Meta no 2T26: receita forte, lucro fraco e a conta que o mercado quer ver
A Meta cresceu 28% em receita no 2T26, mas o lucro caiu 14% e a margem foi de 43% para 31%. Confira a análise do balanço e a conta de retorno sobre o capex
A Meta (META; M1TA34) divulgou resultados do 2T26 com crescimento forte de receita, boa performance do negócio de publicidade, mas lucro e margens abaixo do esperado.
O resultado não foi ruim do ponto de vista operacional. A companhia continua crescendo receitas em ritmo elevado e os anúncios seguem fortes: o preço por ad aumentou e a base de usuários ainda avança. O problema é que, para o mercado atual, isso não foi suficiente.
As despesas vieram muito pressionadas por itens não recorrentes, principalmente multas, acordos judiciais e custos de desligamento. Ainda assim, mesmo ajustando esses efeitos, o resultado teria sido apenas ligeiramente acima das expectativas.
Em um mercado que vem premiando empresas com revisões relevantes para cima, especialmente dentro da cadeia de AI, a Meta entregou um trimestre abaixo do que os investidores queriam.
Resultados da Meta no 2T26

A Meta reportou receita de US$ 60,8 bilhões, crescimento de +28% na comparação anual e acima da expectativa de US$ 60,2 bilhões. Em base constante de câmbio, a receita teria crescido +27%.
A receita de publicidade foi de US$ 59,4 bilhões, alta de +27% contra o 2T25 e também acima do consenso, que esperava algo próximo de US$ 59 bilhões.
O negócio principal da companhia continua performando muito bem. A Meta segue capturando mais demanda publicitária, monetizando melhor seu inventário e usando IA para melhorar recomendação, segmentação e performance dos anúncios.
O ponto fraco ficou no lucro. O lucro operacional foi de US$ 18,8 bilhões, queda de -8% na comparação anual e abaixo da expectativa de US$ 21,5 bilhões. A margem operacional caiu de 43% no 2T25 para 31% no 2T26. O lucro líquido foi de US$ 15,8 bilhões, queda de -14% a.a., enquanto o EPS ficou em US$ 6,18, abaixo dos US$ 7,22 esperados pelo mercado.
O lucro contábil foi afetado por despesas não recorrentes. No trimestre, a Meta reconheceu US$ 2,4 bilhões em encargos relacionados a processos judiciais e US$ 1,18 bilhão em despesas de severance ligadas à redução de headcount anunciada em maio.
Somados, esses itens chegaram a aproximadamente US$ 3,6 bilhões. Sem eles, o lucro operacional teria ficado mais próximo de US$ 22,4 bilhões, acima do consenso. Ainda assim, a qualidade do trimestre não foi suficiente para mudar a percepção do mercado.
Publicidade cresce 27% com volume e preço subindo juntos
O negócio de anúncios segue sendo o principal motor da Meta e, nesse trimestre, continuou crescendo em ritmo muito forte.
A receita de ads avançou +27% na comparação anual, para US$ 59,4 bilhões. O crescimento veio de uma combinação saudável entre volume e preço. As impressões de anúncios cresceram +14% a.a., enquanto o preço médio por anúncio subiu +12%.
Esse é um ponto importante. A Meta continua conseguindo entregar mais anúncios e cobrar mais por eles. Normalmente, quando uma plataforma aumenta muito a quantidade de impressões, existe risco de pressão no preço por ad. Neste trimestre, aconteceu o contrário: a companhia expandiu volume e preço ao mesmo tempo.
A base de usuários também continua crescendo. O número de pessoas ativas diariamente na família de aplicativos chegou a 3,60 bilhões, alta de +3% na comparação anual.
Em uma empresa com escala global, esse crescimento já é relevante por si só. A Meta ainda está adicionando usuários e, mais importante, está monetizando melhor cada pessoa dentro do ecossistema.
A receita média por pessoa da família de aplicativos chegou a US$ 16,86, acima dos US$ 13,65 do 2T25. Essa evolução reforça que o crescimento não vem apenas da expansão da base, mas também de maior monetização, melhor eficiência dos anúncios e maior relevância comercial das plataformas.
