensinar o caminho lembrando das pedras em que se pisou.

E o momento não poderia ser mais oportuno: semana passada foi a Semana Nacional da Educação Financeira (Semana ENEF), uma iniciativa que existe para lembrar o Brasil de que dinheiro sem conhecimento é como carro sem freio: uma questão de tempo até o desastre.

A Caloi 10 e a primeira lição sobre dinheiro

Nasci em Brasília, em janeiro de 1970. A capital tinha apenas nove anos de idade. Era, como eu, uma criança ainda. Vim de uma família de funcionários públicos, com renda mensal previsível, porém sem nenhuma educação financeira. O salário entrava dia 5, pagava as contas e, na maioria dos meses, não sobrava nada. Tínhamos acesso ao básico, sem luxos.

Meu grande sonho de criança era ter uma Caloi 10, aquela bicicleta de marchas que, nos anos 80, era o equivalente infantil de um carro importado, mas meus pais não tinham condição de me dar. 

O sonho só virou realidade na adolescência, e o dinheiro veio de aulas particulares de reforço de matemática que eu dava para outros jovens com dificuldade na matéria.

Olhando para trás, percebo que aquela Caloi 10 me ensinou a primeira grande lição financeira antes mesmo de eu saber o que “finanças” significava: se você quer algo além do básico, precisa criar o seu próprio fluxo de caixa. Ninguém vai criar isso por você.

Sempre gostei de matemática e de colecionar coisas: selos, gibis e, principalmente, problemas de xadrez recortados de jornais.

Aprendi a jogar xadrez aos seis anos. Era uma criança meio nerd, mas que também gostava de esportes: além do xadrez, me dediquei muito às artes marciais.

A disciplina do tatame me acompanha até hoje, assim como a paciência do xadrez e, posso dizer: ambas, disciplina e paciência, foram tão importantes para a minha jornada financeira quanto qualquer planilha de Excel.

O experimento do marshmallow e os investimentos

Já que comecei falando da infância, deixa eu trazer aqui um dos estudos mais famosos da psicologia comportamental, feito justamente com crianças. Talvez você já tenha ouvido falar; se não, preste atenção, porque tem tudo a ver com o seu dinheiro.

Imagine a cena: uma criança de quatro anos, sentada sozinha diante de um único marshmallow. O pesquisador sai da sala com uma promessa simples: “Se você não comer esse doce agora, ganhará outro quando eu voltar.”

A escolha parece boba, mas é a representação perfeita do nosso dia a dia financeiro.

Substitua o marshmallow pelo carro do ano financiado em 72 vezes, pela roupa de grife comprada por impulso no cartão de crédito ou pelo delivery diário que, no fim do mês, viram as contas mais altas a pagar. 

O teste de Stanford, feito nos anos 70 e acompanhado por décadas, já dava a pista: a habilidade de adiar pequenas gratificações imediatas é o que determina a sua liberdade no futuro.

As crianças que resistiram ao marshmallow, quando adultas, tinham melhores resultados acadêmicos, profissionais e financeiros. Não porque eram mais inteligentes, mas porque haviam desenvolvido uma habilidade rara: o autocontrole.

A verdade é que somos bombardeados por “marshmallows” a cada clique. O marketing moderno é desenhado para nos fazer devorar o doce imediatamente, vendendo a ilusão de que o conforto de hoje não cobra o preço amanhã. 

O parcelamento em doze vezes “sem juros”, o cashback que incentiva o consumo, a notificação do aplicativo com a oferta relâmpago, são todos marshmallows disfarçados, brilhando na sua tela.

Guardar dinheiro e investir não é sobre passar privação ou viver uma vida sem graça.

É sobre entender que dois marshmallows amanhã compram coisas que um só hoje nunca vai conseguir: a demissão daquele emprego tóxico, a oportunidade de abrir o próprio negócio ou uma aposentadoria sem preocupações.

Quando você aprende a dominar o impulso do agora, deixa de ser refém das contas e assume o controle do seu destino. A segurança de ter escolhas na vida é o doce mais saboroso que pode provar.

Brasília me ensinou estabilidade. Os FIIs me ensinaram liberdade

Brasília é a capital do funcionalismo público. Por lá, o grande sonho de praticamente todo mundo é passar em um concurso público. A lógica é clara: ter estabilidade no emprego e uma renda mensal previsível, recorrente e segura, aconteça o que acontecer. É o marshmallow permanente, servido pelo Estado.

A ideia é semelhante à de montar uma carteira de FIIs para ter renda mensal, mas existe uma diferença fundamental, que pouca gente percebe.

A renda do funcionário público é “eterna enquanto dura”. Ela morre com o servidor (se não houver dependente legal) e volta para o Estado. É uma renda vitalícia, mas não é hereditária de forma ampla. 