Family of Apps segue forte, Reality Labs continua pesando

O Family of Apps, que reúne Facebook, Instagram, Messenger, WhatsApp e outros serviços, gerou receita de US$ 60,4 bilhões, crescimento de +28% na comparação anual. O lucro operacional do segmento foi de US$ 23,4 bilhões, queda de -6% contra o 2T25.
Essa queda não reflete uma deterioração do negócio de publicidade. Ela está mais ligada ao aumento de custos, aos investimentos em IA e aos itens não recorrentes reconhecidos no trimestre. O negócio principal continua extremamente lucrativo, mas a margem foi pressionada pelo crescimento mais forte das despesas.
Reality Labs segue sendo uma fonte relevante de perdas. A divisão gerou receita de US$ 431 milhões, crescimento de +16% a.a., mas apresentou prejuízo operacional de US$ 4,6 bilhões. A perda foi ligeiramente maior do que no mesmo período do ano anterior.
Esse continua sendo um ponto de atenção. A Meta investe há anos em realidade virtual, realidade aumentada, dispositivos e plataformas imersivas, mas o retorno financeiro ainda não apareceu em escala.
A empresa tem balanço e lucro suficiente para financiar esses investimentos, mas, em um trimestre no qual o mercado já está preocupado com capex e retorno em IA, Reality Labs adiciona mais uma camada de pressão sobre a análise de capital allocation.
Margens pressionadas por despesas e não recorrentes
As despesas totais da Meta cresceram +55% na comparação anual, para US$ 42 bilhões. Esse crescimento explica a queda do lucro operacional, mesmo com receita avançando +28%.
A linha de custo de receita subiu para US$ 11,3 bilhões, alta de +33%, refletindo maior infraestrutura, depreciação, data centers e custos associados à expansão computacional.
Pesquisa e desenvolvimento chegou a US$ 21,7 bilhões, crescimento de +67%, impulsionada principalmente por AI, infraestrutura, produtos e remuneração baseada em ações. Marketing e vendas cresceram +15%, para US$ 3,4 bilhões. Já G&A mais que dobrou, para US$ 5,6 bilhões, pressionada pelos US$ 2,4 bilhões de encargos legais.
A margem operacional caiu de 43% para 31%. Parte relevante dessa queda vem dos não recorrentes, mas o crescimento das despesas estruturais também merece acompanhamento. A Meta está investindo de forma agressiva em IA, infraestrutura, talentos, pesquisa e data centers.
O mercado aceita esse investimento quando enxerga retorno. Quando o lucro fica aquém do esperado, a tolerância diminui.
O fluxo de caixa livre também foi fraco no trimestre. A Meta gerou US$ 31,9 bilhões de caixa operacional, mas o capex atingiu US$ 31,1 bilhões. Com isso, o free cash flow ficou em apenas US$ 784 milhões, contra US$ 8,5 bilhões no 2T25. Esse número resume bem a fase atual da companhia. O negócio operacional gera muito caixa, mas a maior parte está sendo reinvestida em infraestrutura.
Guidance do 3T26 e o capex de até US$ 145 bilhões
Para o 3T26, a Meta espera receita entre US$ 61 bilhões e US$ 64 bilhões. O ponto médio da faixa fica próximo de US$ 62,5 bilhões, em linha com o que o mercado esperava. A companhia também indicou que o câmbio deve representar um impacto negativo de aproximadamente um ponto percentual no crescimento anual da receita.
O guidance não foi ruim, mas também não trouxe uma surpresa positiva relevante. Em um ambiente no qual o mercado está recompensando empresas que revisam expectativas de lucro para cima, a Meta voltou a entregar uma mensagem mais próxima do esperado.
Nas despesas, a companhia elevou a parte inferior da faixa para incorporar os US$ 2,4 bilhões em encargos legais reconhecidos no trimestre. Agora, espera despesas totais entre US$ 165 bilhões e US$ 169 bilhões em 2026. Mesmo assim, continua projetando lucro operacional acima do registrado em 2025.
No capex, a Meta ajustou a faixa para US$ 130 bilhões a US$ 145 bilhões em 2026, contra a projeção anterior de US$ 125 bilhões a US$ 145 bilhões. O mercado já esperava algum aumento de investimentos, e a mudança acabou sendo menor do que muitos temiam. Ainda assim, estamos falando de um volume gigantesco de capital sendo direcionado para data centers, servidores, GPUs, rede, energia e infraestrutura computacional.