Já a renda dos FIIs é diferente: é eterna enquanto os ativos estiverem na carteira e passa de geração em geração, sem prazo de validade, sem depender de legislação de pensão.

Se o trabalho, o concurso, a carreira e o esforço diário foram os grandes responsáveis pelo fluxo de caixa que construiu o meu patrimônio, os FIIs foram, sem sombra de dúvidas, o veículo que transformou esse fluxo de caixa em liberdade financeira geracional. 

Liberdade de escolher como usar o meu tempo e como aproveitar minha vida hoje. Liberdade para os meus filhos fazerem o mesmo no futuro, amanhã.

Brasília me ensinou a importância da renda recorrente. Os FIIs me ensinaram que essa renda pode ser perpétua e hereditária. As duas lições, juntas, formam a base do que eu acredito sobre finanças pessoais.

Semana da Educação Financeira: por que isso importa

Pouca gente sabe, mas a última semana foi a Semana Nacional da Educação Financeira (Semana ENEF). É uma iniciativa que deveria ser manchete de jornal, mas que, infelizmente, passa despercebida pela maioria dos brasileiros e, justamente, pelos que mais precisam dela.

Na semana passada, a Marilia esteve em Brasília, no âmbito da Semana Nacional do Pequeno Investidor. Após sua volta, ela disse uma frase na newsletter, que reflete o que eu acredito:

“O cidadão sem educação financeira vota, estuda e trabalha, mas não consegue proteger o que conquista, tendo, às vezes, que recomeçar do zero. Não entende inflação. Não entende juros. Fica vulnerável a golpes. A cidadania dele ainda está incompleta.”

Pensa comigo. O sujeito trabalha a vida inteira, paga seus impostos, cumpre seus deveres, mas não sabe se proteger daquilo que corrói silenciosamente o fruto do seu trabalho: a inflação, os juros compostos (quando jogam contra você) e os golpes financeiros que se multiplicam a cada dia.

É como construir uma casa e deixar a porta aberta. O esforço de erguer cada parede fica à mercê de quem quiser entrar e levar o que é seu.

Saber ganhar dinheiro com uma profissão e não saber como usar esse dinheiro em benefício do próprio futuro, para mim, é algo surreal!

A liberdade vem com o conhecimento

A educação financeira é o primeiro passo para a liberdade financeira. E poder usufruir dos frutos do seu trabalho, sem medo do futuro, é o exercício puro e simples do que chamamos de cidadania financeira.

O conhecimento, vindo da educação, liberta. Liberta do medo de investir, do medo da Bolsa, do medo de não ter renda na aposentadoria. 

É por isso que escrevo esta newsletter toda semana: porque acredito que cada leitor que entende um pouco mais sobre FIIs está um passo mais perto de não depender de ninguém. 

A minha Caloi 10 me ensinou que eu precisava criar meu próprio fluxo de caixa. O marshmallow me ensinou que a paciência é a virtude mais rentável que existe. Brasília me ensinou o valor da renda recorrente. E os FIIs me ensinaram que tudo isso pode ser eterno.

Por que os FIIs são tão importantes na educação financeira

Agora, deixa eu conectar tudo isso com o que fazemos aqui, semana a semana.

Os fundos imobiliários são, na minha visão, o veículo mais didático de educação financeira que existe no mercado brasileiro, e explico por quê.

São investimentos tangíveis

Primeiro, porque são tangíveis. É possível visitar o shopping, o galpão logístico, a laje corporativa. Diferente de uma ação, que é uma fração abstrata de uma empresa, o FII de tijolo tem um ativo real que você pode apontar e dizer: "aquilo ali paga o meu aluguel". Essa concretude facilita o aprendizado e reduz o medo de quem está começando.

Geram renda mensal 

Segundo, porque pagam rendimentos mensais, assim como um imóvel alugado, só que sem a dor de cabeça do inquilino, do encanamento e do IPTU — e é aqui que a mágica do segundo marshmallow acontece. 

Cada rendimento recebido e reinvestido vira mais cotas. Mais cotas geram mais rendimentos. Mais rendimentos compram mais cotas. O ciclo se retroalimenta e os juros compostos fazem o trabalho pesado, mês a mês, como uma bola de neve que rola a seu favor.

São acessíveis 

Terceiro, porque são acessíveis. Você não precisa de milhões para comprar um imóvel na Faria Lima. Com menos de R$ 100, já pode ser sócio de um. A porta está aberta para quem tem disciplina, mesmo que o capital inicial seja pequeno. O que separa quem constrói patrimônio de quem fica parado não é o tamanho do primeiro aporte — é a constância dos próximos.

Não importa se é funcionário público, empresário, autônomo ou CLT. O contracheque, seja ele qual for, é apenas o ponto de partida. O que você faz com o que sobra, ou melhor, com o que decide que vai sobrar, é o que transforma estabilidade em liberdade. 

A estabilidade depende de um sistema. A liberdade, só de você.