Esse é o centro da tese hoje. A Meta não é mais analisada apenas como uma empresa de publicidade digital. Ela também passou a ser analisada como uma das maiores investidoras do mundo em infraestrutura de IA.
A conta mais importante: retorno sobre capex

O mercado está olhando com lupa para o retorno que as grandes empresas de tecnologia geram sobre a montanha de dinheiro investida em IA. A conta mais comum é comparar o NOPAT incremental com o capex dos últimos 12 meses.
No caso da Meta, quando olhamos o capex dos últimos 12 meses, chegamos a um valor próximo de US$ 90 bilhões. Em termos de NOPAT incremental, a companhia gerou algo próximo de US$ 9 bilhões. Isso sugere um retorno de aproximadamente 9% a 10% sobre o capital investido.
Esse número ainda está aquém do que as hyperscalers conseguem mostrar.
A Alphabet, por exemplo, deve ter um incremento de EBIT próximo de US$ 42 bilhões em 2026, com capex estimado de US$ 132 bilhões. Aplicando uma alíquota de imposto de aproximadamente 14%, o NOPAT incremental seria próximo de US$ 37 bilhões. Isso resultaria em um retorno sobre capex de aproximadamente 28%.
A diferença é simples. As hyperscalers vendem parte relevante da capacidade que estão instalando. A Meta, por enquanto, usa a maior parte da infraestrutura para melhorar seus próprios produtos, anúncios, recomendações, modelos e iniciativas internas. Esse retorno existe, mas aparece de forma menos direta no resultado. Para o mercado, isso torna a conta mais difícil de defender.
É aqui que entra a grande opcionalidade. A Meta pode passar a vender ou alugar parte dessa capacidade computacional.
Se a empresa vender apenas 1 GW de capacidade, o incremento potencial de EBIT poderia chegar a algo próximo de US$ 17 bilhões. Somando isso aos US$ 10 bilhões de NOPAT incremental que a companhia já vem gerando, e descontando impostos, a conta se aproximaria de US$ 23 bilhões de NOPAT incremental. Sobre os mesmos US$ 90 bilhões de capex, o retorno passaria para algo perto de 26%.
Esse é o número que o mercado quer ver. A Meta já está fazendo o investimento. A pergunta é se parte dele pode virar uma fonte direta de receita, e não apenas uma melhora indireta do negócio de anúncios.
A companhia já indicou que está avaliando vender capacidade computacional. Se isso sair do campo da possibilidade e virar produto, a percepção do mercado pode mudar bastante. A Meta deixaria de ser vista apenas como uma empresa gastando dezenas de bilhões em AI para defender e melhorar seu próprio ecossistema. Passaria a ter uma narrativa mais parecida com a das hyperscalers, vendendo infraestrutura para terceiros e mostrando retorno mais direto sobre capital.
Vale a pena investir na Meta após o 2T26?
O 2T26 foi um trimestre abaixo do que esperávamos. A receita veio bem, o negócio de anúncios continua forte e a base de usuários segue saudável. Mas lucro, EPS, margem e free cash flow decepcionaram.
Parte relevante da pressão veio de itens não recorrentes. Isso importa, porque o resultado reportado parece pior do que o resultado operacional subjacente. Ao mesmo tempo, mesmo ajustando esses efeitos, o trimestre teria sido apenas razoável. A Meta não entregou uma grande surpresa positiva, e o mercado atual tem sido pouco tolerante com empresas que não revisam lucro para cima de forma clara.
Ainda assim, a tese continua interessante.
A Meta segue sendo uma das melhores empresas de publicidade digital do mundo, com escala global, engajamento massivo, ferramentas de IA cada vez mais relevantes para anunciantes e um negócio principal altamente lucrativo. Além disso, a companhia carrega uma opcionalidade relevante em infraestrutura computacional. Se conseguir monetizar parte da capacidade que está construindo, a conta de retorno sobre capex melhora de forma significativa.
Os riscos são evidentes. Capex muito alto, pressão regulatória, custos legais, Reality Labs, competição por talentos e a necessidade de provar retorno em IA. Mas a empresa ainda tem uma das melhores combinações de crescimento, margem e escala dentro da tecnologia global.

